As manhãs já estão frias e envoltas numa bruma encolhida, mas eles caminham sempre os dois, lado a lado: a mãe e o seu menino grande pela mão. Ele com movimentos desconexos, olhar fundo e lábios que sorriem. Ela vem sempre determinada e cansada. Vejo-os todos os dias sem falhar, nem eu e nem eles um ao outro. Ter um filho com necessidades especiais não é uma escolha, muito menos um desejo ou um quadro que se borda ponto a ponto na gravidez. Não sei o que é, porque no banco de trás dorme um rapazinho loiro, com todas as possibilidades para ser o que quiser. Enquanto o admiro, esvazio a minha arrogância das vezes que reclamo a sua inquietude, os porquês em catadupa e as pequenas angústias.

O semáforo está vermelho. Não há malabaristas nem mímica. Mas sim um vulto que percorre o corredor, enquanto exibe uma vida amputada. Mantemos os rádios ligados e as janelas fechadas, impermeáveis ao frio na pele e no coração. Aceleramos a verde e viramos as costas com uma vergonha miudinha, que nem sequer chega a molhar. Estamos assim, sempre estivemos…ausentes e ágeis em encontrar desculpas para o nosso egoísmo: porque cumprimos a nossa parte, porque pagamos impostos, porque há muitos parasitas sociais, porque o tempo não sobra, porque entregas a culpa aos outros… tantas certezas e tão pouca fé na humanidade.

No caminho já encontraste alguém que ousou parar e estender a mão. Gestos de altruísmo que muitas vezes nem entendemos e outras invejamos. O Gil juntou um punhado de gente corajosa e criou uma organização de ajuda humanitária à Guiné-Bissau. Fê-lo em homenagem ao pai, que combateu no Ultramar e que desde que se lembra, pintou-lhe serões com histórias, savana e cheiros de África. Foi, veio e voltou mais de 50 vezes. Lá construiu uma escola, equipou um hospital, carregou centenas de alimentos, deu-lhes água e sonho. No final do ano passado, a malária deu conta dele. Esteve em coma, o corpo mirrou, mas a vontade manteve-se. Voltou. Vai voltar sempre. Já não sabe bem se o que faz é pelos sorrisos rasgados das crianças a quem dá colo, ou se é por ele mesmo.

Entretanto, a maioria de nós continua no seu itinerário certo e seguro, no qual tomo também o meu lugar. Falta-nos a coragem e a energia. Mas mais do que isso, falta-nos a dor dos outros. Por maior que seja a nossa compaixão, nunca saberemos, porque não estivemos lá, no lugar onde os outros sofrem. Teremos também as nossas dores, mas a maioria de nós quando abre a torneira, a água corre de forma automática, há luz, livros, televisão e outros dispositivos, pão fresco, temos pernas para correr, futuro… muito mais que o básico, muito para além do essencial. Mesmo as lições mais duras da vida são mais fáceis de curar no conforto de um lar.

Chegam-nos histórias destas todos os dias. Basta querer ver, querer sentir. Basta estar atento. E se mais não pudermos fazer, que haja pelo menos a humildade de agradecer o que temos, de admirarmos as pequenas fortunas do dia-a-dia, a sorte que nos calhou. Até porque o sol quando nasce é para todos, mas é mais quente e brilhante só para alguns. Acredita que és mais feliz do que julgas ser.