Governo

Há novidade, sim, Dr. António Costa /premium

Autor
1.159

A endogamia do governo não é uma tradição portuguesa, mas um fenómeno novo, que sugere o isolamento de um regime e o esgotamento político do grupo que domina o país há vinte anos.

De repente, até a imprensa espanhola deu por que a península não acaba em Badajoz e que para além da raia há um curioso país governado por parcerias de pais e filhos, e de maridos e mulheres, como uma empresa familiar. É de facto extraordinário. Mas o primeiro-ministro, muito descansado, matou logo a questão: “não era novidade”. Porquê? Porque já era notícia conhecida? Ou porque, em Portugal, sempre teria sido assim, mas só agora a imprensa, por má vontade contra o governo, estaria a desvendar os parentescos dos políticos? Ora, se foi neste segundo sentido que António Costa disse que não havia novidade, é preciso dizer que sim, que há novidade.

Nos séculos XIX e XX, mesmo sob regimes supostamente representativos e apesar de revoluções frequentes, a base de recrutamento político manteve-se bastante restrita em Portugal, não só pela dimensão do país, mas por a instrução da população ser reduzida. Se a isso adicionarmos o nepotismo, não é surpreendente que os mesmos nomes de família tendessem a repetir-se na vida pública, tal como acontecia em muitas profissões. Na segunda metade do século XIX, cerca de metade dos deputados tinham alguma relação de parentesco com outro deputado. Houve sempre muitos primos e irmãos na política. Os irmãos Passos, Manuel e José, os líderes da esquerda nos anos 1830, são um exemplo. Os filhos sucederam por vezes aos pais. Carlos Lobo de Ávila, ministro na década de 1890, era filho de Joaquim Tomás Lobo de Ávila, ministro na década de 1860. Dizia-se até que o velho Lobo de Ávila preparara o filho, desde pequenino, para uma carreira parlamentar, obrigando o miúdo em casa a fazer discursos que ele ia interrompendo com apartes e protestos, para o jovem Carlos se habituar a falar no meio do tumulto das assembleias. É fácil reconstruir linhagens e redes de políticos aparentados, em alguns casos através de regimes que entre si se contradiziam na ideologia e no funcionamento.

Mas sendo as coisas assim, há a registar este facto que agora parecerá espantoso: num país com uma população ainda mais pequena do que a de hoje e muito menos escolarizada, não tenho notícia de irmãos ou filhos e pais terem sido ministros ao mesmo tempo durante a Monarquia Constitucional, a Primeira República ou o Estado Novo. Pode-me estar a escapar algum caso, mas penso que não. Quanto à actual democracia, creio que só uma vez, antes da época actual, dois ministros foram parentes muito próximos: Ricardo Baião Horta e Basílio Horta em 1981. Podia ter acontecido outra vez em 1990, mas Miguel Beleza tomou posse como ministro das Finanças no dia em que a sua irmã Leonor Beleza deixou de ser ministra da Saúde.

Isto dá ideia do carácter excepcional do grau de endogamia da actual governação socialista. Porque é que numa democracia e num país com uma população maior e mais qualificada do que no passado, e onde portanto a base de recrutamento político é mais vasta, acontece esta coincidência de pais e filhos, maridos e mulheres estarem sentados no mesmo conselho de ministros? Nunca, provavelmente, o número de relações familiares num governo terá sido tão grande, e os números, como notou Vital Moreira, contam. Desculpe, Dr. António Costa, mas é de facto “novidade”, e não podemos procurar a sua razão de ser nas tradições de neopotismo da sociedade portuguesa, porque essas tradições nunca antes geraram tal acumulação de parentes próximos num governo.

Não devemos por isso diluir e confundir os actuais parentescos governativos no meio de outros casos de ligações familiares. Se esta endogamia tem algum significado, não é a de um resquício do passado ou de uma ocorrência normal, mas, pelo contrário, a de um fenómeno novo e único, que sugere o encerramento de um regime, incapaz de se renovar, e o esgotamento político de um grupo que domina o país há vinte anos, e que já só parece encontrar confiança dentro dos círculos familiares mais próximos. Sim, há aqui novidade – e talvez sinal do fim de uma época.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PSD/CDS

O momento PRD da direita /premium

Rui Ramos
168

O PSD e o CDS tiveram a semana passada o seu momento PRD: o momento em que começamos a suspeitar de que já não sabem o que representam nem para que servem.

Crónica

Portugal, um país à prova de fake news /premium

José Diogo Quintela

Porra Vasily! Então, mas o que é que andas a fazer, pá? Portugal não necessita dos nossos trolls, nem das nossas fake news. Os partidos tradicionais encarregam-se de escangalhar a imagem da democracia

Eleições Europeias

Populismo e eleições europeias

Ricardo Pinheiro Alves

O crescimento do populismo xenófobo é alimentado pelo aumento do populismo igualitário, conduzindo a uma progressiva radicalização da vida pública como se observa actualmente nos países desenvolvidos.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)