1. Ter cinquenta e cinco ideias deve ser o cabo dos trabalhos, ter cinquenta e cinco boas ideias deve ser como passar o Adamastor. Onde se pode erguer um compromisso firme por detrás de 55 medidas? Apesar de eu não ser uma floating voter, teria preferido aperceber-me de três ou quatro ideias claras do PS sobre temas que irão determinar a vida do país e encenar o seu futuro. Era certamente mais interpelante e menos amolecente que cinquenta e cinco medidas (ou intenções, ou promessas). Por exemplo: qual o estado de saúde (no PS) sobre o consenso europeu que sempre lá vigorou – tal como no PSD e no CDS, aliás. Ainda vigora? Nos mesmos moldes e com iguais pressupostos? Alguns socialistas espantar-se-ão, estou certa, que eu chegue sequer a enunciar tal dúvida mas a dissonância entre as vozes sonantes do Largo do Rato ou do Parlamento autoriza a perplexidade e consente a dúvida, apesar de nem o tema, nem o momento, aconselharem uma ou outra.

Como se pode ao mesmo tempo jurar fidelidade ao euro, saudar efusiva mente a vitória Syriza, olhar com uma displicência duvidosa para os mandamentos do Tratado Orçamental, cantar fidelidade na nossa pertença ao clube da UE e prometer uma renegociação da dívida que nunca saiu do papel das proclamações eleitoralistas de quem a promete?

Valerá a pena, a propósito, evocar pela enésima vez a Grécia. O temível problema político – muito mais que económico – que ela pressupõe e o rasto de estragos irreversíveis que poderá deixar na UE, no euro, nos povos dos 27 Estados membros e na própria Europa, vão bem além dos episódios recentes dos protagonistas gregos. É-me indiferente a desastrosa sessão de pose do viçoso Varoufakis, as “não- gravatas” de Tsipras ou a previsível dissolução das “promessas” eleitorais no charco da irresponsabilidade. Não me é indiferente saber como pensa o PS lidar com isto: remetendo exclusivamente – e por isso erradamente – a questão grega para um braço de ferro Alemanha/Atenas com dívidas e incumprimentos ao fundo da paisagem, ou colocando-a no centro de um puzzle político pesado e de pesadas consequências? Ficando ao nível básico da dicotomia austeridade versus anti-austeridade ou elevando-se acima dela para abarcar uma complexidade que nos toca a todos? É que as últimas notícias que tivemos – a estridência festiva com que os mais altos dirigentes socialistas abraçaram a vitória grega – fazem temer o pior. E quando nos lembramos de que tão abrasivas comemorações impediram qualquer alusão aos companheiros do Pasok, tão amigos que eles eram, o pior… piora.

Seja como for, ouvir António Vitorino, Luís Amado, Jaime Gama, Francisco Assis, Vital Moreira a falar da UE, de Portugal no seio da União Europeia ou das alianças que competem a um partido de poder com a responsabilidade do PS, não é de todo o mesmo que atender – por exemplo – a um extraordinário cavalheiro que ouvi há dias: Novais de seu nome, constitucionalista de profissão, socialista de credo, informou televisivamente o país que o tempo em que não havia governos ou coligações governamentais com partidos à esquerda do PS tinha… acabado. Ponto e pronto. Escutar Fernando Medina, apesar de algumas concessões a que o ar do tempo na ala radical do PS o obriga em público, mas que – aposto – ele negará em privado -, não é o mesmo que pasmar diante da exuberante radicalidade de João Galamba. Face a tão díspares posições deve um cidadão eleitor prestar atenção a quem? A Novais? A Medina e a Vitorino? A Galamba que aparentemente goza de bom palco diante do seu líder? (o que não deixa de fazer impressão) A outros? Quais, ao certo?

Dir-se-á que António Costa não quer separar águas, está a ganhar tempo, não pode espantar a caça na sua própria coutada, precisa dos batedores unidos. Mas a radicalidade de alguns deputados, de tão irracional, embaraça num partido de poder como o PS, que sempre soube onde era o seu lugar no tabuleiro politico português. Galamba não chega a incutir aquele mínimo de respeitabilidade para que o olhemos como um interlocutor sério ou uma alternativa credível. Não se sabe se as suas ideias, sempre disparadas como tiros de metralhadora, são mais modestas que datadas ou vice versa; sabe-se que não provaram em lado nenhum, além de que aquele grau de arrogância aniquila qualquer projecto de debate, tornando-o inviável. Tenho para mim que o líder do PS disse aos chineses o mesmo que diz em circuito fechado aos seus amigos próximos ou no seu núcleo político duro: o país está melhor, mas o mais confrangedor é que logo a seguir, por ter dito uma verdade que La Palisse não enjeitaria, teve que abrir um leque de desculpas pela gaffe (?). Temendo certamente o seu efeito sobre ala mais extremada do PS, sobre os socráticos, sobre os radicais, sobre os aparatosos protagonistas de um doentio bota-abaixismo que se esgota na esterilidade disso mesmo.

