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José Sócrates está finalmente sozinho, julgado agora na praça pública por aqueles para quem, durante quatro anos, só havia presunção de inocência. Mas antes da semana passada, Sócrates nunca esteve sozinho. Vamos entender-nos: terá havido muita gente que, até 2014-2015, não sabia que um administrador do grupo Lena pagava as contas de Sócrates; mas essa gente sabia das suspeitas que houve sempre sobre o primeiro-ministro e sabia também, porque não era possível não saber, que para esse primeiro-ministro, fazer política consistia em dominar a CGD e o BCP, controlar a PT, e calar o Jornal de Sexta da TVI.

Em Setembro de 2014, António José Seguro, no debate com António Costa, acusou-o de ser apoiado por um “partido invisível que mistura negócios e política”. Para perceber esta “mistura”, é preciso inserir Sócrates e os seus colegas na geração de políticos de esquerda que chegou ao governo, em Portugal e no resto da Europa, na década de 90. A inflação e a queda do muro de Berlim tinham desacreditado o socialismo. Os socialistas da chamada “Terceira Via” já não queriam transformar nem sequer compreender o mundo: queriam apenas mandar nele. E para mandar, perceberam que a promiscuidade com os grandes interesses era muito mais eficaz do que as velhas nacionalizações, que apenas tinham sobrecarregado o Estado com um museu de ruínas industriais. Em Inglaterra, Tony Blair fez-se amigo de casa de Rupert Murdoch, o patrão da imprensa conservadora; em Portugal, Sócrates acabou por tornar-se o “Zé” de Ricardo Salgado. Tiveram assim com eles uma parte da burguesia, encantada com estes socialistas que já não a queriam expropriar, mas apenas ir aos mesmos alfaiates e às mesmas festas.

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