1 Foi uma vitória indiscutível. Mais do que uma vitória do PS, foi uma vitória pessoal de António Costa. Pelos dois anos de pandemia que deixaram marcas de desgaste visíveis e por uma campanha que, apesar de ser ziguezagues (como vários analistas, como eu, criticaram), acabou por ser premiada precisamente pela primeira parte: a do pedido explícito da maioria absoluta e consequente responsabilização do Bloco de Esquerda e do PCP pela crise política.

A vitória do PS, contudo, também se explica pela segunda parte que consistiu em diabolizar o programa do PSD, com fantasmas levantados por António Costa sobre um alegado corte das pensões ou privatização da Segurança Social, como também pelo fim de um Serviço Nacional de Saúde gratuito. Esta política do medo assustou e mobilizou o eleitorado mais idoso — que desde 2015 vota tendencialmente no PS — para apoiar António Costa. Arrisco dizer que houve um apoio esmagador dos + 65 anos — que valem mais de 38% do eleitorado do PS, segundo a última sondagem do Expresso —, ao qual se junta o tradicional apoio dos funcionários públicos.

António Costa fica ligeiramente abaixo dos cerca de 2,5 milhões de votos (45% dos votos) e 121 deputados conseguidos por José Sócrates em 2005, mas consegue 2,2 milhões de votos, 41,7 % dos votos e 117 deputados — podendo vir a ter 119 deputados com os dois dos círculos Europa e Fora da Europa que lhe devem calhar.

Um resultado histórico conseguido ao fim de seis governação e, mais importante de tudo, após dois anos de combate a uma pandemia de proporções bíblicas. Surpreendentemente, os eleitores optaram por premiar a gestão da pandemia levada a cabo por Costa.

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2 O líder do PS promete agora levar a cabo uma maioria absoluta de diálogo, conversando com todos os partidos (com exceção do Chega), respeitando os poderes do Presidente da República, bem como a independência do poder judicial e de outros mecanismos de freios e contra-freios.

Pago para ver tal política de diálogo. Acreditar que, ao fim de seis anos de poder, António Costa vai dialogar de sua livre e espontânea vontade com o resto da oposição, é um pouco como defender que José Sócrates tem perfil para ser secretário-geral da ONU.

Na realidade, essa é uma espécie de jogada de antecipação da parte de Costa para combater a memória autoritária dos governos de José Sócrates. O ADN dos socialistas é dominar e controlar — muito mais intenso, aliás, após seis anos no poder. Esconder esse instinto — e é isso que Costa promete — o será algo contra-natura.

Outra questão relevante: será desta que António Costa vai perder o medo das reformas? Seja em termos de políticas económicas, da Segurança Social, Saúde, Educação ou Justiça, o PS vai finalmente fazer reformas estruturais que coloquem o país a crescer de forma sustentável e potenciem um aumento do poder de compra da classe média? Também duvido. Mas veremos.

3Pior do que conseguir apenas mais 40 mil votos do que tinha tido em 2019, é ser o líder do PSD que perdeu quatro eleições consecutivas (duas delas em legislativas) e que é o principal responsável por permitir que António Costa ultrapasse Cavaco Silva como o primeiro-ministro com mais anos consecutivos no poder.

Com este registo de resultados, o que faria qualquer político com o tico e o teco a funcionar corretamente? Demitia-se, claro! O que fez Rio? Manifestou-se muito satisfeito por não ter qualquer espécie de défice nas contas da campanha, admitiu que não conseguiu fazer valer a sua estratégia de voto útil à direita e, depois de falar alemão para desconversar, jurou que “não via como posso ser útil”.

Esta nova expressão é todo um tratado para que os eleitores do PSD lhe façam a vontade. Rio jura que não está agarrado à cadeira mas, ao mesmo tempo, pede de forma subliminar aos militantes do PSD que o  amarrem à cadeira de líder social-democrata. Desafiando qualquer lógica política — como muitas vezes a sua campanha eleitoral desafiou —, Rio espera pela enésima vaga de fundo para continuar à frente do PSD. E após a quarta derrota consecutiva.

