A guerra de todos onde ninguém ganha. Quais são os países que lutam na Síria?

14 Abril 2018208

A guerra da Síria tornou-se no sítio onde todos os países canalizam os conflitos que não querem ter em casa. Conheça os principais intervenientes desta guerra sem fim que já matou 500 mil pessoas.

A Síria, no centro do mundo. É ali, naquele pequeno país do Médio Oriente, que vários países combatem num conflito que começou com uma revolta contra o ditador Bashar al-Assad mas que depressa se tornou numa longa e brutal guerra por procuração. Estima-se que, desde 2011, ali tenham morrido cerca de 500 mil pessoas.

Um por um, conheça os principais países envolvidos na Síria, de que lado combatem e com que propósitos.

Rússia, o grande aliado de Assad

A Rússia tem na Síria de Bashar al-Assad o seu maior e mais antigo aliado no Médio Oriente — uma relação que recua até aos tempos da União Soviética e da fundação da Síria enquanto Estado independente, depois da descolonização francesa, em 1946. Desde então, as relações entre os dois países foram crescendo lentamente — e nem sempre em linha reta, já que os EUA também ali queriam assentar praça. Porém, a partir de 1970, com a subida ao poder de Hafez al-Assad, o estreitamento de relações entre a União Soviética e a Síria passou a ganhar contornos definitivos — e práticos, também. Logo em 1971, a Síria permitiu aos russos a construção da base naval de Tartus, na qual passou a ter livre trânsito até aos dias de hoje — um sonho antigo da Rússia, que sempre procurou acesso aos portos de água quente do Mediterrâneo, já que nos mares mais a Norte (Ártico, Barents e Báltico) ter a missão complicada pelo gelo e pelos seus inimigos e rivais regionais.

Porém, apesar desta relação de proximidade, a Rússia só assumiu oficial e publicamente um papel na guerra da Síria em 2015 — apesar de haver relatos de movimentações russas no porto de Tartus logo em 2012, apenas um ano depois do início da guerra na Síria. Para cooperar com Bashar al-Assad, a Rússia colocou como condição a construção de uma base aérea na Síria — e é assim que surge a base aérea de Khmeimim, em Latakia — cidade que, à semelhança de Tartus, fica situada em zonas onde os alauítas, a minoria étnica de origem xiita a que pertence o Presidente Bashar al-Assad, estão em maioria.

A Rússia entrou na guerra no início de outubro de 2015, referindo que tinha como objetivo combater o Estado Islâmico e as suas posições, tal como “outros terroristas”. Logo nessa altura, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, deixou no ar a ideia de que a designação de “outros terroristas” podia ir para lá de grupos como a Frente al-Nusra, braço da al-Qaeda na Síria, quando falou do Exército Sírio Livre e da “oposição moderada”. “Ninguém nos disse onde é que o Exército Sírio Livre opera, nem onde nem como outras unidades da oposição moderada atuam”, disse. Sobre o caso específico do Exército Sírio Livre, descreveu aquele conglomerado de forças militares anti-Assad com “um grupo fantasma”.

À medida que o tempo avançou, tornou-se cada vez mais claro que as posições de Bashar al-Assad e da Rússia eram as mesmas — e, por isso, os seus inimigos e alvos passaram a ser os mesmos. Tanto que, já em 2018, dias depois do início da ofensiva de Ghouta, Sergei Lavrov já dizia: “Achamos inaceitável distinguir entre bons terroristas e maus terroristas”.

Lado a lado com as forças de Bashar al-Assad, a Rússia ajudou o regime de Damasco a mudar o rumo a uma guerra que em 2015 pendia para as várias forças rebeldes e grupos terroristas que então combatiam o exército sírio. Com bombardeamentos aéreos e também soldados no terreno, a Rússia ajudou Bashar al-Assad a obter vitórias tão importantes como a reconquista de Alepo (2016), Daraya (2017), Deir ez-Zor (2017) e Ghouta Oriental (2018), tal como outras de valor sobretudo simbólico, como a monumental cidade de Palmyra (2017).

“Achamos inaceitável distinguir entre bons terroristas e maus terroristas."
Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia

Por tudo isto, não é surpresa nenhuma que Bashar al-Assad receba Vladimir Putin de braços abertos na Síria. Foi mesmo isso que aconteceu em dezembro de 2017, quando o Presidente russo aterrou na base área de Khmeimim, para encontrar-se com o seu homólogo sírio e discursar para as tropas russas ali destacadas. Nesse ocasião, sublinhou o óbvio — que a derrota dos opositores de Bashar al-Assad é agora uma questão de “quando” e não de “se” — e anunciou uma decisão em conformidade: a retirada gradual de tropas russas da Síria.

“Sim, a ameaça do terrorismo continua muito alta em todo o mundo. No entanto, a tarefa de combater os grupos armados aqui na síria, o objetivo que tinha de ser abordado com a ajuda de grande escala das forças armadas, está em grande parte resolvido. E de uma forma brilhante”, disse. “Por isso, dou a ordem ao ministro da Defesa para começar a retirar as unidades do exército russo para as suas bases permanentes. A pátria espera por vós, amigos. Boa viagem.”

