Rádio Observador

Congresso do PS

A sombra que não larga Costa nem os congressos do PS

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Já foi quase impronunciável, depois saudado timidamente e agora saiu do partido. Sócrates tem ensombrado os principais momentos partidários do atual líder do PS. E tudo começou pela mão de... Costa.

A tirada de outros tempos de António Vitorino assenta que nem luva nos últimos anos socialistas — os primeiros da era Costa — com uma adaptação: Não há festa nem festança socialista sem que perguntem por… José Sócrates. Perde-se em rima (e em rigor popular), mas fica-se com uma imagem que retrata bem o que tem acontecido desde 2014. Não há momento alto da liderança de António Costa que não tenha o caso Sócrates a correr ao lado, como uma sombra. E esta caminhada paralela começou até por responsabilidade de Costa e ainda antes de chegar a líder do PS. Não se lembra? Foi em 2013, em Coimbra. Foi o início desta relação embaraçada que começa com António Costa a acusar outro tipo de desconforto. Já lá vamos.

Certo é que o próximo congresso socialista, que se realiza entre sexta-feira e domingo, é mais um momento que terá o espírito de Sócrates a pairar. Desta vez por causa da descolagem que vários dirigentes socialistas fizeram em relação ao antigo líder, a pretexto do caso Manuel Pinho, e que resultou na desfiliação do antigo primeiro-ministro do partido. A ideia foi retirar pressão do PS depois do surgimento de mais um caso judicial a envolver alguém de um Governo socialista, mas torna-se quase impossível que o assunto não suba ao palco da Batalha. Afinal foi assim nos dois últimos congressos.

Um deles (o primeiro de Costa como líder) realizou-se apenas 8 dias depois de Sócrates ter sido detido no aeroporto. Depois, foi libertado em plenas negociações de Costa para montar a “geringonça” e voltou a haver um congresso socialista meses depois, com a ala socrática a ser já a única frente a defender o antigo líder. Saiu a acusação em outubro passado, o PS fugiu de Sócrates que, por sua vez, saiu do PS a duas semanas de novo congresso.

10 de fevereiro de 2013: A luta pela defesa do legado-Sócrates

António Costa chegava ao hotel Dona Inês, em Coimbra, acompanhado dos seus mais próximos nessa fase, Pedro Silva Pereira, Sérgio Sousa Pinto e Francisco Assis, juntos pela mesma luta: queriam garantir que o então líder socialista, António José Seguro, incluía no texto em que iria basear a sua moção ao congresso a devida defesa do legado de José Sócrates, que governara entre 2005 e 2011. Este grupo estava especialmente incomodado com a primeira versão do documento em que Seguro apagara da história a governação daqueles anos.

Na altura, num partido muito dividido depois de seis anos de liderança Sócrates, discutia-se outro “embaraço”. Seguro negava estar desconfortável com a herança do ex-primeiro-ministro, Costa teimava que era um assunto mal resolvido para Seguro — entre outras matérias que criticava naquela direção, como a “abstenção violenta” do PS no Orçamento PSD/CDS para 2012. A contenda deixou Costa à beira do desafio à liderança de António José Seguro, logo no início de 2013. Chegou preparado para isso a uma comissão política nacional do PS, no final de janeiro, mas percebeu que não tinha o partido consigo e recuou. Em contrapartida, exigiu a Seguro que unificasse o PS, a começar por reconhecer os anos de governação Sócrates no documento onde alinhava a estratégia do partido.

Marcou-se uma Comissão Nacional do partido (órgão máximo entre congressos) para Coimbra, para tentar encontrar um texto comum às várias fações dentro do PS. No documento final, aprovado com apenas duas abstenções, António José Seguro aceitou introduzir uma das alterações exigidas: “O PS assume por inteiro todas as suas responsabilidades passadas e presentes”. Assumida a herança,  o machado de guerra ficou temporariamente enterrado. Em 2014, António Costa voltou a desenterrá-lo, depois do resultado “poucochinho” do PS nas Europeias. Na disputa pela liderança contra Seguro, ainda argumentava com aquela reserva inicial do então líder:  “Quando queremos fingir que o passado não existe, nem conseguimos assumir o bom, nem conseguimos condenar o mau. Ficamos apenas numa posição embaraçada. Não podemos viver com fantasmas relativamente ao passado, se queremos construir um futuro credível”. O fantasma não mais deixaria de o acompanhar daí em diante.

