Grande notícia! Com ou sem surpresa é uma excelente notícia saber que o padre e o poeta em breve vestirão um novo hábito. Ou melhor, uma nova veste, a cardinalícia veste púrpura que, a bem dizer, nem combina muito com a simplicidade e a discrição de quem gosta de se vestir de preto, branco e antracite.

José Tolentino Mendonça, bibliotecário do Vaticano, já era arcebispo e sabemos que era mais que previsível que fosse feito cardeal, mas como se tem dito e repetido, poucos esperavam que acontecesse já, aos 53 anos. Penso que ele próprio ainda não terá despertado completamente do sonho de que falava quando partilhou o convite do Papa, quando este lhe ligou a pedir que orientasse o seu retiro de Quaresma, no ano passado.

Agora temos três cardeais com voto, três ‘papáveis’ (a palavra é feia, mas aplica-se) e Tolentino terá ainda mais peso na Igreja. Não falo apenas da hierarquia, mas também, e essencialmente, do conjunto de mulheres e homens que a compõem. Isto porque Tolentino ainda era padre e já era uma referência intergeracional, nacional e internacional. Tinha e continua a ter legiões de seguidores de todas as idades e áreas de especialidade, em vários cantos do mundo e, por isso mesmo, ganhou a fama de ser um dos poucos padres portugueses com ‘apóstolos’.

Diz-se dele e de Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta, que são ouvidos e seguidos por serem ambos grandes imitações de Cristo. Felizmente há muitos mais na Igreja que também o são, uns mais conhecidos e outros menos, mas estes dois arrastam multidões consigo. Multidões de ouvintes e leitores. Um sem-número de pessoas que os admiram e os seguem por se sentirem inspiradas por eles. Mais que inspiradas, transformadas!

Um e outro usam a palavra como poucos. Ambos sabem que o poder da Igreja é o poder da palavra, como disse José Manuel Fernandes, na Contra Corrente, a sua nova rubrica na Rádio Observador. Deixando agora Vasco Pinto de Magalhães, que daria uma belíssima reportagem, para não dizer um magnífico tratado sobre a forma como atualiza a palavra de Deus, volto ao poeta que vai ser cardeal.

Ainda custa pensar em Tolentino como Dom José Tolentino Mendonça, e temos a sensação de que esta estranheza há-de permanecer em nós até ao último dia da sua vida. Com ou sem vestes, com ou sem anéis, com ou sem honras eclesiásticas, Tolentino será sempre e acima de tudo um padre e um poeta. Um homem simples, que contempla a beleza mas também conhece a dimensão do sofrimento humano, que conhece o chão que pisa e sabe muito bem de onde vem a palavra humildade porque a vive por dentro. Afinal ainda volto a Vasco Pinto de Magalhães porque ele, que também usa as palavras como poucos, faz questão de sublinhar que humildade vem de húmus, terra fértil e boa, mas também é sinónimo de verdade e autenticidade, pois só a humildade permite sermos quem verdadeiramente somos, sem poses nem defesas.

Todos os que conhecemos e amamos Tolentino, que o lemos e ouvimos, assim como todos os que o admiram e respeitam, mesmo sem professarem a sua fé, recordamos momentos de simplicidade e elevação protagonizados por ele. Seja quando iniciou diálogos abertos e públicos com agnósticos e ateus confessos (alguns muito mediáticos, como aconteceu com Saramago), seja quando manteve longas e fecundas conversas espirituais com pessoas que o procuravam no segredo do seu gabinete, porque precisavam dos seus conselhos ou da abertura do seu coração e do seu espírito, Tolentino a ninguém despediu de mãos vazias e coração pesado.

José Manuel Fernandes, agnóstico assumido, sublinhou que a vida de Tolentino nunca passou por se fechar nos livros e na doutrina. Felizmente sempre foi um homem da cultura e da palavra. Um poeta e um padre que cultivou o encontro, como o fiel jardineiro cultiva as suas rosas. Um sábio que elevou o diálogo entre crentes e não crentes para patamares onde sempre foi muito difícil chegar.

Tolentino gosta tanto de conversar como de escutar. Ouve, ouve, ouve incansavelmente, tantas vezes calado, num silêncio cheio e nunca frustrante. Jamais embaraçante. Responde com sorrisos calorosos e, se a conversa se faz caminhando, abranda o passo e tanto pode parar para dar um abraço como para nos encarar de frente, com olhos francos e profundos, sempre brilhantes. Muitas vezes nem usa palavras porque faz cerimónia e não quer ser invasivo. Deixa que sejam os outros a expressar, a perguntar, a dirigir a conversa. Ele caminha ao lado, de olhos baixos, ora pousados no caminho, ora elevados e como que a medir o horizonte. E pára e volta a parar. Faz pausas. Medita. Contempla tanto a criação em volta como a natureza humana. Deixa-nos escutar o que trazemos connosco e sai do nosso coração. Faz isto como um mestre, com sabedoria e sem julgamento. Como um eco na montanha, que devolve a nossa voz uma e outra vez sem que seja preciso fazer nada, apenas estar atento e ouvir com atenção até ao último eco, porventura o mais iluminante.

Vi, ouvi e li o que se disse sobre Tolentino neste par de dias que se seguiram ao anúncio do Papa e não tenho nada a acrescentar porque o essencial foi dito e muito bem dito. Bendito homem que dá um testemunho de proximidade e, por se fazer tão próximo, traz o céu à terra revelando clara e humildemente o amor de Deus. Bendito homem que faz pontes e inaugura caminhos, junta pessoas improváveis e conjuga talentos raros. Sábio e humilde, sem artificialismos absolutamente nenhuns, Tolentino, o cardeal, será para sempre o querido Padre Tolentino.