Por razões que percebo bem, cada vez me concentro mais no trabalho. Tenho a sorte de ter trabalho, e, ainda por cima, a tremendíssima sorte de ter um trabalho de que gosto. Ao ponto de, literalmente, não me imaginar a fazer mais nada. E o mundo exterior, tirando uma coisa ou outra, não anda agradável. Portugal, em particular, começou-me a dar pesadelos. Não é só a velha coisa (deve ter começado no tempo de Guterres, se calhar antes, e atingiu proporções legitimamente cósmicas com Sócrates) de me irritar ver socialistas felizes. Guardo uma saudável distância entre as minhas irritações e as minhas decisões políticas e não vejo nada que, em circunstâncias pontuais, me impeça absolutamente de votar PS, mesmo que a danada da irritação persista. Mas desta vez alguma coisa mudou profundamente. O que o PS de António Costa fez, e sobretudo – muito sobretudo – o que anda para aí a ameaçar fazer, provoca um estado muito próximo do terror. Vejo o pior que vem e não consigo encontrar nada que me torne mais ligeiro o estado de espírito.

Felizmente, há o trabalho. E, neste caso, o trabalho até tem a ver com estes estados de alma do dia-a-dia. Mas, por uma extraordinária felicidade, sublimando-os. O plano das emoções passa da sua versão mais imediata para uma versão mais despreendida, se é que essa é a boa palavra. A versão mais despreendida é: o que é que significam as nossas emoções – até ao século XIX dizia-se: paixões – e que relações têm elas a ver com os seus objectos (“objectos” aqui num sentido muito lato)?

A coisa curiosa a notar, e que não é em nada trivial, é que as emoções funcionam diferentemente em função dos seus objectos. Não só no que diz respeito à sua intensidade, mas até, e mais do que tudo, ao seu tipo. Temos emoções de tipo diferente por relação a objectos de tipo diferente. Seguem-se três exemplos de objectos, que não me parecem nada arbitrários, até porque são, vagamente desde os Gregos, os três objectos principais da filosofia, e, de um certo modo, esgotam os tipos gerais de objectos das emoções.

Tomemos, por exemplo, as emoções que dizem respeito ao conhecimento, ao objecto que a filosofia, desde Platão, albergou dentro da vasta categoria do Verdadeiro, que é acompanhado em Platão pelo Belo e pelo Bem. São emoções particulares, ligadas à afirmação e à negação. Desde Aristóteles que a ideia de afirmação se encontra ligada à ideia de perseguição e captura – e a ideia de negação à ideia de fuga. Há um substrato animal na coisa. A captura, a posse da verdade, dá prazer e conduz à felicidade. A fuga, o erro, suscita a emoção inversa: o desprazer. Quando descobrimos que errámos, há uma espécie de dor intelectual. Resta que a felicidade e a infelicidade no conhecimento se encontram submetidas a uma exigência geral de imparcialidade (que não se deve confundir com neutralidade). O acerto nas ciências, por mais objectivo que seja, e por mais prazer que dê, acaba por ser submetido ao que Freud chamava “prova da realidade”: à aceitação da exterioridade do real ao nosso pensamento, que é a condição mais geral de todas as provas. E, se tem que ser revisto, somos obrigados, pela própria lógica da coisa, a aceitar essa revisão. A decepção tem de ser aceite. E, de caminho, as paixões são abandonadas, ou, em todo o caso, fortemente atenuadas.

Tudo se passa diferentemente no que respeita ao prazer face à beleza, à beleza da arte. Estamos, na tríade platónica, na relação ao Belo. Aqui, o par fundamental já não é o da afirmação e da negação, mas o do prazer e do desprazer. Sem as mediações da afirmação e da negação, que encontramos no conhecimento. Há analogias, é claro, com o par afirmação/negação, mas as diferenças são grandes. Procuramos o prazer, mas sem a caça, a perseguição, que visa a captura do objecto. Mesmo no caso do que se convencionou chamar sublime, embora o sublime faça intervir algo como um desprazer que nos conduz indirectamente a um prazer de um tipo especial. De qualquer maneira, a decepção é aqui mais dificilmente aceitável. A “prova da realidade” não funciona a sério. As emoções sabem resistir-lhe. É particularmente difícil aceitar revisões neste capítulo, como qualquer pessoa facilmente reconhecerá. As nossas emoções face àquilo que nos dá prazer – um poema, um quadro, uma canção – tornam-nos grandemente insusceptíveis de aceitarmos juízos contrários aos nossos. As emoções são aqui praticamente irrevisíveis. Ou são apenas revisíveis com a idade, isto é, quando já somos outros.

E se passarmos para o plano ético e político, o plano do Bem, a situação de irrevisibilidade piora. Não se trata aqui, propriamente falando, nem de afirmação e negação, nem de puro prazer e desprazer. Trata-se, para falar brutalmente, de um tipo particular de desejo e de um tipo particular de aversão, e, na sua forma mais radical, de um tipo particular de amor e de um tipo particular de ódio. A passionalidade adquire proporções que não encontramos nas outras duas esferas. Se se quiser, as condições de revisibilidade aqui são mínimas. E o incómodo é máximo. Até porque não dispomos, em matéria ético-política, do recurso às provas pacificadoras que nos guiam no plano do conhecimento, nem do sentimento de evidência, que nos garante, no que respeita às emoções estéticas, uma espécie de invulnerabilidade que nos conforta no nosso prazer. Não: temos apenas argumentos que, por melhores que sejam, não podem, no limite, convencer o outro se ele não estiver disposto a isso. Mais do que no plano estético, e muito mais do que no plano do conhecimento, as paixões são irredutíveis e obedecem a um modelo agónico, de conflitualidade. Não se dão na relativa pacatez do prazer estético nem na cooperação da felicidade do conhecimento.

Conclusão? Quando a passionalidade atinge proporções extremas, um recuo em direcção à afirmação e ao prazer é, senão aconselhável, pelo menos digno de consideração. São coisas desejáveis. E quem não precisa de paz na alma? Como aconteceu ao outro, apetece cuidar do jardim.