Escrevo esta nota com indignação. O debate na AR desta passada 4ªf atingiu o ponto mais alto da desfaçatez política e desceu à mais recôndita afronta que se poderia fazer aos portugueses.

António Costa, perante uma oposição atónita, reconheceu que todos os seus ministros se queixam de faltam recursos! Então, não estamos a viver um milagre económico? A austeridade, essa malvada, não tinha desaparecido?

Mas houve mais. António Costa, que há umas semanas não sabia quantas unidades de saúde familiar tinham sido abertas ou vão abrir, também não sabe quando irão contratar os médicos especialistas, formados há um ano, que aguardam concurso de colocação. Não sabe, não quer saber e apenas se compromete com um conhecimento, presume-se que vago, sobre os trabalhos que estarão a decorrer para a identificação do melhor calendário para a abertura do concurso. O cúmulo da desfaçatez, da arrogância e da afronta aos portugueses que esperam por uma consulta, uma cirurgia ou um exame diagnóstico. Falamos de esperas de anos, mais de quatro centenas de dias, às vezes milhares deles, para pessoas a quem não há outra possibilidade que não seja esperar pelo SNS. Pessoas a quem não é dado o acesso, ao menos isso, à ADSE ou a qualquer outro tipo de subsistema ou seguro, no fundo a maioria dos portugueses em Portugal.

Assistimos a uma vergonha, uma indignidade, com o apoio expresso e persistente dos comunistas do Bloco e do PCP. Lá disfarçam com umas perguntas, mas o indefetível apoio ao Governo não falha. Os sindicatos deles valem mais do que a Saúde dos outros. Pois é, a reposição das progressões das carreiras na função pública, justíssima, tem um preço. Parou a contratação de recursos humanos no SNS, a única coisa deste Governo que eu vinha repetidamente elogiando.

A opção de Costa e do seu ministro das Finanças foi simples. Vamos enganar os papalvos, damos-lhes uma migalhas e cortamos a sério nos serviços públicos. Os que lá estavam antes eram uns amadores. Cortaram onde era preciso e inevitável cortar, mas tiveram o desplante de o dizer. Que tontos, não percebiam que isto da política moderna e de esquerda é fazer uma coisa e dizer outra, é fingir que está tudo bem, anunciar uns números, colher aplausos da Europa, dizer umas larachas nas reuniões com os pares ou “congéneres”, como se designam os cúmplices nos meios especializados, aparecer de cachecol. Serviços públicos, listas de espera? Mas isso interessa a quem?

Os burocratas de Bruxelas e as agências de rating não estão preocupados com o índice de desenvolvimento humano ou com a qualidade dos serviços sociais ou de saúde em Portugal. A desigualdade interessa-lhes pouco. Sei bem como foi difícil lutar contra a troika e não posso deixar de sublinhar a injustiça daqueles que só assistiram de fora e falam de se ter ido para além das exigências ou de se terem tomado más opções. Mais aviltante ainda quando revisitam o discurso do “passismo” ser o culpado daquilo, de tudo, o que agora não conseguem, nem querem, resolver. É patético, ridículo, ainda ouvir, dois anos de Governo já vencidos e perdidos, os deputados da esquerda atribuírem o subfinanciamento agravado e o aumento galopante das dívidas hospitalares aos cortes do Governo PSD-CDS. Chega, assumam as responsabilidades!

Agora sim, foram muito mais longe do que qualquer troika teria imaginado. A esquerda unida aplaude a austeridade, as dívidas acumuladas e a sub-orcamentação. O Dr. Centeno, lá no Eurogrupo, não vai mandar nada mas graças ao seu papel de verdugo do SNS, louvado pela imprensa canhota, conseguiu o que queria e o que o fez ir para o Governo. Resolvido o despeito com o Governador do Banco de Portugal, já deu o seu primeiro passo para se ver livre de nós e fixar-se num qualquer escritório para lá dos Pirinéus ou do Atlântico. Parabéns. Não é o primeiro a começar uma brilhante carreira internacional depois de ter estado num Governo nacional. Não será o último. Não se deve levar a mal. Acreditem, considerado o grau de dificuldade e de responsabilidade, governante ganha mal.

O Dr. Centeno tem esmagado os serviços públicos com a conivência de todo o Governo e a complacência dos partidos denominados de esquerda, de parte da opinião pública e da maioria dos meios de comunicação social. A estratégia de devolver alguma coisa a uns quantos, sacrificando os serviços de que TODOS precisam, deu frutos, ao Dr. Centeno em particular. O Dr. Centeno, nouveau socialiste chez nous e austero neocon lá fora, é o exemplo perfeito da duplicidade que o Governo encarna. É verdade, é mesmo um campeão, um Ronaldo como lhe chamou o Sr. Schaüble que lhe reconheceu um austero perfil de poupador encardido.

Escrevo esta nota com pesar. Assistir à total desconstrução da imagem do atual ministro da saúde, muito por culpa do próprio e sob o patrocínio do primeiro-ministro, é tão triste como revoltante. É assim que estamos.

Vivemos num País onde a traição ideológica é “pragmatismo” e a aldrabice é “apurado sentido político”. Compreendo bem como deve ser duro o magistério ministerial social-comunista.

