Rádio Observador

Pedro Passos Coelho

Quem tem medo de Passos Coelho?

Autor
1.960

Na história portuguesa, Passos Coelho foi o primeiro chefe de governo que, num ajustamento, não pôde dissimular os cortes com desvalorizações monetárias. Governou com a verdade.

Como acontece no resto do mundo, e como em Portugal aconteceu por exemplo com Mário Soares, uma universidade decidiu contratar um ex-primeiro ministro com o estatuto de “professor convidado”. Mas como não acontece no resto do mundo, e como nunca tinha acontecido em Portugal, a extrema esquerda mobilizou logo os seus activistas para uma campanha em nome, imagine-se, do “ensino”. Não vale a pena retomar essa discussão, toda movida a má fé. O que interessa é notar que, se alguém por acaso duvidou da continuada relevância de Passos Coelho, terá certamente deixado de duvidar.

Segundo ensinam os seus inimigos, Passos aproveitou a troika para, por mero capricho ideológico, “destruir a economia” e “desmantelar o Estado social”. Teria passado pelo poder como uma espécie de Nero, a recitar Hayek enquanto a sociedade portuguesa ardia. Ora bem, se foi assim, não bastará isso para o desacreditar? Para que se preocupam tanto com ele?

Acontece que não foi assim, e é esse o problema dos inimigos do ex-primeiro ministro. Afinal, a economia destruída cresce e recupera emprego desde 2013. Afinal, o Estado social desmantelado nunca precisou de ser reconstruído — e pôde até encaixar as cativações da “geringonça” em 2017. É verdade: Vítor Gaspar agravou brutalmente os impostos. Mas se isso prova alguma coisa, é o carácter de emergência pública da governação de Passos, que teve de recorrer, para equilibrar as contas vandalizadas por seis anos de socialismo, ao que não é costume os “neo-liberais” recomendarem.

O radicalismo liberal de Passos nunca foi mais do que um mito urbano. O liberalismo de Passos é apenas aquela parcela de liberalismo que, perante o estatismo deste regime, já existia na “social democracia” de Sá Carneiro, de Pinto Balsemão ou de Cavaco Silva: a ideia de que sem uma sociedade civil mais forte e sem um Estado mais viável a democracia nunca estará consolidada em Portugal. Leia-se o programa da AD de 1980. Foi um liberalismo que nos últimos anos se tornou mais notório, não porque o PSD se tivesse feito mais liberal, mas apenas porque o PS e a restante esquerda se fizeram mais estatistas.

Passos Coelho teve de conduzir um ajustamento que não o deixou ser “social democrata”, tal como Mário Soares não pôde ser “socialista” em 1978 ou em 1983. Mas ao contrário de Mário Soares, Passos não pôde, por causa do Euro, recorrer ao véu da inflação. Na história portuguesa, foi o primeiro chefe de governo que, num ajustamento, não pôde dissimular os cortes com desvalorizações monetárias.  Governou com a verdade. Frequentemente sozinho entre uma oligarquia desorientada, não desistiu e poupou o país à via grega dos resgates sucessivos.

Para quem teve de suportar descontos e impostos, talvez a verdade tenha parecido fria. A coligação PSD-CDS perdeu votos entre 2011 e 2015. Mas muita gente percebeu: a prova é que em 2015, contra toda a expectativa, Passos Coelho derrotou o candidato do PS a primeiro-ministro, António Costa.

Os inimigos de Passos Coelho nunca recuperaram do susto de 2015. Juntaram-se então todos para o afastar, mas mesmo seis meses depois de ele ter anunciado que não se recandidataria à liderança do PSD, o tema ainda tem de ser Passos Coelho. É que os oligarcas não se sentem seguros. Sabem que tudo é demasiado conjuntural. E se as coisas mudarem? Não irá o povo dizer — ao menos, aquele não nos enganou…? É preciso, por isso, continuar a combatê-lo. Com inimigos destes, Passos não precisa de amigos para ser lembrado e até homenageado.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Governo

A verdade da mentira

João Merino
732

Este governo geringoncico usa todos os artifícios e desinformação para criar uma ilusão de bem-estar e, com a complacência de uma boa imprensa, passa pelos pingos da chuva, imune a quase tudo.

Política

Os idiotas úteis da esquerda /premium

João Marques de Almeida
1.425

Pacheco Pereira e Marques Lopes querem fazer carreira na comunicação social como os cronistas de direita que atacam a direita. Eles querem ser a “direita” que a esquerda gosta.

Rui Rio

Portugal continua a não ser a Grécia /premium

Rui Ramos
396

Quando a Grécia se afundava em resgates, Passos impediu que Portugal fosse a Grécia. Agora, quando a Grécia se liberta da demagogia, é Rui Rio quem impede que Portugal seja a Grécia. 

António Costa

O favor que Costa fez à direita /premium

Sebastião Bugalho

Nestes quatro anos, Costa normalizou tudo aquilo que a direita se esforçou por conquistar, o que levanta uma questão simples: o que poderá dizer o PS contra um futuro governo do centro-direita?

Combustível

O mundo ao contrário /premium

João Pires da Cruz
157

Se o seu depósito é mais importante do que aquilo que os pais deste bebé sentiram quando lhes disseram que o filho deles morreu instantes depois do nascimento, é porque tem o mundo ao contrário.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)