Rádio Observador

Rui Rio

Portugal continua a não ser a Grécia /premium

Autor
396

Quando a Grécia se afundava em resgates, Passos impediu que Portugal fosse a Grécia. Agora, quando a Grécia se liberta da demagogia, é Rui Rio quem impede que Portugal seja a Grécia.

Quando a Grécia se afundava em resgates sucessivos, Portugal não foi a Grécia: não tivemos de nos sujeitar às terríveis metas de austeridade aceites pelo PS em 2011, e saímos do programa de ajustamento em 2014, e não em 2018. Mas agora, quando a Grécia se liberta da demagogia do Syriza, Portugal continua a não ser a Grécia: aqui, espera-se o prolongamento da governação socialista, assente ou não na reedição da geringonça, o que significa que Portugal não fará as chamadas “reformas estruturais”, e continuará a aproveitar a melhor conjuntura internacional de todos os tempos apenas para disfarçar défices e dívidas, e não para convergir com os países mais ricos da Europa, ao contrário do que têm feito os mais pobres Estados da UE.

As diferenças entre Portugal e Grécia devem-se a muitas causas, mas falemos agora de duas decisões. Portugal não foi a Grécia, porque Pedro Passos Coelho decidiu honrar os compromissos internacionais e defender a estabilidade governativa, com base na maioria PSD-CDS. E Portugal não será agora a Grécia, não apenas porque não foi possível reeditar em 2015 a maioria PSD-CDS, e a maioria de esquerda pôde assim aproveitar o trabalho de ajustamento feito por Passos Coelho, mas também porque Rui Rio, com a sua estratégia de acordos com o PS, desdém pelo CDS e afastamento dos que, no seu partido, discordam dessa linha, decidiu negar aos portugueses uma verdadeira alternativa à geringonça.

Dir-me-ão: o PSD de Rio faz “críticas” ao governo e até apresenta “propostas alternativas”. Mas já reparam que nada parece ter impacto? Não vou menorizar o papel de uma comunicação social, especialmente televisiva, governamentalizada para além de todos os sonhos de José Sócrates. Mas há outra dificuldade, que se deve inteiramente a Rio.

Por muitas que sejam as críticas e as propostas, falta ao PSD aquilo que mais conta: convicção (que não é o mesmo que teimosia). Falta-lhe convicção quando, perante o PS, é incapaz de uma atitude consistente de oposição, inspirando a suspeita de que não espera mais do que revezar PCP ou BE noutras encarnações da geringonça. Falta-lhe ainda convicção quando, em relação ao passado, precisamente porque o objectivo é juntar-se ao PS, renega ou pelo menos não defende a governação de 2011-2015, deixando vigorar a “narrativa” da esquerda de que o ajustamento se deveu unicamente a um capricho “neo-liberal”.

O PSD de Rui Rio, por mais pirotecnia programática, não está destinado a convencer: tudo nele transpira insegurança e incerteza. Parece um partido que tenta esconder um passado vergonhoso e que, no seu desespero, já só pensa salvar-se através da submissão ao adversário. E jazendo o PSD neste drama, já se percebeu que o CDS não tem em si força para, sozinho, mudar os termos do debate, nem sequer para evitar os mesmos erros do PSD, como no célebre caso dos professores.

Daí que, em relação ao PSD e ao CDS, a dúvida para Outubro já seja apenas a da escala das sua derrotas. O confronto politicamente mais relevante neste momento não acontece entre a esquerda e a direita, mas dentro da esquerda, entre o PS e os seus parceiros de geringonça, como se viu durante o debate do estado da Nação na quarta-feira. Contra a extrema-esquerda, o PS argumenta que, sem o cuidado do PS em acertar as contas, não teria havido margem para reposições. Contra o PS, a extrema-esquerda insiste em que, sem a pressão da extrema-esquerda para se fazerem reposições, só teria havido acerto de contas. Parece que é nestes termos que vai ser disputada a maioria (absoluta ou não) do PS. Vamos ver quanto tempo demorará a Grécia a ultrapassar Portugal.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Racismo

A máquina de inventar racistas /premium

Rui Ramos
3.536

O pior que nos poderia acontecer era deixarmos de ser portugueses, para passarmos a ser “brancos”, “negros”, ou “ciganos”. Não contem comigo para macaquear o pior que tem a sociedade americana.

Democracia

A segunda parte do 25 de Abril /premium

Rui Ramos
420

Há 40 anos, a Aliança Democrática salvou a democracia em Portugal. Como vai agora evoluir o regime, sem uma direita democrática reformista como a que em 1979 fundou a AD?

PSD

A credibilidade do choque fiscal de Rui Rio /premium

Luís Rosa
122

É difícil acreditar num corte fiscal generoso no IRS, IRC, IVA e IMI em vésperas de eleições e com projeções que indicam o arrefecimento da economia. Soa a desespero de um líder em apuros.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)