A situação que agora vivemos é grave, tão grave, que exige serenidade. E responsabilidade.

Olhemos para a declaração que o Primeiro-Ministro fez quando anunciou o novo período de confinamento. Teve algumas posições formais que são interessantes e importantes.

Começou por repetidamente falar em “cientistas”, pessoas de ciência, em vez de “especialistas”. Fez bem. Pessoas que procuram entender e interpretar os fenómenos à luz do método científico e resolver problemas, sob o respaldo do conhecimento possível, são poucas e valiosas. O seu conselho não pode ser desperdiçado. O que não dá o direito a quem governa de se desresponsabilizar à luz da opinião que mais lhe convier em cada momento.

O Governo tem de acertar na comunicação. Não pode fomentar discórdias entre cientistas, nem fazer dessas discórdias o cerne das notícias. Elas existem, mas não são o que interessa à população. Em períodos de crise pede-se liderança, honestidade, transparência e orientação. Confesso que tenho enormes dúvidas sobre a utilidade das chamadas “reuniões do Infarmed” no modelo em que elas ocorrem. Podem servir para desresponsabilizar o Governo e aplanar a oposição. Mas não servem para esclarecer os cidadãos. O Governo precisa de um núcleo técnico, constituído em torno da DGS, com uma voz única. De ouvir dúvidas, já estamos todos cheios.

O Primeiro-Ministro assumiu que “a vida não tem preço”, o que pode parecer um truísmo. Vindo de um político com responsabilidades governativas, esta asserção coloca pressão no sistema de avaliação de custo de medicamentos. Lembro que há remédios e combinações dos mesmos que ainda aguardam, ao fim de anos, autorização para serem usados no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Alguns deles, sendo orais, teriam um interesse acrescido no combate à pandemia, evitando deslocações de doentes idosos ou frágeis aos hospitais onde precisam de ir para receber tratamento por via injetável.

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Acabou, também, por admitir que a circulação de pessoas é uma fonte de potencial contágio, contrariando membros do seu Governo, em particular aqueles que arrogantemente afirmaram que não conheciam casos de transmissão da Covid-19 nos transportes públicos.

O Dr. António Costa está dolorosamente a aprender que o SNS não está, não estava, nem podia estar preparado para lidar com uma pandemia de infeção respiratória com a contagiosidade da Covid-19. Mas esta não é a hora para a escatologia do sistema de saúde nacional.

Estamos com necessidade de política e policies. Não estaremos sempre? As mortes alertam-nos para o que de mais grave se pode passar num sistema de saúde. A mortalidade excessiva é a mais nefasta marca de que alguma coisa correu mal. Um dia, já é tempo disso, irá interessar-nos perceber, muito mais do que somar cadáveres, quem morreu, porque morreu, onde morreu. Acima de tudo, quantos anos potenciais de vida foram perdidos em época de Covid e não apenas pela Covid.

Quando um médico se queixar publicamente do desconforto que a morte lhe causa, podendo haver exagero nos números ou nos modos, essa queixa não pode ser tratada como mais um ataque ao SNS moribundo. Deve ser aproveitada como uma ilustração das dificuldades que os hospitais atravessam e servir para encorajar as pessoas a resguardarem-se para que não morram, para que outros não tenham de morrer. Até no que parece apenas crítica, há muito com que se pode aprender e ensinar.

O Governo fez mal em ter adotado medidas erradas, como as do encerramento de estabelecimentos às 13 horas nos fins-de-semana. Como escrevi há umas semanas, foi uma daquelas medidas terapêuticas em que o efeito adverso foi superior ao benefício terapêutico. Deveria ter sido mais contundente nos encerramentos de restaurantes e similares nas sextas-feiras à noite, sábados e domingos, alargando os horários dos estabelecimentos que deveriam estar abertos, nomeadamente de retalho alimentar. Poderia e deveria tê-lo feito nas zonas com sinais crescentes de propagação da infeção. Fez mal em não ter aplicado medidas de confinamento (quarentena) mais eficazes nos concelhos com mais casos, quando isso ainda poderia fazer diferença.

