1. Para uns, o comunicado de Marcelo Rebelo de Sousa no dia 13 de Fevereiro, por volta das 23h45, marca o fim do namoro entre o Presidente e o governo. Se tivesse esperado mais 15 minutos, o Presidente teria acabado o namoro no dia dos namorados. Mas não esperou. O sentido de humor do Presidente ainda tem margem de progressão.

Outros garantem que o Presidente e o Primeiro Ministro estiveram sempre articulados. Neste caso, o namoro continuaria de vento em popa. Desconfio que esta tese foi divulgada aos jornais pelos assessores de imprensa de Belém e de São Bento. A tese do fim do namoro parece um pouco exagerada. Por razões diferentes, o Presidente e o PM precisam de manter esta espécie de “colaboração feliz”. Mas também não acredito na articulação. Aliás, a palavra articulação seria a última de que nos lembraríamos para explicar o que se passou na última semana.

A minha interpretação é diferente e mais simples. Acho que todos perderam a cabeça. Foi uma semana em que o Presidente, o PM, o governo e o PS andaram completamente desorientados. Não houve articulações, nem combinações. Reagiram todos aos acontecimentos e de um modo trapalhão. Esta desorientação é muito preocupante e deveria deixar-nos apreensivos com a situação política.

Esta semana desastrosa mostrou alguns dos problemas mais sérios da geringonça. O governo não sabe o que fazer. Não tem estratégia, não tem rumo e não tem políticas. Limita-se a estar no poder, e tudo fará para não o abandonar. Já reverteram o que podiam reverter e agora vão gerindo o país com o financiamento do Banco Central Europeu. Temos um governo que se limita a sobreviver. Por isso, vamos assistir a mais semanas como a última. Se não for a Caixa, é a TSU, ou as parcerias público-privadas, ou qualquer outra coisa. As contradições da geringonça são demasiado profundas. E vão piorar. Não vão seguramente melhorar.

Se um caso menor provocou toda esta confusão, como será se houver uma nova crise financeira na Europa? 2017 é o ano de todos os perigos. Um Presidente norte americano louco (e ninguém consegue prever até onde vai a loucura), eleições em França entre um político inexperiente e antigo banqueiro e uma nacionalista radical que quer tirar o país do Euro. Eleições na Alemanha, com outro doido, Martin Schulz (sei que a esquerda olha para ele com esperança, mas acreditem, ele é doido) a liderar as sondagens. Uma Presidente Le Pen e um Chanceler Schulz será o fim da União Europeia. A Itália, onde são todos completamente malucos, também poderá ir a eleições. E os problemas da Grécia continuam na mesma, sem se resolverem. No meio de tudo isto, o Brexit até parece normal; mas não é. O futuro do nosso país depende de factores externos, fora do controlo do nosso governo. Se a nomeação da administração da Caixa fez o governo perder a cabeça, o que acontecerá se houver uma crise europeia grave?

No governo, como mostrou o episódio da Caixa, não se pode confiar. Como se viu com aquela extraordinária viagem a África, enquanto o seu ministro das finanças era crucificado em Lisboa, o PM tenta passar entre os pingos da chuva sempre que as coisas dão para o torto. Se este governo enfrentar uma crise a sério, o espetáculo será degradante, com os camaradas a culparem-se uns aos outros e todos a tentarem safar-se. Num cenário caótico, os portugueses vão olhar para o Presidente da República. O governo pode demitir-se, o parlamento pode ser dissolvido, mas Marcelo Rebelo de Sousa não se pode ir embora. O Presidente é o seguro do nosso regime político.

A pergunta é legítima: como irá o Presidente reagir a uma grave crise? O que vimos com a Caixa, não nos deixa tranquilos. Mas não haverá alternativa. Terá que ser o Presidente a agarrar o país, se o governo falhar. Mas para isso, terá que ir além da sua popularidade. É fácil ter autoridade quando a popularidade é alta. É mais difícil ser respeitado quando a popularidade é baixa. O que resta a Marcelo se um dia deixar de ser popular? Portugal precisa de um Presidente com autoridade política mesmo no caso de se tornar impopular. Talvez seja boa ideia construir uma distância saudável em relação ao governo. Se isso não acontecer, teremos o caos político em Portugal. Mais tarde ou mais cedo.

2. As esquerdas gostam muito de dizer que o PSD e o CDS querem destruir a Caixa. Vamos olhar para a história recente. Num ano, este governo já fez mais mal ao banco do Estado do que todos os governos de direita juntos. Mas, não sendo fácil, houve um governo que ainda fez pior à Caixa do que este. Foi o governo de Sócrates, que a levou quase à falência, com empréstimos altamente duvidosos. Aliás, ouvimos o Governador do Banco de Portugal dizer que o conhecimento público dos créditos da Caixa seria “gravíssimo”. O que é extraordinário. Para os socialistas, a Caixa não é um banco do Estado. É um banco do governo quando eles estão no poder. Não surpreende que chamem aos SMS onde se discute o futuro da Caixa, “correspondência privada”. Estão a falar do banco “deles”.