Costa explicou-se, desdisse-se, voltou atrás, andou para a frente, uma trapalhada. Autoridade, pouca. Rumo, desconhecido. Se os tivesse, teria cortado cerce um fait divers que ainda circula e pelas piores razões. Não teve, mau sinal.

Também se ouve pouco o PS sobre a renegociação da divida, uma promessa que há poucos meses era um mandamento socialista mas ao que parece de prática desconhecida em Bruxelas/Berlim/Frankfurt. Os socialistas voltaram atrás, aguardam melhores dias, esperam outros ventos, estão a ver no que pára a Grécia? Não sabemos. Mas sabemos que esse salva-vidas que os levaria à terra prometida está encalhado num qualquer mar. Talvez no das (muitas) dúvidas que cruzam esta grande família, sobre esta e outras questões. E o tratado orçamental que tão depressa iriam cumprir, como denunciar, como só cumprir assim-assim? E a consolidação orçamental em curso? Que pensam dela? Como a avaliam e que importância lhe dão, (mesmo que a narrativa socialista atribua os seus louros a exclusivos factores externos)? Vão ter a consolidação orçamental em conta como farol e prioridade ou passá-la para quarto ou quinto lugar da lista? Ou até confundi-la com “austeridade”?

E como compatibilizá-la com a promessa ainda há dias reeditada por António Costa de “reposições de salários, pensões, baixa da taxa do IVA”, etc.?

Um dia saber-se-á tudo isto, é claro, de momento são mais as vozes que as nozes. Sucede porém que espanta que ainda não se saiba -sem sombra de duvida -coisas tão definitivas como o compromisso europeu; em que benesses se iria traduzir o apregoado “bater o pé à Europa” no quotidiano dos portugueses; o lugar do Tratado Orçamental no Largo do Rato; a importância de ter ou não as contas em dia, a importância da credibilidade externa. Por aí.

Suspeito não ser a única a fazer estas perguntas pela simples razão de que elas são “nacionais”. Podem vir a envolver o país e não um partido, e têm a ver com um povo e não com a militância.

2. Diz que pratica os valores em que acredita com militância e método mas devo dizer que usei de igual método e da mesma militância para obter esta entrevista com ele. Há meses que andava a negociá-la, foi adiada duas vezes, concretizou-se há dias, já está aí para ser vista e – gostaria eu – reflectida.

Interessou-me voltar a encontrar este português que foi capaz – como quem levanta um Boeing do chão com as mãos – de “resgatar” o maior banco britânico do (verdadeiro) resgate a que o Loyds Bank fora submetido há quatro anos, pelo Tesouro Britânico. O português chama-se António Horta Osório, tem cinquenta e um anos e é o CEO do Loyds. Chovia em Londres quando o visitei no seu gabinete do banco no verão de 2011, para o entrevistar para o DE e que longe eu estava de imaginar – e ele talvez também não – ser possível que, menos de quatro anos depois, já houvesse, na maior instituição bancária inglesa, lucros consideráveis, 96% dos objectivos atingidos ou mesmo distribuição de dividendos. E, no entanto, o autor desta proeza cumpriu a sua tarefa como das outras vezes e com os mesmíssimos instrumentos de navegação – trabalho, esforço, mérito, liderança, decisão – com que desde os vinte anos, tem vindo a construir um currículo invulgar.

Lembro-me que quando o entrevistei pela primeira vez – há mil anos, na SIC Noticias -, António Horta Osório era um jovem tímido, desconhecido e ensimesmado que prometia. Os anos, a vida e a sua impressão digital ilustraram que foi porém bem além disso. Como mostrou no Santander, depois no Banco de Inglaterra, agora no Loyds (para resumir.) Sempre com sobriedade, brilho e altos resultados. Operando mudanças quase silenciosas e com mão só aparentemente de veludo. Tem três filhos, habita em Londres, vem a Lisboa quanto pode, segue a par e passo a vida do país, é muito bem informado, e embora fuja de palcos e diga detestar holofotes, dá-se com os grandes deste e de outros mundos. Coleciona arte do período da expansão portuguesa, acedeu ao convite de David Cameron para se encarregar da (maravilhosa) Wallace Colection na capital britânica, e mergulha uma vez por ano em longuínquas águas azuis. Ah, e é vaidoso. Mas nada disto interessaria muito se de facto dele não sobrasse o que marca e define um homem: o carácter, a seriedade, o trabalho, a exigência, a qualidade. E o exemplo.

Por outras palavras, isso que me faz ciclicamente procurar este português que vale a pena.