Vejamos. O nosso ministro da Saúde, quando confrontado com a possibilidade de responder a um painel de cidadãos que seria pago para fazerem perguntas ao Governo, na encenada comemoração dos dois anos de António Costa PM, respondeu: “Não acredito que seja verdade. Acho que é absolutamente absurdo. Não faz nenhum sentido”.

Pois não, não fazia. Mas afinal parece que era verdade e os figurantes terão sido pagos com vales de compras. E o nosso ministro, de cuja seriedade tenho fortes razões para não duvidar, lá esteve, respondendo, como se nada fora, solidário e contente. A subserviência tem-lhe servido de pouco. Deixa-se destratar no Parlamento pelo próprio PM. É menorizado pelo Dr. Centeno que até a verba que anualmente tem atribuído à saúde no final do ano, para ajudar a pagar dívidas em atraso, “concede” e depois congela. Ninguém lhe liga no PS. Já se percebeu que o querem descartar.

É certo que o nosso ministro da Saúde atropelou o bom senso com o INFARMED portuense e depois, para rematar, constituiu uma comissão cuja conclusão já antecipa como sendo a de apoiar a “decisão” ministerial. No entretanto, lá vai ouvindo as verdades que a senhora presidente do INFARMED não deixa de lhe dizer e que, diz-se, o deixam zangado. Enredou-se nas listas de espera, perdeu a iniciativa na contratação de pessoal, não deu o impulso propalado na constituição das USF, arrasta a evolução dos cuidados continuados, promete sem saber como vai pagar, atrapalhou-se com a legionella, transformou o Portal da Saúde num sítio de publicidade ao Governo e mandou proibir chamuças e croquetes. Promete o que não pode ou não o deixam cumprir. Disfarça como pode. Inventa umas medidas avulsas e inconsequentes. Triste mandato, o que vai terminar. Bem se esforçou por agradar aos Drs. Costa e Centeno, o patrão disto tudo, mas não lhe valeu de muito. O que fez bem tem sido desbaratado por disparates próprios, incompetência da entourage, isolamento político e desconsideração reiterada da parte do primeiro-ministro. É caso para dizer, não era necessário.

A sanha da poupança tem de ser substituída pela da reforma. Um SNS melhor não será o menos gastador, mas sim o mais seguro, célere e eficiente. As desigualdades em saúde não se combatem só com uma política de reposição de rendimentos e de aproximação salarial que, de resto, nem tem sido feita pelo Governo.  Reconheçamos que há menos desemprego e crescimento do PIB. Mas de que serve isso se as pessoas têm mais dificuldade em conseguir uma consulta médica? De que serve ganhar o ordenado mínimo quando uma doença grave custa milhares ou centenas de milhares de euros a ser tratada? De que serve ter serviços de urgência se eles continuam sobrelotados? De que serve ter SNS se as pessoas que lá trabalham estão desmotivadas e descontentes? De que serve um SNS subdimensionado, sem trabalhadores suficientes, com equipamento velho e sem dinheiro para a despesa corrente?

Amanhã, graças a Deus ou à gravidade, a Terra vai continuar a girar. Amanhã, quando acordarem, pensem na vossa saúde, na daqueles que conhecem e não estão bem, na dos vossos Pais e Filhos. Pensem em vós e em todos a quem não haverá seguro, subsistema ou dinheiro que valha. Pensem nesses e ajudem o SNS e quem lá trabalha. Reclamem. Encham os livros de reclamações com tudo o que não está bem. Ajudem quem gere, sem meios e sem quem os oiça. Ajudem os médicos e enfermeiros para que não se julgue que só eles se queixam. Ajudem o ministro para ver se o levam a sério quando pede mais dinheiro, mais meios, mais profissionais para o SNS. Ajudem o PS a perceber que só com serviços públicos nunca responderão às necessidades da população que temos. Inundem a Entidade Reguladora de queixas.

Acreditem que só com reclamações fundamentadas, bem feitas, em tempo útil, podem contribuir para que as coisas mudem. Não, não é verdade que todas as reclamações caiam em saco roto. E há a Provedoria e os Tribunais e as Ordens Profissionais que, apesar do muito descrédito para o qual contribuíram, são um instrumento fundamental para a política de saúde. E há associações de utentes e doentes que têm de ser libertadas de ser instrumentos partidários ou de promoção de medicamentos.

Reclamem. A saúde precisa de um sobressalto cívico. E no fim, quando a isso forem chamados, votem em quem acreditarem e cruzem os dedos. Não podemos voltar a ter um primeiro-ministro nomeado depois de perder as eleições.

PS. O Dr. Adolfo Mesquita Nunes lembrou-nos que é uma pessoa como nós. Tem direito a amar e ser amado, seja lá como for ou por quem for. Mas é por ter sido o homem que impulsionou a divulgação de Portugal no estrangeiro e ajudou a criar as bases para o grande crescimento da indústria do turismo que merece ser mais lembrado. Será pela sua honestidade e competência como profissional, governante e político que merece ser julgado. Obrigado Adolfo por seres como és.