21 de novembro de 2014: Partido em choque e o espanta-espíritos de Costa

Era dia de diretas no PS e dia em que José Sócrates foi detido, no aeroporto de Lisboa, sob suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção. O PS ficou em choque, mas António Costa travou logo ali qualquer possibilidade de repetição do que se passara anos antes com o traumático processo Casa Pia, com o PS a alinhar pela “teoria da cabala” e da “tentativa de decapitação do PS”. Nessa altura era líder parlamentar e ele mesmo tinha falado em”fortes indícios” de que tudo foi “uma montagem”. Agora, havia que manter-se à margem desde já, por isso, enviou um SMS aos militantes para estancar emoções:

Estamos todos por certo chocados com a notícia da detenção de José Sócrates. Os sentimentos de solidariedade e amizade pessoais não devem confundir a ação política do PS, que é essencial preservar, envolvendo o partido na apreciação de um processo que, como é próprio de um Estado de direito, só à Justiça cabe conduzir com plena independência, que respeitamos”

Nasceu aqui o “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política” de que José Sócrates nunca gostou, embora no início não o tenha assumido publicamente. Foi praticamente o primeiro acto de António Costa como líder do PS. Mas ainda faltava passar pelo congresso da sua entronização.

29 de novembro de 2014: A distância impossível entre Évora e Lisboa

José Sócrates tinha sido transferido de Lisboa para o estabelecimento prisional de Évora, onde ficaria quase 11 meses em prisão preventiva, e os seus camaradas socialistas reuniam-se a 131 km de distância, em Lisboa, para o primeiro congresso da era Costa, o seu antigo número dois no Governo. A distância faz-se em menos de uma hora e meia de carro, mas os socialistas deram uma volta tão grande para fintar o tema do momento que nem em 48 horas de congresso chegaram a Évora.

Não que o tema Sócrates não dominasse conversas de corredor do pavilhão da Feira Internacional de Lisboa, mas daí não passava. A referência ao socialista do momento parecia até proibida no palanque. E no arranque dos trabalhos, António Costa fez logo questão de espantar esse espírito, referindo-se à prisão de Sócrates — sem nunca falar dela diretamente ou do ex-líder pelo nome — como um “choque brutal”. Mas para logo a seguir reafirmar que o partido não se meteria no assunto.

Todos temos sabido separar os sentimentos da política e todos temos sabido mostrar a fibra de que se faz um partido como o PS, a fibra daqueles que, contra ventos e marés, acreditam e não resvalam na sua confiança no Estado de Direito e nos seus valores essenciais”, repetiu Costa perante os congressistas.

Depois disto, a margem para se falar no tema no palco da FIL ficava obviamente reduzida e foram poucos os socialistas que transgrediram a nova lei PS, decretada via SMS pelo líder Costa logo no após a detenção. Nem mesmo o ‘braço direito’ de sempre de José Sócrates, Pedro Silva Pereira, disse uma palavra sobre o assunto durante a intervenção que fez no púlpito. Aliás, fez questão de afastar mesmo o assunto ao dizer que o partido estava ali reunido para apresentar uma alternativa ao Governo: “É para isso e para mais nada que estamos aqui”. Foi a ex-ministra da Cultura de Sócrates, Gabriela Canavilhas, quem ousou ir mais longe no palco do congresso, ainda assim sem nunca referir o nome da figura em que todos os socialistas pensavam por aqueles dias. Pediu uma saudação para “os ausentes, os que gostaria de estar cá e não estão” e os socialistas corresponderam. O resto, as referências mais diretas — e quase sempre em defesa do ex-líder — foram surgindo, muito em surdina, fora do palco.

