Na Alemanha Christine Lagarde já se chama “Madam Inflação” nas páginas do jornal popular Bild. É acusada de não se preocupar com os salários, as pensões e as poupanças do cidadão comum, por não estar a adoptar medidas para combater a subida dos preços. Todos sabem como a Alemanha tem medo da inflação, depois da sua história de hiperinflação – veja-se este livro de Adam Fergusson, “When Money Dies” . Mas será que um pouco de inflação não será o mal menor? Neste momento já parece ser um mal maior.

A desvalorização de alguns banqueiros centrais europeus em relação à inflação – excepção óbvia da Alemanha – pode ser explicada por várias razões. Uma delas é a convicção de que estes aumentos de preços são temporários, com causas muito concretas. E por isso, defendem, não nos devemos por enquanto precipitar com a subida dos juros, já que ainda não assistimos aos designados efeitos de segunda ordem – o contágio da subida, por exemplo, aos salários. Esta foi a posição assumida, por exemplo, pelo governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, na conferência da banca, organizada pelo Negócios, na semana passada.

Mas, nessa mesma conferência, António Horta Osório, actualmente a presidir ao Credit Suisse, defendeu o contrário, afirmando que vários estudos dizem o oposto. E se a inflação não for temporária, o preço que vamos pagar para a baixar “será mais intenso”. Um raciocínio em linha com o que defende, por exemplo, Martin Wolf no Financial Times, avisando que este “temporário” pode transformar-se em “permanente”. Ou mesmo Larry Summers.

Ricardo Reis fez recentemente uma coluna no Twitter mostrando que todas as teorias apontavam para a subida da inflação em 2021, uma situação inédita de unanimismo nas previsões teóricas. Para 2022 já não é assim, o que pode explicar este compasso de espera do BCE. Mas há outra explicação: o medo de voltar a errar.

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