Existe em Portugal a convicção generalizada que o Estado português nunca vai falir, porque Bruxelas acaba por passar o cheque necessário. No entanto, a imagem de António Costa vergado perante Mark Rutte seguido de um aceno de “bye, bye” enquanto o Primeiro-Ministro holandês se afasta de bicicleta, é, já em si, uma falência política.

Uma democracia pressupõe a escolha entre diferentes forças políticas que se submetem a sufrágio directo e universal. Mas se o dinheiro for mágico, vier sempre que se precisa, para que serve escolher entre diferentes tipos de governação? De que serve debater, de que serve discutir, de que serve votar, de que serve a essência da democracia se o dinheiro acabar por aparecer? A questão não é de somenos, nem meramente teórica. É algo que sentimos já em Portugal com os cheques que vêm de Bruxelas quando temos problemas. De que vale termos cuidado com o dinheiro dos contribuintes se, quando este faltar, alguém o repõe? Qual é a vantagem dos excedentes orçamentais, se os défices forem financiados por outros e o seu único custo consistir na perda de soberania? Ou de vergonha? Ou da dignidade?

Governar deixa de ser um acto que pressupõe uma escolha entre várias opções possíveis, para se resumir à gestão de qual das escolhas disponíveis se concretiza primeiro. Não havendo custos, deixa de haver más decisões e os maus políticos eternizam-se no poder. Na verdade, é o dinheiro mágico de Bruxelas que financia António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa e Fernando Medina. É o dinheiro fácil de Bruxelas que cria figuras como Pedro Nuno Santos e Catarina Martins. O PCP ainda não pertence ao museu da história porque é financiado pela UE que os comunistas se dão ao luxo de desprezar. PSD e CDS  andam perdidos, porque julgam não haver alternativa ao socialismo enquanto o Chega diz que enfrenta os poderosos quando se vira contra os ciganos. Até o meu filho de oito anos, quando joga ao Monopólio comigo, sabe que uma má decisão o leva a perder dinheiro. Que os recursos são limitados. Ele acaba por aprender com um jogo lúdico, algo que é bem mais real que a nova realidade que não passa de uma ilusão. Já os socialistas se satisfazem com uma ilusão que torne real o que parecia impossível: que a UE se desvirtue ao ponto de financiar maus governos.

Não havendo custos económicos não se retiram ilações políticas. Os maus governos podem fazer vénias submissas, mas não são punidos nas urnas porque alguém tapa os buracos que criaram. O comportamento de António Costa perante Mark Rutte e o apoio do Primeiro-Ministro português a Viktor Orbán são o custo que temos de suportar para que o país não colapse. Podíamos conseguir votar noutra força política para termos outro Governo. Podíamos, mas os partidos uniformizaram-se, porque o dinheiro fácil e com poucas condições desmotiva a procura de soluções honestas. Vivemos um período extremamente complicado na nossa história: passaremos por muitas dificuldades se os estados europeus mais rigorosos no uso do dinheiro público não nos ajudarem, mas o nosso sistema político fica defraudado se Bruxelas nos der a mão. O dinheiro mágico liquidou-nos. Vivemos uma verdadeira tragédia que, além de económica, se tornou política.