Foi também à margem do congresso, mas aproveitando esses holofotes, que três socráticos pegaram no carro para, enquanto os trabalhos decorriam, irem até Évora visitar o amigo. Renato Sampaio, André Figueiredo e Isabel Santos deram um salto ao estabelecimento prisional na tarde de sábado e voltaram à FIL com a informação de que Sócrates estava “bem” e “determinado em defender-se”. O antigo primeiro-ministro ainda estava longe de tornar público o que lhe ia verdadeiramente na alma quanto à defesa que o seu partido tinha feito das suspeitas que sobre ele pendiam.

Politicamente, a reunião magna socialista ficou marcada pela saída em protesto de Francisco Assis da sala onde decorriam os trabalhos. Não gostou de ver a sua intervenção empurrada para fora de horas e também saiu descontente com um desfilar de discursos políticos mais à esquerda do que quereria ver o partido posicionado naquela fase pré-eleitoral.

3 de junho de 2016: O primeiro congresso da “geringonça” não foi o último da ‘assombração’

O caso Sócrates (e não só) pesara nas legislativas que o PS não conseguiu vencer, em outubro de 2015. O resultado levou António Costa a apoiar-se na esquerda parlamentar (a mesma que Assis contestara no congresso) para conseguir formar Governo. Ali estava, oito meses depois, para o primeiro congresso como líder de um Governo e arquiteto de uma solução governativa inédita em Portugal. Nem mesmo neste contexto favorável o líder socialista deixou de ter um congresso sem Sócrates a pairar na sala.

A ala socrática voltava à carga, até porque desde o último congresso o PS não mudara de posição sobre o caso e Costa tinha feito uma única visita à cadeia, no final de 2014, de onde saiu a dizer “que a personalidade dele [Sócrates] é conhecida de todos. Ele é um lutador e está, certamente, em luta por aquilo que acredita ser a sua verdade“. A frase ficou longe de encher as medidas aos socráticos que esperava muito mais do antigo números dois de Sócrates, assim, de novo na FIL, ouviu-se falar diretamente do ex-líder no púlpito por três vezes, uma delas pela vos de Paulo Campos e de forma muito clara: “Uma palavra especial aos que não estão aqui connosco, Almeida Santos, aos ex-secretários-gerais Mário Soares e a José Sócrates”. Fez uma pausa dramática qb depois de dizer o último nome e continuou: “O que posso dizer sobre José Sócrates? Um abraço para todos os que sempre honraram a história do PS dando o corpo aos que são os nossos valores e as nossas ideias”.

Antes dele já Daniel Adrião — o único desafiador formal do líder Costa e que repete a dose no congresso deste fim-de-semana na Batalha — tinha declarado, no mesmo palco, que “no PS temos muito orgulho em José Sócrates”, que sublinhou como o único socialista a ter conquistado uma maioria absoluta para o partido. A outra referência foi da militante Cristina Martins, dirigente de Coimbra que denunciou o caso da falsificação de cadernos eleitorais do partido no seu distrito e foi expulsa na era Seguro. A socialista foi ao púlpito desafiar a sala: “Temos todos de ser solidários com o José Sócrates”. Mas o congresso foi essencialmente marcado pela “geringonça” e pelo momento em que Francisco Assis subiu ao palco para dar conta perante os socialistas da sua “opinião muito crítica à forma como tem vindo a ser conduzido” o Governo que considerou estar “condicionado” e “permanentemente vigiado”. Foi apupado pela sala e continuou a travessia do deserto a que se tem remetido como um dos únicos opositores declarados, dentro do PS, à atual solução governativa.

Nesta fase, Sócrates ainda não tinha expressado publicamente o seu desagrado com a posição do PS face à sua situação, embora esse desconforto já começasse a ter alguma expressão via ala socrática. Acabou por fazê-lo só em 2017, numa entrevista ao La Voz de Galicia ainda antes de ser formalmente acusado de 31 crimes. Nessa conversa, Sócrates disse com todas as letras: “Quando me detiveram, tanto ele [António Costa] como a cúpula do PS viraram-me as costas“. A frase vinha em resposta a uma pergunta concreta sobre o líder do PS. O “embaraço” começava a ser indisfarçável.

