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António Costa

A culpa não foi dele. A culpa nunca é dele /premium

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Ninguém estava a culpar Costa pelo fogo de Vila de Rei/Mação, mas ele correu a responsabilizar os autarcas. É difícil imaginar um gesto de maior insensibilidade social. Politicamente foi uma canalhice

Não há dúvida. Alexandre O’Neil é que nos topava bem. Entre os portugueses, poucas frases são mais vezes repetidas do que “a culpa não foi minha”. O que não surpreende. O exemplo vem de cima. Nos últimos tempos vem por regra do primeiro-ministro. Ainda Mação e Vila de Rei estavam a arder e já António Costa, sibilino, sacudia a água do capote: “não digo aos que são os primeiros responsáveis pela proteção civil em cada concelho, que são os autarcas, o que é que devem fazer.” Isto depois de ter dito que não fazia comentários porque as operações de combate ao fogo ainda estavam a decorrer…

Parece que estamos sempre a ver o mesmo filme. Em 2017, quando morreram 64 pessoas em Pedrógão, António Costa falou de 99% de sucesso na estratégia que estava a ser seguida (que era, recorde-se, a de “controlar o fogo no momento em que nasce” — o diabo era quando ele fugia ao controle, como tinha sucedido naquele dia). Também soubemos, a propósito do assalto a Tancos, que “não é responsabilidade de nenhum ministro estar à porta de um paiol a guardá-lo”. E não nos esquecemos como, depois dos incêndios de Outubro de 2017, e de mais umas dezenas de mortes, lhe foi difícil por fim pedir publicamente desculpa aos portugueses.

É como se fosse um disco rachado e, sinceramente, acho que a pertinente observação de Alexandre O’Neil – encontrei-a num raríssimo livro de 1983, uma obra em inglês sobre Portugal – não explica o mau hábito do nosso primeiro. O eterno “a culpa não foi minha” pode desculpar-se numa criança a fugir de castigo, tal como pode entender-se num país onde as circunstâncias, a má sorte ou o imprevisto, a muita chuva ou o muito sol, o chefe ou o subordinado, sempre ajudaram a fugir das responsabilidades e a justificar faltas ou preguiças. É mais um triste sinal do nosso atraso e de alguns costumes culturais de que não nos libertamos. Agora num governante, como em quem quer que deva dar o exemplo, não se perdoa.

E, no entanto, António Costa não tem feito outra coisa por estes dias.

Surge no Expresso uma sondagem a dar a corrupção como a segunda grande preocupação dos portugueses? Então ele, chefe de um Governo que ainda há uns meses se empenhava para apagar as referências à corrupção de um relatório da OCDE, trata de pedir desforço da Procuradoria-Geral da República. De repente lembrou-se de uma lei de 2002 e quer saber porque não é mais vezes aplicada, sugerindo que se não se combate mais a corrupção, a culpa não é dele, é da PGR.

Atreve-se o Tribunal de Contas de elaborar um relatório em que aponta falhas graves na distribuição do dinheiro do fundo Revita, destinado à vítimas do fogo de Pedrógão, e onde se escreve que nem sequer é claro que os apoios tenham sido dados apenas a quem precisava? Salta logo a disparar em todas as direcções, dizendo que “os press releases do TdC costumam ser bastante mais dramáticos do que aquilo que é a realidade efetiva do que consta dos relatórios”, o que obrigou o tribunal a emitir um raro comunicado de resposta.

Mas regressemos ao princípio: os incêndios desta semana e o passa-culpas de António Costa. Um passa-culpas especialmente injusto e de uma brutal insensibilidade se considerarmos os concelhos e as populações afectadas.

O primeiro-ministro reagiu como é seu timbre: com a irritação de quem não suporta a mínima contestação, sequer a mais pequena dúvida sobre a competência do seu Governo. Porque era só isso que estava em causa. Nenhum dos dois autarcas fizera, antes das suas declarações, qualquer ataque político. Ambos tinham apenas dado voz ao desespero de, em certas frentes do fogo, terem notado falta de meios de combate. Isso e mais algumas perguntas e desabafos, reflexo de outras tantas angústias e desesperos.

Foi quanto bastou para levarem logo um coice, como “primeiros responsáveis da protecção civil”. Nem sei bem se Costa tem noção da enormidade do que disse.

Primeiro, por estar a falar para dois concelhos habitados por menos de 10 mil pessoas, um deles (Vila de Rei) com dois terços da população com mais de 60 anos. Esperaria o primeiro-ministro que essa gente conseguisse defender serranias que se estendem por 600 quilómetros quadrados, ou seja, uma área equivalente a seis vezes o concelho de Lisboa? Como é óbvio nunca aqueles “primeiros responsáveis” poderiam fazer muito mais do que pedir ajuda, e depender dessa ajuda. De resto não é por acaso que existe uma Autoridade Nacional da Protecção Civil – é precisamente porque localmente é impossível parar fogos daquela dimensão, sobretudo fogos que vêm de fora, soprados por ventos fortíssimos e lavram em montes e vales onde não vive quase ninguém.

Depois, porque se tivesse memória lembrar-se-ia de que Mação foi precisamente o concelho onde foi celebrar o Dia da Floresta em 2016 para louvar o trabalho aí desenvolvido pela autarquia na área do “ordenamento florestal e na proteção civil”, um trabalho que infelizmente não evitou que em 2017 fosse um dos concelhos mais martirizado por incêndios que lá chegavam vindos de concelhos limítrofes. E se tivesse vergonha também não ignoraria que, apesar de tão martirizado, o concelho de Mação foi discriminado nas ajudas especiais (de um fundo europeu) de apoio à reconstrução das infraestruturas destruídas.

Finalmente – e este aspecto é o mais importante – António Costa tem obrigação de saber o que já foi feito desde 2017 (apesar de tudo alguma coisa), o que devia ter sido feito e não foi (muita coisa) e aquilo que nunca podia ter sido feito em tão pouco tempo, e que afinal é o mais importante, que é mudar o nosso mundo rural, a sua paisagem e a sua economia.

Mas não. Em vez de assumir as responsabilidades que lhe cabe assumir (como, por exemplo, o tempo que o Governo leva a aprovar os planos municipais de protecção civil ou os atrasos na entrada ao serviço dos meios aéreos) e fazer a pedagogia que é sempre necessário fazer, a reacção intempestiva de António Costa recordou-nos que em política não basta a habilidade e a sorte para que as maiorias absolutas não sejam apenas quimeras – é necessário mais, é necessário empatia, sensibilidade, perceber o país.

É isso que Costa continua a não ter, e talvez por isso, mesmo tendo tão boas sondagens, continue a dar estes sinais de irritabilidade à flor da pele. Maus sinais.

PS. Já depois de ter escrito este texto verifiquei que o velho amigo e ajudante do primeiro-ministro, Eduardo Cabrita, foi à RTP, repetir e agravar as acusações, passando ao ataque pessoal ao presidente da câmara de Mação, Vasco Estrela. Teve azar: entendeu acusá-lo de não ter accionado de imediato o Plano Municipal de Emergência, um plano que estava desde Março para apreciação pelo poder central, sendo que a aprovação só chegou via SMS ao telemóvel de Vasco Estrela já o fogo estava em fase de rescaldo. A arrogância e a pesporrência de certos personagens não tem limites.

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