Em Portugal o debate sobre a demografia está especialmente centrado no envelhecimento da população e, apesar de existir em média nos últimos anos um saldo migratório positivo, na emigração dos jovens, sobretudo os mais qualificados.

Mas os desafios geracionais e demográficos que se colocam ao nosso país, e a outros países, são ainda mais complexos porque as gerações mais jovens foram afetadas por crises internas e externas que provavelmente irão balizar as suas expetativas para o futuro.

A geração dos meus pais foi marcada pela esperança da democracia e pela adesão à União Europeia. Apesar das crises financeiras que assolaram o país, acreditava-se que a qualidade de vida poderia melhorar. A minha geração foi marcada pelo acesso a novos bens e serviços que eram possíveis graças ao mercado único, pelo alargamento do acesso à educação e o desenvolvimento do ensino superior. Havia dificuldades, mas o PIB per capita em paridade de poder de compra de facto convergiu com a Europa nos anos oitenta e noventa do século passado.

Mas as novas gerações vivem uma realidade completamente diferente. Apesar da qualidade de vida ser em média melhor do que era a qualidade de vida dos jovens nos anos setenta e oitenta, a curta vida deles tem sido marcada por crises múltiplas. Um jovem universitário em Portugal só conhece um país de salários praticamente estagnados em que o crescimento económico foi de pouco mais de 1% em média por ano ao longo da sua vida e o seu percurso escolar ou universitário foi interrompido várias vezes pela pandemia. Agora, a guerra e a inflação voltaram a cortar o rendimento disponível das famílias enquanto a intensificação das cheias e dos fogos em todo o mundo levou esta semana António Guterres a pedir para os países “fecharem as portas do inferno”.

Que efeito poderá isto ter na visão dos jovens sobre o futuro? Um estudo de Harvard citado esta semana pelo Financial Times baseado na população americana sugere que os indivíduos que foram marcados pela de ausência de mobilidade intergeracional dos pais e avós têm tendência a pensar em termos de soma nula, isto é a acreditarem que para melhorarem a sua qualidade de vida outros têm de perder. Politicamente isso traduz-se, segundo os autores, numa preferência por um Estado mais interventivo e menos esperança na possibilidade de haver melhorias na qualidade de vida de todos.

O mundo que os nossos jovens conheceram ao longo da sua vida é um pouco assim: crescimento baixo na Europa e baixíssimo em Portugal, um mercado de trabalho dual em Portugal, e agora inflação alta que reduz o rendimento disponível das famílias. O risco é que estas crises tenham criado uma visão mais defensiva da economia nas novas gerações, e que essa visão se perpetue para o futuro.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR