Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

No passado sábado a Dra. Clara Ferreira Alves teve a gentileza de publicar um magnífico artigo sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) em que o IPO é usado como um excelente exemplo do que são carências por resolver, apesar de sucessivos anúncios de solução, e do longo processo de inação política que envolve a reforma do SNS. A oncologia, sendo a área médica que trata a segunda maior causa de morte em Portugal, os cancros que têm inexorável tendência para aumentar, é a especialidade que mais sofre com a incompetência do Estado. Quando menciono oncologia, não me refiro só à oncologia médica, mas a todo o conjunto de intervenções médicas e cirúrgicas, incluindo as dirigidas às esferas física e psicossocial, usadas no tratamento dos doentes com cancro, do diagnóstico até à cura ou morte.

No caso do IPO de Lisboa a situação é ainda mais grave de como é descrita no artigo do Expresso. Não se trata apenas de adiamentos incompreensíveis, já com história de 30 anos, nem de trafulhices de todo o tipo, com especial destaque para os ludíbrios políticos. Passámos de desejar um novo IPO, um hospital completo, para almejar um novo edifício de ambulatória e, mesmo assim, nada acontece.

O que está em causa é a progressiva perda de capacidade e, consequentemente, de qualidade do serviço prestado. O IPO de Lisboa, até agora, em tudo o que envolve inquéritos de satisfação de utentes e níveis de produção quantitativa e qualitativa, incluindo grande parte da investigação realizada, tem conseguido sobreviver à escassez de meios, de financiamento, de apoios do Estado, e à concorrência feroz que o setor privado lhe move.

Note-se que essa mesma concorrência, ainda longe de demonstrar ser capaz de prestar cuidados oncológicos de melhor qualidade, sustentada num marketing ocasionalmente despudorado e, note-se, muitas vezes apoiado por figuras do Estado, tem um papel utilíssimo e indispensável na resposta a uma parte significativa da população que tem acesso a seguros e subsistemas. Logo, mais do que querer acabar com a concorrência, o IPO de Lisboa colabora com ela e gostaria de que o inverso fosse mais real do que apregoado.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O IPO é um dos portos seguros onde os doentes mais avançados, tão doentes que já nem aos privados podem pagar cuidados, acabam por vir. Apesar disso, com a conivência de quem nos governa, há projetos privados, comerciais e legítimos, para quem o fim do IPO de Lisboa seria a melhor notícia possível. Para isso têm trabalhado usando a sua maior capacidade de contratação de pessoal e desviando tudo quanto podem, até para lá do que necessitam, com a intenção de esvaziarem a oferta pública e ganharem um monopólio em que uma parte substancial, a maior parte, dos doentes ficará sem ter quem os trate.

Os problemas são reais e cada vez mais graves. Temos atrasos em muitas áreas. Atrasos na capacidade de fazer exames de imagem, de irradiar, de operar e de administrar quimioterapia endovenosa, com especial destaque para o que envolve terapias celulares como a transplantação de progenitores do sangue, a que o público chama “medula óssea”, e células geneticamente modificadas, chamadas CAR. Estes atrasos são já insustentáveis e ainda mais acentuados quando, graças à má gestão global da COVID-19, o fluxo de doentes aumentou e os doentes surgem com patologia mais avançada.

Não é justo afirmar que perdemos doentes de forma generalizada por incapacidade de resposta, nem que há pilhas de cadáveres que se hão de acumular por falta de resposta do IPO de Lisboa. Mas há uma confiança que é defraudada, há limites de qualidade mínima que não serão atingidos e há, com grande repercussão, uma enorme frustração em todos aqueles que, como eu, dedicaram uma estafante vida profissional a cuidar de doentes com cancro. Não estamos em fase de quantificar impactos generalizados quando eles são pontuais. Só que a vida de cada um é 100% do próprio e para quem é vítima de um atraso, de uma demora, de uma espera ou de um adiamento, não lhe serve saber que foi um dos 10% a quem a infelicidade de um mau serviço somou-se à de ter um cancro. E, como no caso das terapêuticas envolvendo células, há atrasos que são tão impactantes para quem decide prioridades como para quem espera por um tratamento que poderá nunca chegar.