Ainda não sabemos se o Governo errou por não ter agora mandado encerrar escolas, mas a minha perceção é a de que, neste momento, isso não seria possível, nem desejável. Só que não vale a pena fazer de conta que as crianças e jovens não se amontoam como e quando podem. Até me parece que em termos de medidas de confinamento, incluindo os ajustes do passado dia 18, este processo em curso, que passa pelo encerramento de cafés, restaurantes, bares, discotecas e da maioria das lojas é suficiente e o máximo suportável por uma população exausta. Apenas deixo a crítica de que não me parece razoável mandar encerrar supermercados às 17 horas ao fins-de-semana, como me parece absurdo proibir a venda de bens não alimentares nas grandes superfícies. Convirá que não se confundam medidas criadas com o objetivo de limitar a circulação com outras que sejam entendidas como um “castigo” à população. O confinamento de janeiro de 2021 não pode ser igual ao de março de 2020. O Primeiro-Ministro tinha razão quando dizia que não seria possível repetir o mesmo.

Não partilho a opinião de que o Governo tenha estado mal, especificamente e apenas, no período de Natal. Não alinho no novo scroogismo. Uma coisa é aquilo que o Governo pretendia que acontecesse, outra foi o que aconteceu em muitas famílias que não fizeram a avaliação correta da ameaça. Olhando para trás, não sendo possível controlar o que se passa na casa de cada um, o único erro do Governo, para lá da fantochada dos encerramentos depois da hora do almoço, foi ter consentido a circulação de pessoas entre concelhos.

Ainda pior, mais uma vez, foi toda a comunicação das autoridades sanitárias em torno da prevenção dos riscos de contágio com as celebrações de Natal. Mas convirá reconhecer que, sem escamotear que a comunicação foi má, ainda mais grave e lesivo foi toda a panóplia de comentários jocosos que se construíram em torno de uma péssima intervenção pública de um distinto e esforçadíssimo colega meu. Neste singular esteve mal quem o deixou improvisar, como estiveram mal os comentadores de serviço que mais se entretiveram a matar o mensageiro do que a sublinhar o crucial da mensagem… “evitar contactos desnecessários”.

De igual forma, devo reparar que a mensagem das autoridades sanitárias continua a fugir de mencionar grupos de risco, como sejam os fumadores – associados a incrementos de mortalidade em contexto de infeções respiratórias, incluindo a Covid-19 – ou os obesos, pessoas para quem deveríamos ter um conjunto de medidas, incluindo confinamento, particularmente mais eficientes.

O episódio do despacho ministerial que “mandava suspender” a realização de atos assistenciais a doentes sem Covid-19 é outra história paradigmática de como funciona a comunicação sobre saúde nesta fase em que falta a serenidade. Não li o despacho. Nem tinha que o ler. Não me era dirigido. Logo aqui, é curioso ver como um despacho, supostamente interno, chega aos jornais quase mais depressa do que aos destinatários. Depois, toda a gente o comenta sem ter bem a certeza do que estava a comentar. O despacho proibia a atividade assistencial a doentes sem Covid-19? Certamente, não. Sugeria, autorizava, obrigava? A ideia com que se fica é que há um desnorte coletivo que se reflete em textos que podem ser sujeitos a interpretações duvidosas que nem esclarecimentos posteriores conseguem esclarecer. No fundo, imagino eu, o que o ministério queria, era enfatizar a necessidade de cada unidade alocar os seus meios em função das “urgências mais urgentes”. Era preciso um despacho para isso? Bem podiam ter dado descanso à caneta e poupado os Portugueses a mais esta ansiedade.

