Os produtores de leite da zona do Minho e Douro Litoral alertam para o facto de que a maioria das explorações leiteiras estão numa situação financeira insustentável, lembrando que se está “a vender leite mais barato do que água”. A Comissão Europeia já anunciou que vai desbloquear imediatamente um pacote de ajuda no valor de 500 milhões de euros, para apoiar os produtores agrícolas europeus, sobretudo do setor do leite, face às atuais dificuldades.

“Este pacote permitirá que 500 milhões de euros de fundos da UE sejam utilizados imediatamente em benefício dos agricultores. Esta é uma resposta robusta e demonstra que a Comissão assume de forma muito sérias as suas responsabilidades face aos agricultores”, declarou Jyrki Katainen, vice-presidente do executivo comunitário.

O anúncio teve lugar durante uma reunião extraordinária de ministros da Agricultura da União Europeia, em Bruxelas ao mesmo tempo que milhares de agricultores, sobretudo produtores de leite se manifestaram.

Entre os manifestantes contavam-se cerca de duas dezenas de portugueses, tendo Fernando Cardoso, secretário-geral da Fenelac (Federação Nacional das Cooperativas de Produtores de Leite), apontado que a crise que o setor do leite atualmente atravessa se deve em muito à “falta de políticas da UE”, pois “o mercado nem sempre é eficiente, e neste momento não é eficiente”, pelo que necessita de regulação.

“Há um grande desequilíbrio entre a oferta e a procura – há muito mais oferta que a procura – e o objetivo de uma política é exatamente (ser acionada) quando o mercado não responde às exigências”, disse, comentando que um das razões para o desequilíbrio atual foi a decisão de por fim às quotas, “um instrumento que permite controlar a oferta de leite na UE sem custos para o contribuinte”.

Em  Portugal, alguns produtores da região reuniram-se numa exploração em Vila do Conde para deixar um apelo aos consumidores nacionais que bebam leite português, mas, também, para pedir maior colaboração por parte do Governo.

“A mensagem para o nosso Governo, mas também para os setores da distribuição e da indústria, é que parte do problema resolve-se em Bruxelas, mas também tem de haver uma intervenção nacional”, começou por dizer Carlos Alves, da Associação de Produtores de Leite de Portugal – APROLEP.

O empresário revelou “esperança moderada” nas negociações que decorrerem em Bruxelas, na Comissão Europeia, para se fixar um novo preço de referência a partir do qual a União Europeia comprará os excedentes do mercado, e explicou o motivo da sua relutância.

“Já existe um preço em que a Europa intervém comprando os excedentes do mercado, mas é muito baixo. Resta saber se hoje vai ser negociado um aumento simbólico ou algo realmente significativo. Porque como está atualmente não compensa”, disse o produtor.

De acordo com a Comissão Europeia, o pacote de ajudas agora anunciado visa fazer face às dificuldades de liquidez que os agricultores estão a enfrentar, a estabilizar os mercados e a melhorar o funcionamento da cadeira de fornecimento, assegurando Bruxelas que, quando determinar a distribuição deste envelope, “será dada particular atenção aos Estados-membros e agricultores mais afetados pelos desenvolvimentos de mercado”.

“O preço de intervenção está entre 18 e 21 cêntimo por litro, mas o que precisávamos era de 34 cêntimos. E nem queremos estar sempre a trabalhar para a União Europeia, pois se, tal como em França, existisse um acordo com os sectores da indústria e distribuição para vendermos a esse preço, ficaríamos bem”, completou Carlos Alves.

Para alcançar esse acordo, os produtores apelam à intervenção do Governo e do Presidente da República, mas pedem, também, para que se consuma mais leite nacional.

“Não queremos inflacionar o preço do leite, mas se a indústria e a distribuição colocarem à venda a um preço razoável e os consumidores preferirem leite nacional as coisas melhoravam. O que não podemos é estar vender leite mais barato do que água”, afirmou o produtor, completando.

“Não gostaria que as manifestações muito violentas que aconteceram em França se pudessem repetir aqui em Portugal. Mas estamos a sentir-nos abandonados e ignorados por toda a cadeia do setor”, concluiu.

Outro produtor, Manuel Azevedo, de 40 anos, que detém uma exploração familiar em Vila do Conde, partilhou os números da sua empresa para justificar a afirmação de que “a situação está insustentável.

“Tenho 230 vacas, que por mês produzem 85 mil litros de leite. O comprador está, de momento, a pagar-me 23 cêntimos por litro, mas isso representa um prejuízo de 10 cêntimos em cada litro que produzo”, explicou.

Manuel Azevedo lembrou que em janeiro de 2014 recebia por litro de leite 39 cêntimos e que um ano depois o preço caiu para 29 cêntimos.

“Para podermos viver deste negócio precisamos de receber pelo menos 35 cêntimos por litro, porque só os custos de produção representam 33 cêntimos”, apontou.

O produtor vila-condense lembra que o setor, que representa 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, que cria cerca de 100 mil empregos diretos e indiretos, e que concentra na zona de Minho e Douro Litoral 55% do leite produzido em Portugal Continental, poderá “não sobreviver se a situação continuar como está”.

“Alguns produtores que conheço fecharam as explorações, outros estão prestes a fazê-lo. Eu não sei quanto tempo mais consigo aguentar, e felizmente não tenho empréstimos de investimentos senão seria impossível continuar”, descreveu.