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Este artigo não é sobre racismo, sobre a indicação de Mamadou Ba para um grupo de trabalho de combate à discriminação racial ou, muito menos ainda, sobre petições pela sua deportação (para onde se deporta um português?). Este artigo não discute revisionismos históricos, nada opina sobre a vida de Marcelino da Mata e ignora a demolição do Padrão dos Descobrimentos. Este artigo também não é sobre a disciplina de Educação para a Cidadania, nem gasta uma linha a debater a educação sexual nas escolas. O artigo não alude às ameaças de fascismos recauchutados ou à proibição do Chega. E, por fim, este artigo não propõe o cancelamento de artistas, comentadores ou figuras públicas, independentemente do que digam ou defendam.

Este artigo não é, portanto, sobre o que tem agitado o debate público nas últimas semanas. Começo mesmo por aí: há em Portugal uma inclinação especial para discutir apaixonadamente o acessório e ignorar aborrecidamente o essencial. E, hoje, o essencial surge sob forma de questão: que Portugal ambicionamos e onde queremos estar à saída da pandemia? Angustia-me verificar que não existe resposta — do governo, do Presidente da República, dos partidos, da sociedade civil. Angustia-me ainda mais suspeitar que são pouquíssimos os interessados em sequer colocar a pergunta.

Portugal não tem rumo definido. Navega à vista e o amanhã logo se vê. O Programa de Recuperação e Resiliência está em discussão pública, com 14 mil milhões de euros em subvenções para distribuir, e representa aquilo que mais próximo temos de visão política para o futuro. Infelizmente, a leitura não entusiasma e, sobretudo, não se percebe como é que atirar dinheiro para cima dos problemas resultará desta vez — há 20 anos que a estratégia falha e conduziu ao empobrecimento relativo de Portugal no contexto europeu. Ganharão os do costume, perderão os de sempre. O desinteresse no espaço público é quase total.

Entretanto, o país implode discretamente, consumido pela pobreza à portuguesa — humilde, envergonhada e silenciosa. Veja-se: milhares de crianças e jovens em risco foram esquecidos e deixados para trás, condicionados no seu futuro e nas suas aspirações por quem, num momento de grande urgência, não os protegeu. Falhou a aquisição de equipamentos, faltaram os apoios sociais, não houve a tarifa social de Internet, desconhece-se o planeamento para recuperar deste dano. Um país que não se indigna com isto merece a má sorte que tem.

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Sei que já escrevi o suficiente acerca do tema para soar a disco riscado. Compreendo que o abaixo-assinado “Prioridade à Escola” que subscrevi, pela reabertura das escolas em Março, não gera acolhimento geral. Percebo que, de acordo com uma sondagem recente, 42% não quer escolas abertas até após a Páscoa e que, lê-se com arrepios, há 15% que as pretende fechadas até ao Verão (ou seja, até Setembro). Mas sei também que Portugal é a excepção, pois em vários outros países percebeu-se da necessidade em não deixar os seus mais jovens para trás e viu-se a recuperação da aprendizagem ser apontada a prioridade nacional. Por exemplo, no Reino Unido, após um período de encerramento das escolas, o governo anunciou ontem um amplo pacote de medidas de compensação — aulas no Verão, um generoso reforço orçamental para projectos de revisões e um apelo político à acção para que “nenhuma criança fique para trás”. Qualquer semelhança com a situação portuguesa é pura ilusão.

A forma como Portugal olha para os seus desafios estruturais não é apenas errada. É, antes disso, a confissão de um país conformado com a sua mediocridade. Não tem ambições, exige pouco a si mesmo, acomodou-se às suas rotinas imperfeitas, aceita as desigualdades sociais como um fatalismo, abraça o falhanço com a bonomia dos cábulas. Intriga-me que um país assim possa ter futuro.

PS: o título deste artigo foi inspirado num outro, de João Miguel Tavares, publicado em Junho 2020, cuja leitura recomendo.