Não há qualquer problema no convite da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra a Sócrates para fazer uma palestra. O problema foi que o antigo PM não proferiu uma palestra. Fez um discurso político a defender o seu governo e a atacar o executivo de Passos Coelho. Não me parece que as Universidades públicas, pagas por todos os contribuintes portugueses, sejam o local adequado para se fazer discursos políticos. Para isso, Sócrates tem as universidades de Verão do seu partido.

Por isso, as comparações que alguns fizeram entre o convite a Sócrates e a contratação de Passos Coelho para dar aulas não fazem sentido algum (são mesmo ridículas). Passos Coelho vai dar aulas, não vai fazer discursos. Sócrates, pelo contrário, foi fazer um discurso político aos alunos de Coimbra. Só quem não entende a diferença entre uma palestra e um discurso é que não compreende o que Sócrates foi fazer.

Mas Sócrates poderia ter dado uma palestra. Possui as competências e a experiência para o fazer. Mas não o fez; e não o fez propositadamente. A questão relevante é a seguinte: por que razão, convidado para fazer uma palestra, Sócrates fez um discurso político? Há duas respostas possíveis. Para uns, Sócrates é um animal político e por isso não faz palestras académicas. Cada vez que fala em público, mesmo que seja numa universidade, faz intervenções políticas. Este argumento em parte está certo, mas não explica tudo.

Sócrates está a criar condições para ser candidato presidencial e está a testar as águas da política nacional. Bem sei que enfrenta um pesado processo judicial e poderá, em 2021, estar a lutar na justiça, sem condições para uma candidatura presidencial. Mas, como bem sabemos, no nosso país as coisas mudam, e nem sempre para melhor. Imaginem que a Procuradora Geral da República abandona as suas funções no final do ano e o seu substituto ou a sua substituta deixa de tratar o processo do antigo PM como uma prioridade. Ninguém sabe o que vai acontecer. E Sócrates sabe isso muito bem. Aliás, a sua estratégia de defesa é claramente adiar o processo, através de todo o tipo de recursos, para ganhar tempo. Alguns dizem que, se puder, Sócrates concorre às eleições presidenciais. Eu iria mais longe. Sócrates só não será candidato se não puder.

Se nos colocarmos no lugar de Sócrates, uma candidatura a Belém faz todo o sentido. Aliás, a única coisa que faz sentido para Sócrates é ser candidato a Belém. Desde o início do processo judicial, Sócrates tem usado dois argumentos. Em primeiro lugar, afirma a sua inocência e, em segundo lugar, diz que é vítima de um ataque político por parte das autoridades judiciais. Ou seja, para Sócrates, não há qualquer investigação judicial, mas sim a politização da justiça para o afastar da vida pública. Aqui, a verdade, as evidências ou o que as autoridades judiciais pensam são secundárias. O que interessa, para entender as motivações de Sócrates, é tentar perceber no que acredita o antigo PM. Se está convencido que enfrenta um caso político, então a melhor maneira de fazer a sua defesa é no plano político. Dito de outro modo, para Sócrates, uma campanha nacional será fundamental para apresentar aos portugueses a sua versão do caso judicial que enfrenta e para se defender. Se o caso é político, a sua defesa deverá ser feita numa campanha política, e não nos tribunais. Por isso, reafirmo que Sócrates só não será candidato presidencial se não puder.

Se olharmos para a questão deste modo, percebemos ainda que Sócrates constitui um problema político sério para António Costa. Só não é um sarilho ainda mais complicado porque as eleições legislativas são antes das presidenciais. Costa poderá fazer uma de duas coisas para lidar com o problema Sócrates. Não se intromete nem deixa que alguém se intrometa no processo judicial. Por exemplo apoiará a renovação do mandato da actual Procuradora Geral da República. Há um risco para António Costa. A justiça condenar por actos de corrupção um antigo PM socialista no exercício das suas funções. Será apesar de tudo menos grave, para Costa, se isso acontecer depois das eleições de 2019.

A segunda opção para Costa, e talvez a mais tentadora, será contribuir para que a justiça se torne menos activa e mais demorada e, desse modo, ajudará a estratégia de Sócrates. Claro que para Costa uma candidatura de Sócrates a Belém ainda não é um problema porque 2021 é demasiado longe para causar preocupações ao PM. Costa é um político da escola que acredita que a melhor solução para muitos problemas é adiar a sua solução. Talvez tenha razão, mas se seguir os seus instintos estará a contribuir para tornar a candidatura de Sócrates inevitável.

Aqui chegamos ao outro grande problema de Sócrates: chama-se António Costa. Aos olhos de Sócrates, Costa cometeu o pior dos actos: a traição. Nada fez para o ajudar na maior luta da sua vida. Sócrates nunca perdoará a Costa. Além disso, Sócrates nunca terá qualquer respeito por Costa. Para ele, o actual PM será sempre um número dois (como um dia disse Tony Blair de Gordon Brown, “once a number two, always a number two”). Quando olha para o actual governo, Sócrates deve pensar que Costa ocupou o seu lugar, a liderança que lhe pertence. No discurso de Coimbra, Sócrates não elogiou o governo de Costa. Afirmou que o actual governo está apenas a fazer o que o seu executivo já havia feito e o que ele faria se estivesse hoje em São Bento. No mundo de Sócrates, Costa não é um líder político. Está simplesmente a ocupar o seu lugar porque a justiça o afastou da vida política activa. Sócrates não só despreza Costa, como acha que o actual PM é o grande beneficiado da injustiça que se abateu sobre a sua vida.