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Se não quer ficar deprimido é melhor não começar a ler a este texto. Não lhe trago boas notícias – antes sinais de dificuldades. Mas talvez seja melhor assim, perder as ilusões.

O meu primeiro ponto de partida é simples: como foi possível que um tema tão importante como a reabertura faseada de pelo menos uma parte do sistema de ensino, o destinado aos mais novos, tivesse suscitado tão pouca discussão, sobretudo tivesse mobilizado tão pouco os políticos?

Já o meu segundo ponto de ancoragem é quase um clássico: vão-nos chegar muitos milhares de milhões de euros mas o Governo achou que duas semanas de discussão públicas era quanto bastava para “enriquecer” o seu Plano de Recuperação e Resiliência (recordemos que o primeiro período de debate público, ainda o documento levava o crisma de António Costa Silva, caiu em… Agosto). Na verdade ninguém se incomodou demasiado pois ninguém tem grande fé naquilo a que já chamaram “bazuca” mas agora só chamam “vitamina”. A indiferença quase só foi interrompida pelas obrigações protocolares das tomadas de posição, mesmo que meritórias, de quem não podia deixar de se pronunciar. O país mal mexeu uma pálpebra.

Surpreendidos? Não têm de estar. Em Janeiro Portugal conheceu os piores números do mundo no que respeita à pandemia, a responsabilidade política pelo descalabro é evidente, mais evidente ainda se considerarmos o caos que se viveu em muitos hospitais, de resto traduzido friamente em taxas de letalidade que subiram em flexa para valores nunca antes atingidos. Mas tantos erros, para mais servidos com enorme arrogância, parecem não ter custos políticos. É como se o país estivesse mergulhado na apatia do inevitável. Pior: no país até já se levantaram vozes contra os que escrutinam e criticam, pedindo silêncio e respeito (ou será que devia dizer “respeitinho”?)

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Eu sei que há quem tente remar contra a maré – há sempre. Mas quando há dias comentava a iniciativa de um desses grupos, o que lançou o abaixo assinado Prioridade à escola, onde se defendia a reabertura faseada das escolas, que já deveria ter começado esta semana pelo menos pelas creches e pelo pré-escolar, interrogava-me até que ponto não nos tínhamos tornado num país de velhos governado por velhos. Reparei nessa altura que quando Marcelo tomar posse, dentro de dias, será o Presidente constitucional a iniciar o seu segundo mandato com mais idade, será mesmo mais velho que Cavaco Silva na mesma altura. E também notei que António Costa está quase a tornar-se no primeiro-ministro constitucional mais velho, já que só Mário Soares foi primeiro-ministro por uns meses com mais idade do que ele tem hoje. Ou seja, nunca tivemos, em democracia, à frente dos destinos do país uma dupla mais idosa.

Entretanto fui fazer mais umas contas. Reparei então que este Governo, o maior da história da nossa democracia, é também aquele que tem uma média de idades mais elevada: considerando 2021 como ano de referência, a sua média etária é de 54,5 anos. Para termos uma ideia comparativa, o segundo governo de António Guterres, no segundo ano do seu mandato, tinha uma média etária de 50,3 anos. E tinha dois ministros com menos de 40 anos, coisa que neste Governo não acontece.

Dir-me-ão: mas que importância tem isso? O que agora falta em juventude sobra em experiência. Essa é outra discussão, mas como sabemos dos 20 membros do executivo de António Costa apenas um, Siza Vieira, tem alguma experiência relevante fora da vida política e da Administração Pública, pelo que quanto a experiência do que é o mundo real estamos conversados.

Pelo que volto ao meu ponto, o do envelhecimento. Este “envelhecimento” dos nossos dirigentes é infelizmente um espelho do envelhecimento do país. Por regra usamos um indicador para dar conta desse envelhecimento – o rácio entre a população com menos de 15 anos relativamente à que tem mais de 65. No ano 2000 esse índice estava 98,8, ainda havia mais jovens do que idosos. Em 2019 está nos 161,3, o que significa que caminhamos rapidamente para termos dois idosos por cada jovem.

