Há alturas em que não sabemos se é melhor ficarmos a fritar na frigideira ou saltarmos para o lume. Politicamente podemos estar a viver um momento desses e o dilema é fácil de explicitar: é melhor o horror de uma maioria absoluta do PS ou o pesadelo de um PS quase-quase maioritário, encostado à esquerda no essencial mas sem problemas para chantagear a direita nas aflições?

Não tenhamos muitas ilusões que é assim que estamos. Por isso, como toda a frieza e algum cinismo – indispensável nestas alturas – olhemos para os que nos espera.

Comecemos, naturalmente, pela política. A não ser que aconteça um cataclismo daqui até Outubro, os socialistas caminham para uma vitória folgada e o PSD para uma derrota histórica. Não me surpreenderia que a abstenção fosse elevada, castigando sobretudo os partidos mais à direita. O Parlamento é capaz de ficar mais dividido, mas sem surpresas transformadoras.

Neste quadro muitos eleitores interrogam-se sobre se não é melhor dar ao PS a maioria que ele nem sequer pede, quanto mais não seja para o libertar das exigências do Bloco e do PCP. Como alguns dirão, para o “recentrar”. É a síndrome Maria Heloísa de que já falou André Abrantes Amaral, uma espécie de voto útil dos moderados para evitar males maiores e extremismos dilacerantes.

É fácil fazer uma lista das malfeitorias que acordos celebrados por uma “geringonça 2.0” nos trariam. Se pensarmos bem, uma boa parte dos acordos escritos da “geringonça 1.0” apenas garantiam que a famosa “devolução de rendimentos” em vez de ser dada ao longo de toda a legislatura, como prometia o bloco PSD/CDS, seria dada em apenas dois anos. A outra parte – a pior parte – foi a que teve a ver com a reversão de algumas reformas e privatizações, mas mesmo assim houve áreas (como as leis laborais) onde o PS teve bom senso suficiente para não estragar tudo.

Uma “geringonça 2.0” teria seguramente um custo mais alto, e basta olhar para o que Bloco e PCP andam a defender na prá-campanha, desde a política fiscal à educação e à saúde, passando por exigências de re-nacionalizações que até têm eco para os lados do Largo do Rato.

Livrar-nos-ia uma maioria absoluta do PS desses males maiores? É possível que houvesse mais moderação, mas apenas isso e sem muitas garantias. Os socialistas já perderam qualquer vontade reformista e boa parte deles está hoje cada vez mais encostada ao Bloco no domínio do discurso e mesmo das ideias. Não é apenas Pedro Nuno Santos ou Duarte Cordeiro, é toda uma geração que tem vindo a ganhar mais e mais influência e já não terá para a controlar em São Bento Carlos César, que ainda era capaz de levantar a voz a Catarina Martins.

Mas o que mais assusta numa maioria PS nem é isso – é a recordação do que foi a maioria de José Sócrates. É saber que nunca os socialistas admitiram que erraram naqueles anos – quando muito confessaram que andaram distraídos. E é ver a forma como se comportam agora que ainda não têm maioria e já se passeiam como donos e senhores do país, pondo e dispondo com aquela arrogância que só eles são capazes de ter sem corar. O exemplo vem de cima, de um primeiro-ministro que nunca é responsável por nada do que corre mal, para chegar depois até cá abaixo, ao presidente da concelhia sem habilitações promovido a “especialista técnico” num gabinete governamental. Os negócios que vamos conhecendo não devem ser sequer uma pequena parte da parte emersa do iceberg.

Para além de que conhecemos a difícil relação do PS com a liberdade – a liberdade dos outros, naturalmente. Não é mal exclusivo dos socialistas, mas se alguma coisa os caracteriza é que não toleram ser contrariados e convivem mal com a independência alheia, seja das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições.

Mas vamos agora ser um pouco cínicos, pois temos de olhar para o que pode suceder ao país.

Os próximos quatro anos não vão ser como estes quatro que estão a terminar. Poucas vezes tantas coisas se conjugaram para tudo corresse bem a um governo – economia a crescer nos nossos mercados de exportação, taxas de juros a descer para mínimos históricos graças a São Mário Draghi, efeito positivo de reformas realizadas nos anos anteriores que possibilitaram o boom do turismo e do imobiliário e a expansão das exportações –, pelo que ninguém acredita em mais quatro anos deste quase paraíso.

Nem mesmo quem está próximo dos socialistas, como Paulo Trigo Pereira, que cito por fazer com a autoridade de um economista exactamente o mesmo tipo de previsões que eu faço, acredita na continuação do milagre: “O desemprego já atingiu quase o seu mínimo (a “taxa natural” de desemprego), o crescimento não vai acelerar, as taxas de juro não irão baixar mais, pelo que não haverá margem adicional para o tipo de medidas que foram tomadas nesta legislatura. Adicionalmente, algumas medidas recentes (descongelamento de carreiras e subidas de pensões) terão apenas o seu impacto orçamental pleno em 2020 e anos seguintes. Porém, se a economia não vai permitir grande folga e exige contenção orçamental, as expectativas das famílias, e dos vários setores profissionais, vão em crescendo. É expectável, por isso, que a tensão social se agrave.”

O que aqui não está escrito eu acrescento: um pequeno solavanco, um choque externo que está longe de ser improvável (Brexit, guerra comercial UE-EUA, possível recessão na Alemanha, persistente crise italiana, para só citar alguns), pode fazer tremer, e muito, o castelo de cartas das “contas certas” de Mário Centeno (alguém que, suspeito, por isto mesmo tudo fará para não continuar por cá mais quatro anos).

Nessa altura, o que é melhor? Deixar que o PS se confronte por fim com as suas responsabilidades e os seus erros, sem escapatórias, o que só sucederá se estiver a governar com maioria absoluta? Ou permitir que o PS repita o número de 2010 e 2011 e se volte para a sua direita em busca de socorro, venha pedir a PSD enfraquecido e esfrangalhado ajuda em nome da “responsabilidade orçamental” e se ampare nela quando os parceiros da geringonça deixarem de estar disponíveis para uma austeridade finalmente assumida e não disfarçada? Ou seja, que consagre a mexicanização do regime?

De novo o dilema de saber se é melhor ficar a fritar na frigideira ou saltar para o lume.

Na verdade só é um dilema para quem tem consciência de que vivemos numa mentira – a mentira de que as contas estão mesmo certas e que o “monstro” que é este nosso Estado sempre sôfrego continua a dormir –, de que nos satisfazemos com muito pouco, pois com este crescimento continuaremos a deslizar para a cauda da Europa, e de que pode ser ilusória a ideia de que a nossa democracia resiste a todas as malfeitorias, tropelias e compadrios.

Os outros estão bem, ou julgam que estão bem. Mas não estão. Estão como o sapo que adormece docemente na panela onde a água vai aquecendo lentamente até que morre cozido e sem dar por isso.

Por outras palavras, são aqueles que já estão mortos (porque desistiram, porque não querem saber, porque tanto faz) e ainda ninguém os avisou.