Que a Amazon está a ficar grandinha, ninguém tem dúvidas. Se a ideia é expressar o facto de a Amazon estar a ficar grande demais, tenho dúvidas. Se a ideia final for começar a morder-lhe os calcanhares e a tentar travar-lhe o sucesso, de forma obsessiva, sucesso esse que tem sido conseguido com genialidade e mérito, não tenho dúvidas. Porém, recuso-me a aceitar que a forma mais interessante de criar ou recriar outra paisagem comercial para além da Amazon, qualquer que seja, possa surgir por via dos Tweets de Trump ou por meio de manobras dilatórias. A forma, única, é através de negócio. E ao negócio – negócios – tem faltado muito para poder acompanhar a Amazon.

Pode perguntar-se porquê fazer da Amazon um alvo? Porque a Amazon, goste-se ou não, tem vindo a mudar o paradigma do retalho no mundo. E isso incomoda, sobretudo quem não acompanha o ritmo do mundo e a mudança imposta pela própria Amazon. Porquê? Primeiro porque a Amazon é o que é no comércio eletrónico. Depois porque comprou infraestrutura física e uma cadeia de lojas físicas – Whole Foods – na área alimentar, procurando agora transformá-la. Depois porque a quantidade de serviços prestados aos clientes se multiplica. Clientes com cultura “I want it now” estão a pedir à Amazon entregas rápidas de todos o tipos de produtos, alimentares incluídos, e a Amazon está a responder com conta, peso e medida.

O que tem vindo a passar-se entre Donald Trump e a Amazon? Trump tem criticado a Amazon pelo seu excessivo tamanho e pelo poder que detém. Numa sociedade livre todos têm direito a exprimir a sua opinião. Não obstante, tweets contra a Amazon podem sair caros a vários níveis.

Para já, alguns factos: segunda-feira de Páscoa começou da pior forma para a Amazon após um ataque por Tweeter de Donald Trump; A bolsa americana caiu mais de 2,5%; As ações da Amazon caíram mais de 12% em pouco mais de 15 dias (5,2% apenas na segunda-feira passada; ontem, porém, as ações da Amazon voltaram a crescer quase 3% e juntando o 4 e o 5 de Abril recuperaram as perdas de segunda-feira de Páscoa), desde que Trump se começou a “entreter” com o gigante do retalho global.

Trump supõe que a Amazon não paga o suficiente em impostos e que tem usado e abusado do U. S. Postal Service como seu “moço de recados” para entregas. Pode ter as suas razões, por mais obtusas que sejam. Talvez Bernie Sanders também ache o mesmo e ambos se preocupem mais com o peso do gigante global do retalho do que com o que possa estar a emergir em termos de novo paradigma.

No entanto, alguém terá de explicar a Trump alguns outros factos e um mais que provável efeito boomerang.

Primeiro, a Amazon cai e certamente que o índice bolsista norte-americano cai (S&P e Nasdaq). E todas as tecnológicas acompanham. Hoje em dia, não há como evitar. Pode-se gostar ou não mas para um presidente que, recentemente, bramou contra os mercados por terem cedido a uma correção este ataque pode parecer estranho. Por um lado diz-se que a queda dos mercados não é coisa boa, por outro ataca-se a Amazon que tem um peso grande nos mercados. Por um lado diz-se que os fundamentais da economia americana estão bons e que os “senhores da bolsa” não podem deixar as ações cair. Por outro ataca-se um peso pesado bolsista como a Amazon. Para paradoxo é difícil arranjar muito melhor. Mas paradoxos destes tem Trump oferecido aos milhares ao mundo. De forma gratuita.

Segundo, neste momento estima-se que cerca de 90 milhões de americanos adultos tenham acesso ao serviço Prime da Amazon. Cerca de 60 milhões de lares americanos recebem produtos via Amazon Prime. O Amazon Prime é uma espécie de clube de fiéis seguidores e compradores da Amazon que estão dispostos a pagar 99 dólares por ano para receberem os serviços da Amazon durante um ano. O Prime oferece, entre outros, entrega gratuita em 2 dias em todos os EUA (e já não só). Há também o Prime Instant Video (serviço de streaming de vídeos disponibilizado aquando da subscrição do Amazon Prime), o Prime Music (serviço de streaming de música também oferecido aquando da subscrição do Amazon Prime) e o Prime Lending Library (com um kindle consegue-se aceder a milhares de livros gratuitos; também oferecido aquando da subscrição do Amazon Prime).