É certo, que já li quem se afadigue a tentar demonstrar que o confinamento será inútil.  Não haverá falta de estudos com populações não comparáveis ou avaliações internacionais não controladas que tentarão demonstrar que “encerrar mais” é, foi, será, pior do que “encerrar menos”. Há toda uma história que terá de ser feita. Para já, é melhor usar o que parece ser útil. Ponderando custos transversais e assumindo que a saúde não é só Covid-19.

Uma coisa, infelizmente, é certa. Uma infeção só se propaga quando há contacto com o agente infetante. Nos casos dos vírus, essas “coisas” que não se reproduzem sem parasitar uma célula viva, só pode haver transmissão se houver contacto com o ser vivo infetado, aquele onde o vírus está a multiplicar-se. Logo, uma das formas mais eficazes de impedir a propagação da infeção é isolar quem está infetado. Não sendo possível identificar todas as potenciais fontes humanas de contágio, o melhor é assumir que todos podem ser portadores e isolar, como for possível, toda a população, de forma a evitar a disseminação para fora do agregado habitacional. Julgo que não é difícil de perceber. Fazê-lo sem “matar” toda a economia é uma arte que ainda ninguém domina e só atingível com a ajuda de um enorme sentido cívico e grande “capacidade de sacrifício”.

Quanto às vacinas, mantendo as reservas mentais que já anteriormente exprimi, não tenho dúvidas que se está a fazer o que é possível. O problema atual é de produção fabril. Nada que se possa imputar a quem nos governa. Reitero, que ninguém deve perder a oportunidade de ser vacinado quando chegar a sua vez. As minhas reservas quanto ao processo de priorização prendem-se com a dificuldade em identificar todos os doentes de risco. Entretanto, soube que já se está a abordar o problema e brevemente haverá mais ferramentas para que nenhum doente de risco deixe der vacinado na fase correspondente.

A discussão sobre se é mais eficaz, em termos de saúde pública, vacinar mais pessoas apenas com uma dose ou tentar vacinar todos com as duas doses que garantem a efetividade anunciada pela eficácia nos ensaios é muito mais interessante do que possa parecer à primeira vista. Há bons e vários artigos sobre o tema. A minha opinião é a de que será sempre preferível tentar a eficácia vacinal máxima, até por razões de fármaco-economia, em vez de cobrir metade. No entanto, em contextos de descontrolo total, pode ser justificado imunizar, ainda que parcialmente, o maior número de “transeuntes” de forma a procurar uma imunidade de grupo mitigada. Por enquanto, mesmo considerando a situação quase desesperada de alguns dos nossos hospitais, é preferível manter o programa de vacinação em curso e encorajar as pessoas a lavarem mais as mãos, desinfetarem-nas sistematicamente na entrada de lojas e transportes, evitarem aglomerar-se e só tirarem a máscara em casa. Fui propositadamente repetitivo.

O que está em jogo, convirá que o Primeiro-Ministro não o esqueça, já não é “salvar o SNS”. Nunca foi, em nenhum cenário de catástrofe. Em situações de emergência salvam-se as pessoas em primeiro lugar. Nem o SNS se salvará quando a procura de doentes com Covid-19 diminuir. O que estava em causa era garantir que a mortalidade por todas as causas em Portugal não subisse, com e sem Covid-19. O enfoque político deveria ter sido esse desde a primeira hora. Não foi. Falharam. Consequentemente, as autoridades políticas e sanitárias deixaram de ser capazes de mobilizar a “capacidade de sacrifício” nacional.

Resta-me pedir:

Fiquem em casa, lavem as mãos, afastem-se de quem não precisam de estar próximo, usem máscara para que não se morra mais em ambulâncias, nas filas de espera da urgência. Para que não se morra mais de cancro, de enfartes, de hemorragia digestiva, de tudo. O Governo tem sido incompetente. É a altura de os Portugueses mostrarem que valem mais do que quem nos governa. Pela nossa saúde.

E, por favor, não deixem de doar sangue! Pode ser feito em segurança e salvarão vidas.