1. Passado. Depois de três governos de Cavaco Silva que modernizaram o país e promoveram o maior progresso económico e social que o regime democrático conheceu até hoje, nunca mais o centro-direita conseguiu repetir idênticos sucessos. Teve Durão Barroso que, depois de tanto persistir para chegar a primeiro-ministro, fugiu do país à primeira oportunidade. E teve um desastre chamado Pedro Santana Lopes que deve ter sido o principal promotor da maioria absoluta de José Sócrates em 2005.

Pedro Passos Coelho poderia ter tido essa oportunidade de tentar alcançar Cavaco Silva mas não só o seu Governo esteve seriamente condicionado pelo tempo de assistência financeira que marcou o período 2011-2015, como Passos cometeu erros políticos crassos que impediram a renovação da maioria absoluta da coligação PSD/CDS nas eleições de 2015. Contudo, a vitória com maioria relativa deu um capital político ao centro-direita devido à recuperação da credibilidade internacional do país e o regresso ao crescimento económico que podia e devia ter sido exponenciado pelos líderes seguintes do PSD e do CDS, nomeadamente por Rui Rio.

2. Presente. O PSD e o CDS vivem hoje um paradoxo: depois de quatro anos em que o PS virou à esquerda e preferiu governar com o apoio do BE e do PCP, uma parte dos eleitores naturais do centro-direita podem vir a ser decisivos para a maioria absoluta de António Costa. Porquê? Pura aritmética eleitoral.

Se compararmos as sondagens publicadas desde 31 de agosto, chegamos aos seguintes valores médios: PS (39,7%), PSD (22,3%), BE (9,6%),  PCP (6,8%), CDS (5,4%), PAN (4,4%).

O centro-direita (PSD+CDS) vale 27,4% — muito abaixo dos 36,9% obtidos pela mesma coligação em 2015 —, enquanto que o PS subiu de 32,3% para 39,7%. Se tivermos em conta que o BE tem praticamente a mesma indicação de voto nas sondagens (9,6%) do que o resultado em 2015 (10,1%), temos de concluir que o Bloco tem uma subida residual. Já o PCP tem uma descida de apenas 1,4% e o PAN tem uma subida de três pontos percentuais.

Afinal, quem está a ganhar com a fuga do eleitorado centro-direita do PSD e do CDS? Podemos argumentar que esses votos estão a ir para abstenção, para os pequenos partidos como a Iniciativa Liberal ou o Aliança (que aparecem nas sondagens com possibilidade eleger um deputado) e também para o PAN mas há um facto indesmentível: também estão a ir para PS. E podem ajudar António Costa a conseguir a maioria absoluta desejada.

Como foi possível verificar-se esta fuga de eleitores? Por três razões essenciais:

  • Erros estratégicos. Rui Rio é aqui o protagonista. Disse, repetiu, insistiu e voltou a repetir para que não ninguém ficasse dúvidas: o PSD não é um partido do centro-direita. Rio posicionou o partido como social-democrata (não só de nome) e ao centro e com isso afastou uma parte considerável do voto moderado liberal e conservador que costuma votar no PSD.
  • Outro erro fundamental de Rio foi o de não ter feito oposição. O seu primeiro ato público como líder do PSD, aliás, é sintomático disso mesmo: preferiu ir a São Bento dialogar pactos com primeiro-ministro, em vez de se preocupar em fazer oposição ao Governo com a legitimidade reforçada de ser a maior bancada no Parlamento. É por isso legítimo concluir que o PSD de Rio não passa de um PS em segunda mão.
  • É verdade que Assunção Cristas foi muito mais aguerrida do que Rui Rio ao longo da legislatura, posicionando-se, e bem, como a única oposição ao PS de António Costa e responsabilizando igualmente o BE e do PCP pela governação socialista. O problema é que o episódio dos professores em abril é a negação de toda a linha da oposição seguida pelo CDS. Enquanto viam na Comissão Parlamentar de Educação o CDS a negociar com PCP, BE e PSD o diploma da reposição do tempo de contagem dos professores, muitos eleitores do centro-direita viram em Cristas uma oportunista política. E mudaram o seu voto nas europeias.

