A cadeira mais alta do Fundo Monetário Internacional foi vista pelo Governo como um surpresa que apareceu no caminho de Portugal no puzzle de cargos internacionais a distribuir pelos países europeus neste ciclo político pós-Europeias. Foi apontada ao homem que António Costa quer conservar nas Finanças, em Lisboa, e na presidência do Eurogrupo, em Bruxelas, Mário Centeno. Uma vontade (dupla) do chefe do Governo que chocava com a eventual ambição do ministro das Finanças, que veio esta quinta-feira sublinhar que se mantinha na corrida — entretanto fechada –, apesar de ter dado um estratégico passo para o lado.

Vamos por partes. O chefe do Executivo, confrontado pela primeira vez com a hipótese Centeno-FMI, em entrevista ao Observador, assumiu claramente que não era objetivo que tivesse fixado. Proporcionou-se e isso foi aproveitado pelo governo português como carta em cima da mesa na negociação mais extensa. Mas Costa tem as prioridades alinhadas e não queria prescindir de Centeno no Governo, nem na liderança do grupo informal de ministros das Finanças da zona euro, segundo apurou o Observador. Uma posição que foi alinhada com Belém. Ainda que, nos seus discurso perante plateias internacionais, Marcelo Rebelo de Sousa puxe sempre pelos galões dos altos postos que os portugueses ocupam pelo mundo, o Presidente não se tem mostrado galvanizado com uma mobilização diplomática no sentido do FMI até porque para Marcelo, sabe o Observador, a questão não podia colocar-se nos mesmos termos de uma operação montada à escala mundial para garantir certos cargos. Se isso podia fazer-se, por exemplo, para garantir um hipotético lugar no Conselho de Segurança da ONU, não podia fazer-se neste caso: seria sempre uma deliberação dos ministros das Finanças europeus.

O outro ponto de toda esta negociação de cargos é que nem sequer é o nome de Centeno que António Costa tem na primeira linha para assumir uma pasta de peso na Comissão Europeia. Nesta frente, o objetivo mantém-se intocável: manter uma pasta forte em matérias económicas e orçamentais — “era importante para Portugal ter uma função na área dos fundos europeus, na área do orçamento”, disse na entrevista já citada. Mas desviar Centeno do Eurogrupo para esse caminho, está fora de questão, ainda que sejam matérias em que o ministro tenha provas dadas. No seu círculo mais próximo, a linha de raciocínio que António Costa passa é que a pasta na Comissão já é uma garantia para Portugal, logo, para quê prescindir do lugar do Eurogrupo para ter um cargo que já não foge? E para continuar no Eurogrupo, Centeno tem de manter-se nas Finanças — esta parte já tinha sido referida por Costa em entrevista à TSF no final de março.

Ao Observador, o primeiro-ministro que se recandidata à função foi claro ao assumir que, nesta fase, a saída de Centeno seria um problema para a constituição do próximo Governo: “Evidentemente teríamos de fazer um governo diferente daquele que temos”. E ainda acrescentava que, “ao contrário da presidência do Eurogrupo em que ser ministro de um dos governos da zona euro é requisito para o exercício dessa função, o quadro de diretor-geral do FMI é incompatível com essa função”.

Na quinta-feira, quando Centeno escreveu no Twitter que não participaria no processo de votação desta sexta-feira, disse que o fazia para contribuir para a procura de “consensos”. Os nomes em cima da mesa nessa altura eram muitos  — Nadia Calviño (ministra da Economia espanhola), Jeroen Dijsselbloem (ex-ministro das Finanças da Holanda e ex-presidente do Eurogrupo), a búlgara Kristalina Georgieva (diretora executiva no Banco Mundial) e Olli Rehn (governador do Banco da Finlândia) — e Centeno foi o primeiro a desviar-se do caminho, acabando por ser seguido só no dia seguinte pela espanhola Nadia Calviño e por Olli Rehn.

A expectativa, para uns, é que Portugal possa retirar proveitos desta atitude de abnegação no outro tabuleiro negocial, do próximo Governo comunitário: se Portugal contribuiu para evitar impasses numa importante decisão europeia, deve ser reconhecido por isso quando chegar a hora de escolher outro cargo. Por seu lado, Mário Centeno também quis precaver-se e evitar ser visto como um derrotado no processo ficando assim fragilizado entre os seus pares no Eurogrupo.

A outra hipótese em cima da mesa, e aquela em que as Finanças apostavam até ao último momento, era a de que Centeno podia ser solução no final do processo, se a votação para escolher o candidato europeu ao FMI acabasse num impasse. Mas em São Bento, esta hipótese era considerada com mais cautela e realista apenas para os ultra otimistas. Costa não faz parte deste leque, é apenas um “otimista crónico e ligeiramente irritante”, como lhe chamou Marcelo Rebelo de Sousa.