Mas este é um número muito abstracto, diz-nos pouco. Fui por isso olhar para outros indicadores, para tentar aferir da energia que ainda temos, ou já não temos, para reagir à crise quando finalmente nos deixarem sair de casa. Foi aí que fiquei gelado.

Se pensarmos na população activa, aquela que tem mais energia, mais criatividade, mais inventividade, no fundo a que tem mais nervo, é a que se situa entre os 25 e os 40 anos. Ora nesses escalões etários viviam no ano 2000 em Portugal 2,32 milhões de cidadãos. Em 2019 já só viviam 1,78 milhões. Isso mesmo, leram bem. Em 20 anos, mantendo o país praticamente a mesma população, perdeu mais de meio milhão de habitantes nas faixas etárias mais criativas e mais enérgicas. E também naquelas em se as pessoas se casam e têm filhos. Isto é uma tragédia sem nome.

Ao mesmo tempo onde é que os ganhámos? Nos que têm mais de 65 anos. São quase mais 600 mil. E onde é que perdemos ainda mais? Nos alunos matriculados no ensino básico. Entre o ano 2000 e o ano 2019 perdemos 270 mil alunos no ensino básico, ou seja, 20% do total. Isto é outra tragédia sem nome.

Mas não pensemos que as coisas ficam por aqui. Um dos maiores logros em que temos vivido é que esta geração, a que tem hoje entre 25 e 40 anos, é “a mais bem preparada de sempre”. Talvez seja. No papel. Não nas oportunidades. O país não foi pensado para ela – o país foi pensado para se proteger dela.

Aqui há uns tempos, num dos primeiros textos que escreveu para o Observador, Jorge Fernandes assinalava que nessa semana iria receber o ser “primeiro salário enquanto Investigador Auxiliar” no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Aos 35 anos (julgo não me enganar na idade) tinha finalmente um contrato. Conheço casos de quem teve de esperar mais anos. Nesse texto o colunista discutia a caducidade do nosso sistema de acesso à investigação científica, ma não tocava – o que eu compreendo – noutro tema tabu: mesmo os que conseguem entrar nessa carreira, sabem que depois têm os caminhos todos barrados. Nalguns casos lugares ocupados por gente boa e até muito boa, mas também outros por gente mediana e mesmo medíocre, pois nada estimula a renovação.

Falo da Universidade, mas podia falar de quase tudo o resto. Mesmo no sector privado, com uma economia que não cresce, que não cria empresas, que não cria emprego, os mais novos quando arranjam trabalho – e sabemos que é entre eles que se registam sempre as mais elevadas taxas de desemprego – têm por certo e seguro que o seu caminho será seguramente mais árduo do que o da geração que os precedeu. Apesar de, como por aí dizem, eles estarem “melhor preparados”. Palavras vãs, com pouco significado.

Ou seja, são menos e estão na metade de baixo das grelhas salariais.

Para terminar, e para termos uma noção mais exacta de como podemos estar mesmo condenados a viver sem ambição e apenas governados por quem melhor gerir o medo, em 2019 havia sensivelmente o mesmo número de portugueses na faixa etária que vai dos 20 aos 40 anos do que aqueles que já tinham mais de 65 anos. Estes últimos são os que votam mais (ou se abstêm menos, como preferirem) e os que mais religiosamente se sentam a ver essas missas diárias que são os jornais televisivos das 20h. São também os que mais facilmente se identificam com os governantes que temos. São os que odeiam riscos e nem querem ouvir falar de sacrificarem o que quer que seja em nome de um futuro melhor, porque eles já não têm futuro.

É por isso que ter as escolas todas fechadas quase não foi tema, é por isso que ir gastar o dinheiro quase todo do PRR nas mesmas coisas de sempre – isto é, no Estado – não incomoda por aí além e é por isso que a lengalenga do “fizemos o nosso melhor” ainda vai servindo para manter índices de popularidade.

Como avisei logo a abrir, se não quisessem ficar deprimidos, não lessem este artigo. É que dar um safanão a que nos desperte desta letargia, deste doce morrer como o do sapo que adormece na panela onde a água aquece, não vai ser nada fácil.