A sondagem do Expresso (ICS/ISTE) desta semana tem um dado muito interessante: sem contar com Marcelo Rebelo de Sousa, Mário Centeno é o político mais popular à direita, liderando destacado face a Rui Rio e Assunção Cristas. Não só este dado revela bem o falhanço da oposição do centro-direita, como Centeno será sempre, como dizia Marina Costa Lobo no Expresso, uma espécie de arma secreta de António Costa para seduzir o eleitorado do centro-direta a votar no PS a 6 de outubro.

3. Campanha eleitoral. Rui Rio e Assunção Cristas entram na campanha com o objetivo de evitar a maioria absoluta do PS e de evitar as mais pesadas derrotas de sempre da história de cada um dos partidos. Parece pouco ambicioso mas se Rio conseguir um resultado entre o pior resultado de sempre (24,25% nas legislativas de 1976) e o obtido por Santana Lopes em 2005 (28,77%), poderá evitar que o seu nome fique ligado ao pior resultado eleitoral da história do PSD. O mesmo se diga de Assunção Cristas: o CDS tem 4,4% como o pior resultado eleitoral em 1987 e 1991.

O problema é que, dizem os especialistas, as campanhas eleitorais têm cada vez menos importância para alterar perceções instaladas no eleitorado.

A única exceção são os debates na televisão. E aqui Assunção Cristas tem estado muito melhor do que Rio — quase sempre apagado. Muito combativa e focada na sua mensagem, Cristas tem feito bons debates, nomeadamente com António Costa (PS) e com André Silva (PAN). Veremos se isso permitirá uma recuperação ao CDS face ao valor médio das sondagens (5,4%) e tendo conta que o partido de Cristas costuma estar subrepresentado nos estudos de opinião.

Já Rui Rio vai ter uma espécie de última oportunidade no debate televisivo desta 2.ª feira com António Costa. Não uma oportunidade para vencer as eleições mas para mostrar alguma diferenciação face ao projeto socialista e aguentar algum do eleitorado tradicional do centro-direita.

4. O Futuro. Poder-se-ia pensar que face à perspetiva de uma hecatombe eleitoral, o PSD e o CDS poderiam correr sérios riscos de desagregação. Mas não é isso que está a acontecer. Por exemplo, e só no PSD, estão em marcha diversas candidaturas à sucessão de Rio, o que demonstra a vitalidade do partido.

Apesar desse risco de desagregação não existir (para já), há três pontos que têm de ser desenvolvidos pós-6 de outubro:

  • Será fundamental que PSD, CDS, Aliança e Iniciativa Liberal abram um diálogo atempado e construtivo para construir uma alternativa política aos socialistas. O futuro do centro-direita passa muito mais pela federação das direitas num só partido, do que pela fragmentação do espaço político do centro-direita.
  • O PSD precisa de clarificar se é efetivamente um partido social-democrata (como os partidos trabalhistas e social-democratas do resto da Europa que se reúnem na Internacional Socialista como PS) ou se assume sem restrições os ideais liberais e conservadores que sempre fizeram parte da história do partido e nos quais uma parte decisiva do seu eleitorado se revê.
  • A longo prazo, todos os partidos acima referidos têm de fazer uma aposta estrutural na conquista de poder e influência nas escolas secundárias e nas universidades. É absolutamente confrangedor que o centro-direita tenha desistido de lutar nos espaços políticos da juventude — onde o Bloco de Esquerda e o PAN têm uma parte importante do seu eleitorado. Se o PSD e o CDS (e os restantes partidos) nada fizerem nessa área, esse eleitorado ficará definitivamente perdido e o crescimento do centro-direita a longo prazo será colocado em causa.

A construção de um futuro para o centro-direita em Portugal não deverá passar por Rui Rio e por Assunção Cristas mas é fundamental para a qualidade e para o pluralismo da democracia portuguesa. Sem uma oposição forte, nunca existirá um escrutínio consequente ao Poder Executivo liderado por António Costa.