1 O Presidente da Câmara de Lisboa fez uma das declarações mais anti-democráticas nos últimos anos da política nacional. Sugeriu que chegará o tempo em que será necessário discutir a ilegalização do Chega. Estamos a falar de um partido que foi aprovado pelo Tribunal Constitucional e em quem dezenas de milhares de pessoas já votaram. Medina não gosta do Chega. Por isso, toca a ilegalizá-lo. Eis uma solução típica das ditaduras. Não sei se o Chega é um partido anti-democrático. Segundo o Tribunal Constitucional, o órgão que conta, não é. Mas sei que um dos principais dirigentes do PS faz propostas anti-democráticas.

E depois da ilegalização do Chega, o que se faria? Enviava-se o Ventura e os seus colegas para o exílio? Ou talvez fosse mais eficaz prendê-lo? E os eleitores e militantes do Chega passariam à clandestinidade? Ninguém no PS se indigna com estas afirmações? Num partido que foi criado no exílio e por figuras que estiveram presas. Já esqueceram os valores fundamentais da democracia e só pensam no poder? Ou, no caso do Chega, já deixaram mesmo de pensar? Um dia o jornalista e autor norte-americano, Walter Lippmann escreveu “quando todos pensam o mesmo sobre um tema, é porque já deixaram de pensar”. Parece-me que caminhamos perigosamente para esse estado irracional em Portugal. Essa irracionalidade tonta continua a aumentar os votos do Chega. Ventura não precisa de fazer campanha. Medina faz por ele.

Há três outras explicações possíveis para a afirmação de Medina. Uma é o medo. Receia que possa acontecer em Lisboa o que aconteceu nos Açores. Uma coligação entre todos os partidos de direita poderá afastá-lo da presidência da Câmara de Lisboa. Se o Chega fosse ilegalizado antes das eleições autárquicas, o lugar de Medina estaria mais seguro.

As outras duas explicações são ambas cínicas, e explicam o título do artigo. Contra as aparências, o PS quer ver o Chega a crescer para enfraquecer o PSD. Primeiro enfraquecem o PSD e depois colocam pressão nos sociais democratas para não se aliarem ao Chega, porque é um partido de extrema direita. Seria o método para perpetuar o PS no governo. Ou seja, interessa ao PS que o Chega aumente os seus votos. Foi assim que pensou Mitterrand com a Frente Nacional de Le Pen, e vejam o resultado que deu. Agora é o segundo maior partido em França.

Por fim, Medina pode querer ajudar Ventura a ficar à frente de Ana Gomes nas eleições presidenciais. Recordando Churchill, os adversários de Medina estão no PSD, mas os inimigos estão no seu partido, e o maior de todos é Pedro Nuno dos Santos. Nas presidenciais, Medina apoia Marcelo Rebelo de Sousa, e Pedro Nuno dos Santos vai votar em Ana Gomes. Uma enorme derrota de Ana Gomes nas presidenciais seria também um revés para PNS e uma vitória para Medina. Isso acontecerá se nas presidenciais Ventura ficar à frente de Ana Gomes.

2 Já se disse quase tudo sobre a teimosia do PCP em relação ao seu Congresso no fim de semana. Mostra que na linha soviética os seus dirigentes acreditam que há umas regras para as vanguardas revolucionárias, e outras para o resto do povo. Foi assim em todos os regimes comunistas do mundo, por que não haveria de ser com o PCP?

Todos os portugueses também percebem que o governo nada fez para impedir o Congresso do PCP. Há uma aliança real entre socialistas e comunistas, e mais forte será quanto mais o PS e o Bloco se afastarem. O PM escusava de ler de uma maneira atabalhoada e comprometida o texto da lei na televisão. Fez lembrar aquelas crianças que, quando mentem, dizem, “juro que é verdade.”

Gostaria de acrescentar um ponto muito simples: a solidariedade com os portugueses. Os comunistas estão sempre com a boca cheia da palavra solidariedade. Perderam uma grande oportunidade para mostrar que são mesmo solidários. Não haverá uma mente lúcida no PCP que perceba o óbvio. Poderiam ter simplesmente anunciado que adiavam o Congresso porque estão solidários com os milhões de portugueses que estão sujeitos ao confinamento. Poderiam ter ganho votos, mas a teimosia vai levar o PCP a perder ainda mais votos. O Chega, de novo, agradece.

3 Na linha das esquerdas radiais, Rui Tavares gosta muito de intimidar a direita para ver se ela se assusta. A última tentativa foi chamar uma grande parte da direita de “colaboracionista” por não condenar a aliança do PSD e do CDS com o Chega nos Açores.

É necessário ter um enorme descaramento vindo de uma pessoa que se sentou e votou durante anos ao lado de partidos totalitários no Parlamento Europeu. Foi dirigido por um antigo colaborador da polícia política da antiga RDA. Usando linguagem no contexto da história portuguesa, Rui Tavares foi camarada de bancada parlamentar de um antigo agente da PIDE da antiga RDA. E tem a lata de chamar colaboracionistas a pessoas de direita que sempre foram e são contra todo o tipo de ditaduras. Aliás, num debate na televisão, Sérgio Sousa Pinto, desmascarou Rui Tavares em directo. Foi apanhado a mentir, como se alguém acreditasse que não sabia o nome do seu antigo líder parlamentar. Aliás, a sua expressão disse tudo. Foi a cara de alguém que não tem qualquer problema de mentir em público.

Quem colaborou e se sentou ao lado de agentes pidescos deve pensar muito bem antes de atacar a direita democrática.

4 Quero deixar aqui um abraço de solidariedade ao André Azevedo Alves. Foi atacado de um modo infame por ter acusado, e muito bem, Mamadou Ba de incitar à violência. Obviamente, que sabemos que a expressão “morte ao homem branco” foi usada num sentido figurado. Mas não deixa de ser um discurso de ódio e um apelo à violência. E também sabemos quem foi Fanon e o que ele defendeu.

Azevedo Alves tem toda a razão em criticar Mamadou Ba. Infelizmente vivemos tempos em que uma reação óbvia parece um acto de coragem. No final de mais uma polémica, o que ficará será o aumento de votos para o Chega. As esquerdas não aprendem mesmo nada com o que se passa noutros países europeus.