Éramos amigos, apesar de tudo o que se dizia. A nossa relação sempre foi boa. Elegi-o como ministro e como meu sucessor natural. Apoiei-o na candidatura à Câmara de Lisboa e depois à secretaria geral do partido. Tudo acabou quando me detiveram e tanto ele como a cúpula do PS me viraram as costas”.

11 de maio de 2018: Novas diretas e o fim do “embaraço”

A uma semana de novas eleições diretas no PS, José Sócrates voltou à ribalta. Numa investida sem precedentes no PS perante o caso de sempre, um raide de declarações dirigentes socialistas de topo fez, por fim, uma baixa. José Sócrates não resistiu à mudança de agulha no PS perante o seu caso e anunciou que se desfiliava do partido.

Costa jurou que nada foi combinado, mas a coincidência de figuras de topo, no espaço de horas, a utilizar expressões semelhantes sobre um caso a que, até ao momento, tinham sempre reagido com o mantra “à justiça o que é da justiça, à política o que é da política”, não deixou grande margem para dúvidas. A revelação do caso Pinho, que terá recebido dinheiro do GES enquanto foi ministro de Sócrates, funcionou como pretexto para tentar levantar uma barreira higiénica entre os casos de justiça a envolverem ex-governantes socialistas e o partido. O ponto mais alto desta sucessão de declarações dos principais dirigentes socialistas (nesses dias desfilaram Fernando Medina, Ana Catarina Mendes, Augusto Santos Silva e Carlos César) foi quando António Costa falou, a partir do Canadá, juntando-se ao coro:

Se essas ilegalidades se vierem a confirmar, serão certamente uma desonra para a nossa democracia. Mas se não se vierem a confirmar é a demonstração que o nosso sistema de justiça funciona”

No dia seguinte de manhã, Sócrates escrevia no Jornal de Notícias um artigo em que dizia ter “chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo”. Sobre as declarações dos seus camaradas de outros tempos, Sócrates dizia mesmo tratarem-se de “uma espécie de condenação sem julgamento”.

Ultrapassa os limites do que é aceitável no convívio pessoal e político. Considero, por isso, ter chegado o momento de pôr fim a este embaraço mútuo. Enderecei hoje uma carta ao Partido Socialista pedindo a minha desfiliação do Partido. Pronto, a decisão está tomada”, escreveu no JN.

25 de maio de 2018:

É neste contexto que vai acontecer o congresso socialista. António Costa voltará a entrar apostado num discurso virado para a governação, especialmente porque esta é a última reunião magna do partido antes das próximas legislativas. A moção que apresenta aponta algumas ideias, sendo nula numa das matérias que mais interesse coloca: a política de coligações. A discussão política será por aqui, tanto que nas últimas semanas a ala mais à direita e a ala mais à esquerda do partido já se digladiaram, na arena dos artigos de opinião, sobre qual deverá ser o caminho futuro do partido: entre a “esquerda moderada” de Santos Silva e a “social-democracia” de Pedro Nuno Santos.

Mas o fantasma de sempre promete voltar a assombrar, sobretudo porque a nova estratégia de Costa sobre o caso Sócrates desagradou a outra ala socialista, a dos socráticos. É uma ala menos ideológica, mas ainda com seguidores que podem voltar a levar o assunto ao palco.

Também haverá quem fale sobre o caso de forma crítica para o antigo líder, a eurodeputada Ana Gomes foi a primeira a referir o assunto e prometeu levá-lo à Batalha. Como eurodeputada tem acesso direto ao púlpito do partido, que nos congressos é reservado aos delegados, que são maioritariamente do lado de Costa. Ou seja, mesmo que à partida a maioria das vozes alinhem pela bitola do líder, do palco não estão afastados os socialistas que possam trazer ao congresso críticas e até temas desconfortáveis. Aliás, como já se tornou tradição na era Costa.

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Maioria de Esquerda

Geringonças e blocos centrais /premium

João Marques de Almeida
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Depois da sua posição, se quiser ser coerente (não é evidente que queira), Rio terá que defender um referendo à eutanásia. Os temas de consciência individual não podem ser decididos só pelos deputados

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