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Vivíamos a idade dourada da segurança. Aquela expressão é de Stefan Zweig, no livro O Mundo de Ontem, a propósito do longo período de paz que, com excepções (os Balcãs), ocorreu na Europa desde o último quartel do século XIX até aos anos 10 do século XX: foi a idade dourada da segurança. A seguir, rebentou a primeira guerra mundial. O que sucedeu? Alianças – a tríplice aliança contra a tripla entente -, impérios em disputa, nacionalismos arreigados – os Balcãs, sempre os Balcãs! -, a França ansiosa por recuperar a Alsácia-Lorena, uma corrida às armas constituindo vastas máquinas de guerra há demasiado tempo inactivas, a mobilização sucessiva dos exércitos sem que ninguém os pudesse travar, e uma ideia “machista”, irrealista e romântica da guerra.

Era a idade dourada da segurança e, ainda assim, a guerra desencadeou-se como uma inevitabilidade. E hoje em dia, 100 anos depois? Em vez de uma idade segura vivemos antes uma idade de chumbo da insegurança: abundam os perigos no Mundo, das (várias) jihad aos conflitos nacionalistas como o da Ucrânia, passando por África, América Latina, Ásia… E há muito a fazer recordar 1914: alianças, inimigos antigos, nacionalismos exacerbados, os Balcãs (menos, é verdade), a Rússia ansiosa por recuperar o leste da Ucrânia (já recuperou parte do país, recorde-se, realidade a fazer lembrar mais adequadamente os idos de 1936/39), poderosas máquinas de guerra; só não há, parece-me, a tal ideia romântica da guerra. Caso contrário…

Ora neste contexto, a Europa está quase cercada: de sul (mais concretamente do distante Médio-oriente) chegam ameaças de jihad, terrorismo e até, muito apocrifamente, da reinstauração do califado do antigo El-Andaluz; do leste, são as ameaças do imperalismo russo, olhando com ambição para a região que considera sua e a espécie de diáspora que a desintegração da ex-URSS provocou, espalhando russos e russófonos por vastas regiões (leia-se países independentes) circundantes; à distância, à espera da oportunidade para a destronar, a China e outros (novos) poderes observam uma Europa “decadente”, envelhecida, com um sistema social invejável à beira da ruptura, incapaz de funcionar como o poder efectivo que o facto de ser a região mais rica do Mundo (25% do PIB mundial) e maior mercado mundial justificaria. Na verdade quase lhes basta só observar, pois os países europeus tudo fazem para lhes facilitar a tarefa.

O certo é que a principal ameaça à Europa é a sua própria fraqueza, a crescente desunião e até os claros sinais de desagregração do sistema de Estados consistentes e sólidos estabelecidos nos últimos 300 anos: o enfraquecimento do método comunitário e da influência das instituições europeias, substituídas pela acção diplomática directa dos Estados-membros mais poderosos; a questão britânica; as tensões nacionais em países dantes coesos – no Ocidente, já a Leste a questão é diferente, agravando-se aí mais as coisas -, como se vê na Escócia, Bélgica, Catalunha e outros.

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É neste contexto, num Mundo agitado e a viver uma idade de chumbo da insegurança, que deve ser avaliada a escolha de dois dos titulares das mais importantes cargos dirigentes da União Europeia: Donald Tusk, futuro Presidente do Conselho Europeu e Frederica Mogherini, futura chefe da diplomacia europeia. Estarão eles à altura dos desafios gigantescos que a Europa enfrenta? E já agora, talvez devamos aduzir o próprio futuro Presidente da Comissão, Junckers, ele que ainda nem sequer iniciou funções, faltando-lhe fazer passar a sua equipa pelo crivo exigente do Parlamento Europeu.

Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, é boa escolha? Quer Tusk tenha sido escolhido por ser um feroz opositor à expansão russa, quer por ser polaco, isto é, de um país de leste, para compensar a escolha de um luxemburguês e de uma italiana para os dois outros cargos de topo no complexo jogo das cadeiras europeu (a doutrina divide-se), uma coisa é certa: nesta fase dos acontecimentos, é uma escolha importante, por marcar em simultâneo uma posição europeia clara, a partir da fronteira (com a Rússia) e com o apoio explícito da Alemanha. Mas mais importante ainda é saber se Tusk conseguirá ser, como Presidente do Conselho Europeu, uma voz forte e autorizada no contexto internacional – o que de resto deveria caber sobretudo à Comissária para os Assuntos Externos, a italiana Mogherini.

Mas Frederica Mogherini, uma imposição do primeiro-ministro italiano que quase forçou os seus colegas a aceitá-la, não terá tarefa fácil. Como a sua antecessora, Catherine Asthon, corre o risco de ver reduzida a sua tarefa a funções mais ou menos administrativas – de gestão da rede europeia de acção externa –, como figura representativa pouco executiva e operacional, limitada a vagas declarações políticas inconsequentes ou a carecer de confirmação prática por quem verdadeiramente manda. Não tem o peso de ser proveniente de um Estado, a Polónia, que está na primeira linha do conflito e que, além do mais, simboliza a emergência de um novo poder na União, o dos Estados de leste que aderiram depois de 2004 (há apenas 10 anos).

Quanto a Jean-Claude Juncker, presumível futuro Presidente da Comissão Europeia, veremos se conseguirá ser a ponte entre o executivo, os Estados-membros e as restantes instituições. O que se passar no Parlamento Europeu determinará a exacta posição de partida de Juncker: se um Presidente forte, legitimado pela escolha e aprovação dos eleitos europeus, ou alguém cujo mandato se inicia manchado por controvérsias sucessivas, acusações apócrifas e o cepticismo de uma Assembleia que começou por o escolher e depois foi obrigada a censurar a sua falta de capacidade para organizar uma equipa de Comissários adequada (mesmo que a culpa principal não seja sua).

Voltando contudo a Tusk, a peça mais interessante deste xadrez, ficam duas dúvidas que, afinal, são uma só: terá ele capacidade para afirmar uma política externa, diplomacia e defesa europeia fortes e coerentes, únicas e europeias, convencendo os Estados da necessidade de apostar numa dimensão crucial para a Europa na idade de chumbo da insegurança e afirmando-se, apesar de não ser essa uma sua competência formal, como o verdadeiro representante europeu na matéria? E ser-lhe-á possível, questão crucial, convencer os Estados-membros habituados a fazer uma política externa própria – em particular Reino Unido, França e Alemanha – a deixar nas suas mãos, ou pelo menos nas das instituições europeias, a acção principal, em nome do conjunto?

Parecem perguntas de retórica, mas não são. A Europa só começará verdadeiramente a responder às ameaças que sobre si impendem quando falar verdadeiramente a uma só voz, coerente e coesa. Caso contrário, a cacofonia das muitas posições nacionais fará da União um ente descredibilizado, sem capacidade de persuasão, ineficaz. E os males do Mundo entrarão pelas suas fronteiras, que já ameaçam, como cão por vinha vindimada.

Este é o desafio que está colocado aos futuros líderes da União Europeia.