Vamos ser claros: Rio não tem qualquer condição para continuar à frente do PSD. Parafraseando o próprio líder social-democrata, está na altura de se juntar a Zé Albino para lamber as feridas ’em casa’. O seu gato agradece.

Tal como está, o PSD não pode continuar. Não faço ideia de quem será o próximo líder, só sei que está na altura de passar o testemunho às gerações mais novas.

4 E os números destas eleições provam, de facto, que a estratégia ao centro do PSD de Rio, Pacheco Pereira e Ferreira Leite não faz qualquer sentido. Se compararmos com 2019, o PSD mantém praticamente a mesma votação mas o Chega passa a ter mais 10 deputados e 385 mil votos e a IL tem mais sete deputados e mais 200 mil votos do que em 2019.

E porque cresceram o Chega e o Iniciativa Liberal (IL)? Porque Rui Rio nunca quis assumir o PSD como sendo o partido líder do espaço do centro-direita. Pelo contrário, desprezou claramente esse eleitorado, apresentando-se como um homem de centro-esquerda.

Era expetável mas não deixa de ser extraordinário o crescimento do partido de Ventura. Não só pela votação e pela terceira maior bancada parlamentar, como também pelo facto de ter uma representação homogénea em termos de círculos eleitorais, com deputados eleitos nos distritos de Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Leiria, Santarém, Setúbal e Faro. E não elegeu deputados em Portalegre, Évora e Beja mas foi, em algumas freguesias, o segundo partido mais votado. Um sinal de revolta que o PS e o PSD continuam a ignorar.

Apesar de um crescimento menos espetacular do que o Chega, o IL também consolidou de forma clara o seu eleitorado nos distritos de Lisboa e do Porto, onde foram a terceira força política mais votada. Em Lisboa, o IL teve resultados acima dos 15% em algumas freguesias do centro da cidade — tipicamente de classe média e que votam tradicionalmente PSD e CDS.

O que dizer do CDS? Mas alguém esperava que a política autofágica de Francisco Rodrigues dos Santos (mas também dos seus opositores) daria um resultado diferente que não fosse a morte de um partido histórico da democracia portuguesa?

A conclusão é óbvia: já que o CDS está morto, ou o PSD se reforma ou o Chega e o IL acabarão por engolir cada vez mais o eleitorado social-democrata.

5Se é uma má notícia a subida de um partido radical e populista como o Chega, é uma boa notícia a queda do irmão gémeo do Bloco de Esquerda. O BE perdeu mais de 250 mil votos e 14 deputados, ficando reduzido ao partido do Uber. É o seu pior resultado desde 2002.

Curiosamente, Catarina Martins parecia Rui Rio a falar sobre a sua demissão. “Nunca foi por resultados eleitorais que o Bloco de Esquerda decidiu a sua direção” — é uma frase que quase define o conceito de democracia do BE.

E o mesmo aconteceu com a CDU — que conseguiu o pior resultado de sempre por ter perdido cerca de 95 mil votos mas mesmo assim consideravelmente menos do que o BE. Uma (pequena) vitória de consolação: a CDU tem, pela primeira vez em longos anos, mais deputados do que o Bloco.

É óbvio que BE e PCP foram merecidamente castigados por terem provocado eleições antecipadas. Tentaram inventar todas as narrativas e mais algumas para tapar o sol com a peneira mas os eleitores não se deixaram enganar e mostraram um cartão vermelho aos dois partidos.

O PAN foi outro dos partidos castigados pelo eleitorado. Com tantas polémicas com os negócios de Inês Sousa Real, além da sua fraca liderança, o PAN só conseguiu mesmo à justa eleger um deputado por Lisboa.

O Livre obteve cerca de 68 mil votos, mais 11 mil do que em 2019, mas não deverá conseguir formar um eco-geringonça por causa da maioria absoluta do PS de António Costa.

Para terminar, uma nota claramente positiva: votaram mais 296 mil portugueses do que em 2019, o que significou uma taxa de abstenção de cerca de 42%. Talvez a taxa de abstenção pudesse ser ainda mais baixa, caso o ato eleitoral tivesse sido organizado com espaços próprios para o voto dos isolados. Seja como for, é a prova de como a campanha envolveu o país e de como os portugueses não desistiram do seu país.

Texto alterado às 14h12m