Pensem em como António Costa se demitiu. Pensem no que anda a ser discutido nos debates eleitorais, após anos de governação socialista: o colapso do SNS, a crise da habitação, a corrupção na política. Pensem em quem é o novo líder do PS, um dos ministros de António Costa com maior cadastro de trapalhadas. Pensem nas sondagens, que todas apontam para a maior maioria de direita de sempre. Pensem nisso tudo, e pensem depois se deveriam existir dúvidas sobre o resultado das próximas eleições. E no entanto, essas dúvidas existem. Ainda ontem, a conversa do dia foi outra vez sobre a possibilidade de o PSD viabilizar mais um governo do PS.

A responsabilidade dessas dúvidas é dos dirigentes da AD. Não estou a pensar apenas naqueles que, como Nuno Melo há umas semanas ou Pedro Duarte ontem, se divertem a sobressaltar-nos com a tese de que é dever da AD facilitar a perpetuação do poder socialista. Estou a pensar em Luís Montenegro. Foi ele que criou a estranha regra de que quem ficar à frente em votos tem, só por isso, o direito de governar. É ele que se tem recusado a esclarecer se admite ou não viabilizar um governo de Pedro Nuno Santos no caso de haver uma maioria parlamentar à direita do PS. Porquê? Não é uma pergunta despropositada. Não se lhe pede que comente um “cenário”. Pede-se-lhe que garanta aos seus eventuais eleitores que a AD, em relação ao poder socialista, só acredita em ser alternativa.

A única garantia que Montenegro está disposto a dar é em relação ao Chega: não quer acordos nem sequer depender dos seus votos. Quem lhe pede essa garantia é a esquerda. À esquerda, Montenegro responde. À direita, não. Ganha alguma coisa com isto? É duvidoso. A esquerda não acredita nele, quando ele jura que nunca fará acordos com o Chega. A direita acreditaria nele, se ele se comprometesse a jamais viabilizar um governo socialista. Montenegro não convence os seus adversários, mas faz duvidar os seus apoiantes. É esta uma boa estratégia?

Se a direita for maioria nas próximas eleições, essa maioria será a mais diversa de sempre. PSD, Chega e IL têm, entre si, diferenças doutrinárias que nunca existiram entre PSD e CDS, e nenhuma tradição de colaboração. Não quero subestimar as dificuldades. Mas pergunto: que estratégia deveria ter um líder de partido que quisesse sobressair nessa babel de ideologias e ambições? Provar que é o mais implacável a marginalizar os outros partidos? Ou, pelo contrário, que é o mais capaz de contactar e compatibilizar todos para dar ao país um governo alternativo ao PS? Nenhuma outra razão, para além de qualquer clubismo ou afinidade ideológica, justificaria melhor um voto para dar força a esse líder.

É essa razão que Montenegro não deu aos eleitores. Em vez disso, estigmatiza o Chega com a mesma fúria e nos mesmos termos que a esquerda usa. O Chega merece reparos. Mas tratá-lo como “fascista” é, para o PS, uma farsa cínica cujo único sentido é impossibilitar um governo alternativo ao poder socialista. A prova é que Pedro Nuno Santos recusa ajudar o PSD a governar sem André Ventura: a sua objecção não é ao Chega, mas a “toda a direita”, como aliás lembrou. Montenegro também não tem melhores motivos na sua raiva ao Chega. Afasta-o por ser “extremista”, mas no debate com a líder do PAN, não hesitou em descobrir terreno comum com um partido pouco notado pela moderação. Para Montenegro, trata-se apenas, em relação a Ventura, de conter um concorrente favorecido pela ventania de protesto. Mas fazê-lo nos termos da esquerda será a melhor maneira de atrair quem estiver tentado pelo Chega? Temos demasiadas razões para duvidar. Oxalá tivéssemos ao menos uma para acreditar.

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