Voltando aos números, 90 milhões de americanos, sendo muitos deles de base republicana, a mesma que elegeu Trump, estão envolvidos indiretamente nesta contenda. No ano de novas eleições, 2020, a base de utilizadores do Amazon Prime nos EUA está estimada em 240 milhões de adultos. Onde fica a base geográfica de apoio a Trump com estes números avassaladores?

Terceiro, nem vendedores nem compradores via Amazon querem ver as tarifas alteradas em relação a shipping. Mesmo o U.S. Postal Service tem vindo a reafirmar que tem beneficiado muito da utilização dos seus serviços pela Amazon. A queda do serviço postal convencional abriu a oportunidade ao negócio da paqueteria, nomeadamente com o cliente Amazon. Assim de um momento para o outro, aumentar shiipping costs contra tudo e todos é comprar uma guerra com pelo menos 100 milhões de compradores diretos Amazon (os não Prime). Isto custa igualmente muitos votos e muita popularidade.

Quarto, parece difícil que Trump consiga convencer os seus apoiantes a deixar de comprar via Amazon, eliminando os benefícios que lhes são oferecidos. Claro está que há outros retalhistas mas com a oferta da Amazon e o serviço Amazon Prime parece difícil acreditar que qualquer outro concorrente consiga lançar um pacote tão benéfico em tão pouco tempo, almejando chegar aos 240 milhões de habitantes em 2020.

Quinto, é melhor recordar também os ataques à Uber, cidade após cidade e percorrendo mundo. O tempo apaga tudo. E a Uber ganhou-os quase todos. E esse mesmo tempo cria condições para um conjunto de manifestantes enfurecidos se acostumarem ou perecerem perante o negócio. Táxis, certamente. Mas voltaram ao aeroporto de Lisboa no pós-Uber? Há muito mais simpatia no ar. O tempo elimina estas questões, contendas e birras. A Uber continua. E há ainda mais concorrência hoje em dia. Bom para o consumidor final. Cuidem-se, pois, os que acham que não é através do negócio a forma legítima e a mais interessante de ganhar ao negócio.

Para finalizar, a Amazon ficará neste mundo bem mais tempo que o tempo de Trump. Assim, repito, alguém (ou ninguém!) tem de avisar Trump de que esta não é uma guerra pueril como muitas que tem travado. E que de nada lhe irá servir a não ser prejudicá-lo. Até porque a Amazon sairá sempre vencedora.

Minha opinião, a pérola mais interessante dos tweets de Trump é este do passado 29 de Março e que reza assim:

“I have stated my concerns with Amazon long before the Election. Unlike others, they pay little or no taxes to state & local governments, use our Postal System as their Delivery Boy (causing tremendous loss to the U.S.), and are putting many thousands of retailers out of business!”

Faz-me lembrar várias coisas num mundo em que já não ando há assim tão pouco tempo. A primeira, e a começar pelo fim, foi a guerra que o pequeno comércio tentou travar à moderna distribuição. Os mais antigos lembram-se certamente de como foi. Fim da história e histeria: pueril e desnecessária a guerra. Depois o pagamento de impostos e o quão prejudicial tudo isto será para os EUA. Talvez Trump queira ver o U.S. Postal Service colapsar à conta da saída da Amazon para outros players com quem trabalha, FedEx e UPS, por exemplo, ou a internalizar serviços e a desenvolvê-los com meios próprios. Pueril mais uma vez a tentativa. Finalmente, a pseudo precupação patriótica como pano de fundo. A esta nem comentário faço a não ser que esta guerra, a continuar, sairá cara, bem cara a Trump. Pueril, portanto e de novo, para acabar.

Se há forma de perder bem e em grande, seguindo o mote de Trump (apenas a parte do “em grande”), é meter-se com um gigante que não vai perder. Mais ainda sem ser por via do negócio. E sem ser por via das ideias. Porque os seus amigos que perderam pequenos supermercados e malls reclamam contra a Amazon? Mau demais. Nunca vi ninguém ganhar ao tempo e aos novos paradigmas trazidos pelos mercados e por esse mesmo tempo. Portanto, isto é uma espécie de Trump 101: será uma enciclopédia ilustrada sobre a derrota.

Os negócios, felizmente, acontecem porque há mercado e o mercado os quer. Não porque alguém, mesmo presidente, gostaria que eles acontecessem ou não. Bom seria, e já agora e se não fosse pedir muito, que Trump aprendesse algo com as derrotas. Porque neste caso é certo que vai ter uma.

Professor Catedrático, NOVA SBE – NOVA School of Business and Economics; crespo.carvalho@novasbe.pt