Uma turba de invasores, um homem fotografado em tronco nu com chapéu de pele e um par de chifres na cabeça, uma multidão a pedir a forca para o vice-presidente e um polícia, que tinha sido militar e sobrevivido ao Iraque, morto à pancada na sede da democracia americana. Ninguém ousaria imaginar um final tão infeliz, mas era óbvio, desde o primeiro dia, que a presidência Trump não podia acabar bem. Ninguém pode, seriamente, dizer que foi uma completa surpresa.

Em 1986, depois da derrota sofrida perante Mário Soares, alguns apoiantes de Freitas do Amaral puseram na lapela um autocolante que dizia “o meu presidente é o outro”. A guerra entre esquerda e direita tinha sido dura, o simbolismo de uma vitória quase possível era enorme e, no fim, ganhar o candidato socialista com o apoio do Partido Comunista dividiu profundamente Portugal. Os autocolantes, porém, duraram pouco. A fractura de um país que tinha saído de uma revolução há pouco mais de dez anos seria demasiado grave para ser alimentada por políticos sérios, mesmo que antagónicos. Nem Freitas, nem Cavaco, nem Adriano o fizeram.

Em 2016, na América, foi o vencedor que fez exactamente o contrário. Donald Trump foi, desde o primeiro dia, o presidente só de uns e contra os outros. Não houve quem não visse isso. Não é possível. Houve, sim, quem dissesse que isso não era grave. Que do outro lado se fazia o mesmo. Como se o ódio acicatado por um presidente fosse equivalente ou comparável ao ódio de grupos radicais. Ou à cultura de cancelamento que se espalha das universidades aos jornais. Como se um presidente pudesse e devesse ser líder de facção e isso não fizesse mal nenhum. Fez. Dia 6 de Janeiro a presidência de Trump consumou-se. O espetáculo era improvável, mas o mal estava lá. Desde o primeiro dia.

Depois da invasão do Capitólio, Ted Cruz, o senador que em 2016 concorreu contra Trump nas primárias, e que na Convenção do Partido Republicano foi vaiado por se recusar a apoiá-lo, foi quem liderou a tentativa de rejeição dos votos do colégio eleitoral. “O que dirá, a quase metade do país que acredita que esta eleição foi fraudulenta, se decidirmos nem sequer considerar as alegações de ilegalidade e fraude?” argumentou o senador do Texas. O que ele não disse é que a dúvida só existe porque é alimentada, apesar da ausência de evidência e depois de derrotas sucessivas em tribunais. Ted Cruz diz que não quer alienar os mesmos que durante cinco anos Trump se esforçou por transformar numa facção de americanos bons contra os americanos maus. Os uns contra os outros.

A gravidade do que aconteceu no dia 6 de Janeiro de 2021 no Capitólio é tal, que até os chefes militares se pronunciaram, enquanto vários republicanos, alguns profundamente Trumpistas, negam agora Trump como nem São Pedro negou Cristo. Antes assim. O arrependimento, mesmo que tardio, pode ser redentor. Se não dos próprios, pelo menos do espaço público americano.

O que se passou nos Estados Unidos, porém, não é apenas uma excentricidade dos americanos.

A União Europeia, com todos os seus defeitos, é a história de sucesso do grande compromisso constante entre a esquerda e a direita democráticas. Obra de democrata-cristãos e socialistas a que sociais-democratas, liberais e conservadores de várias espécies aderiram. E que os extremos de ambos os lados nunca aceitaram.

Em Portugal, há um candidato presidencial que diz só querer ser presidente de uns. De uns contra outros, portanto. Fazer de conta que isto é uma excentricidade que se modera com a proximidade do poder podia ser só irresponsável, mas, olhando para o que se passou na América nos últimos dias, é evidentemente pior do que isso.

A recusa, portanto, é óbvia. Mas se a direita de cá não quer acabar como os republicanos, impõe-se à direita que não quer ser “a direita que se define por ser anti-esquerda” explicar como lhe vai ganhar votos, em vez de dividi-los com ele. A moderação, necessária, é uma forma de acção, não é um programa. Mas é um bom começo.