Falta-nos pessoal, já de forma crítica. Há camas e postos de tratamento que não funcionam porque não temos enfermeiros suficientes. Imaginem como, não podendo pagar mais, nem providenciar outro tipo de compensação, face a um emprego trabalhoso e menos gratificante, pode o IPO de Lisboa contratar os recursos humanos que lhe vão faltando. São enfermeiros, muitos, médicos e pessoal técnico, especializado e não especializado, que nos falta. E não chega que o Ministério diga que autorizou as contratações quando não há nenhum incentivo que leve as pessoas a escolherem o IPO de Lisboa. E o mais caricato é que o ministério, sabendo que os hospitais precisam hoje mais de enfermeiros do que os cuidados primários, persiste em abrir concursos e vagas em centros de saúde, onde os enfermeiros podem até ganhar mais fazendo menos, basta não terem turnos noturnos e de fim de semana. Cada vez que os centros de saúde podem contratar enfermeiros retiram pessoal aos hospitais onde eles são necessários. Não ponho em causa a necessidade de dotar o SNS, em todos os níveis de intervenção, dos recursos suficientes, mas nos cuidados primários faltam mais médicos dos que enfermeiros e nos hospitais faltam enfermeiros de forma geral e médicos e algumas especialidades.

Mas a questão estrutural é o cerne de tudo. O IPO de Lisboa, ao contrário do Porto onde a tutela sempre quis investir, está desatualizado. Graças ao esforço do primeiro governo do Dr. Passos Coelho a antiga Escola de Enfermagem, entretanto devoluta, passou a integrar o imobiliário do IPO de Lisboa e lá funcionam, o melhor que é possível, várias consultas que já não tinham espaço para funcionar onde estavam. Foi o que se pode fazer e nem isso tinha sido feito até chegarmos ao governo. Mas não chegou.

Como não chegou a nova unidade de transplantação de percursores hematológicos, nem é suficiente o espaço de hospital de dia para quimioterapia, não serve a capacidade de fisioterapia existente, nem temos camas suficientes para internar os doentes com cancros de sangue e de outras localizações que precisam de ser internados, faltam equipamentos e pessoal para a imagiologia, escasseiam anestesistas, tal como a nossa capacidade de assistência ambulatória está limitada pelos meios humanos e de deslocação existentes. A lista de insuficiências seria longa. Mas é bem conhecida de todos os interessados. Digamos que os interessados que menos sabem desta lista são os doentes a quem tudo é feito para que das faltas não se apercebam e não sofram por causa delas. Só que há um ponto a partir do qual já não é possível disfarçar. Sentindo-se lesados, burlados nas suas expetativas, é bom que reclamem, falem alto e ajudem os trabalhadores do IPO a também serem ouvidos.

O Estado não antecipou o impacto expetável das doenças oncológicas. Não antecipou que as novas tecnologias, algumas verdadeiramente inovadoras e com valor acrescentado, seriam mais caras, mais consumidoras de tempo e de recursos, e mais exigentes em termos estruturais e humanos. E continua a não querer saber.

Faz de conta, como fez o anterior presidente da Câmara de Lisboa que vendeu os terrenos da entrada do IPO a um privado, dificultando qualquer obra futura, e mandou construir uma ciclovia junto ao muro que só serve para dificultar o acesso e onde, estranhe-se, não passa ninguém. Faz de conta quando inscreveu uma verba para a construção de um novo edifício, mais um plano, mais uma volta, a que o IPO de Lisboa respondeu fazendo esse plano que vai sendo sucessivamente adaptado. Na proposta de orçamento para 2022, sem que se tivesse despendido o valor de 2021, o financiamento para um novo edifício do IPO de Lisboa, desapareceu! Faz de conta quando acha que o valor de menos de 60 milhões de Euros seria suficiente para tudo o que o IPO de Lisboa precisa de mudar, remodelar, crescer. Não é. Já não é e quanto mais tempo passar, mais caro será salvar o IPO de Lisboa.

Haverá quem se questione sobre a necessidade de haver IPO em Lisboa. Os argumentos que sustentam a inevitabilidade para a existência de um hospital especializado em cancro são muitos e internacionalmente reconhecidos e publicados.

Mas, de uma forma comezinha, a leitura mais simples é a que resultará da avaliação dos muitos milhares de quilómetros percorridos por doentes que de todo o País vêm ao IPO de Lisboa, das dezenas de ambulâncias que se acumulam diariamente no “nosso” parque – graças à simpatia da entidade a quem o anterior Presidente da CML vendeu o terreno – e as listas de espera que os doentes não abandonam porque não querem, não podem ou porque não têm outro lugar melhor para ir.