Porém, o envolvimento da Rússia na Síria e na guerra que começou há mais de sete anos ainda parece estar longe de terminar. Prova disso é a recente hipótese de os EUA, tal como França e o Reino Unido, virem a atacar com mísseis posições militares do regime sírio — cenário que, garante a Rússia, resultaria na destruição dos mísseis e também num ataque à sua origem. Uma possibilidade que, a confirmar-se, poderá tornar ainda mais complicada e sangrenta esta que já é a pior guerra do século XXI — mas também aquela que, entre outros fatores, permitiu à Rússia reconquistar a aura de superpotência mundial e testar o seu crescente arsenal militar

Irão, em busca de um corredor geoestratégico

No Médio Oriente, não há outro país que se interesse tanto por preservar Bashar al-Assad no poder na Síria como o Irão — e, por isso, a par da Rússia, o Irão é o maior aliado do regime sírio. Contribui com tropas no terreno, bombardeamentos aéreos, logística, armamento, treino militar, petróleo e financiamento. Este esforço tem um objetivo simples mas crucial para Teerão: impedir o derrube de um líder xiita — fação do Islão que tem como centro o Irão — por forças sunitas e a elas ligadas — ou seja, a Arábia Saudita e os seus aliados. A situação é especial delicada para o Irão já que, na sua composição demográfica, 74% dos sírios são sunitas e apenas 13% são xiitas.

A Síria é apenas uma peça de um complexo jogo de xadrez que o Irão só dá por vencido quando conseguir estabelecer um corredor de países com liderança xiita ou forte influência entre as suas próprias fronteiras e o Líbano, que está na fronteira de Israel, país inimigo. Juntos, formam o autointitulado “Eixo da Resistência”. Para conseguir estabelecer esse corredor, pelo qual seria possível ter acesso ao mar Mediterrâneo e enviar armas para o Hezbollah no Líbano, há dois países que cujo controlo Teerão tem de garantir: o Iraque e a Síria.

No Iraque, a maioria xiita, que foi reprimida durante o tempo de Saddam Hussein, conseguiu ganhar protagonismo no país e na sua governação depois do derrube daquele ditador — e, nos casos em que esse ascendente foi ameaçado, nomeadamente com as conquistas territoriais do Estado Islâmico, o Irão respondeu com o envio e patrocínio de milícias xiitas no terreno.

Na Síria, o Irão tratou de estender a sua luta contra grupos armados sunitas, incluindo organizações terroristas como o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra. Tal como o exército sírio e a Rússia, também o Irão tem atacado forças militares que, ao contrário do entendimento dos EUA, da União Europeia e da NATO, não são terroristas.

O principal objetivo do Irão é criar um corredor entre os membros do "Eixo da Resistência", grupo anti-Israel. Para chegar ao Hezbollah (no Líbano), primeiro tem de conseguir ganhar terreno no Iraque e na Síria. É um jogo a longo prazo mas que, de momento, corre bem para o país de Hassan Rouhani.

Ao longo da guerra, o Presidente do Irão, Hassan Rouhani, tem insistido que a resolução do conflito na Síria não pode ser militar. Já em 2013, o então recém-eleito Presidente iraniano, Hassan Rouhani anunciava a “disponibilidade” do seu governo para “facilitar o diálogo entre o governo sírio e a oposição”. E nos últimos tempos, desde que o conflito passou a pender favoravelmente para o regime sírio (ou seja, o lado do Irão), Hassan Rouhani tem defendido que a solução para terminar a terminar a guerra na Síria é política. Chega até a insistir em eleições — e dá a entender que manter Bashar al-Assad no poder não é uma prioridade. A prioridade é, antes, ter alguém no poder que seja seu aliado e que o Irão possa controlar.

Outra prova de que a guerra na Síria é para o Irão acima de tudo uma questão de geoestratégia, é a crescente tensão entre Teerão e Israel a propósito deste conflito. Em fevereiro, Israel abateu um drone iraniano, garantindo que este sobrevoava o seu espaço aéreo, na froneira a Norte com a Síria, nos Montes Golã. E a 10 de abril, foram lançados 12 ataques aéreos contra alvos na Síria, incluindo quatro ligados diretamente ao Irão. Ao todo, morreram 14 militares iranianos, entre os quais 4 militares de topo responsáveis pelo programa de drones do Irão na região. A Síria e os seus aliados atribuem aquela ação militar, algo que Israel não confirma nem desmente. Certo é que ao aproximar-se de uma vitória na guerra da Síria, o Irão está prestes a consumar o seu primeiro êxito militar em muito tempo no Médio Oriente, onde passará a ter mais espaço e mais influência.

Hezbollah, na Síria com um olho em Israel

É o mais pequeno aliado do regime sírio na guerra, mas nem por isso pouco importante. Desde 2012 que o Hezbollah, partido e movimento xiita com base no Líbano, combate a favor de Bashar al-Assad na Síria. Este combate concentra-se sobretudo no Sul da Síria, junto à fronteira com o Líbano.

À semelhança do Irão, o principal mentor e financiador do Hezbollah, o grupo liderado por Hassan Nasrallah está na Síria com um duplo objetivo: a curto-médio prazo, conter o avanço de forças sunitas; a médio-longo prazo, manter a pressão sobre Israel. O próprio líder do Hezbollah explicou que a sua estratégia na Síria passa por atingir um “equilíbrio do terror” com Israel, ou seja, prevenir que aquele país inicie uma guerra contra o Hezbollah ou com o Líbano — cujo governo tem sido pressionado pelo Hezbollah a reatar laços com a Síria, depois de uma decisão de suspender de forma oficiosa as relações com o regime de Bashar al-Assad em 2012.

EUA, a linha vermelha de Obama e a linha vermelha de Trump

A relação dos EUA com a Síria sob o domínio do clã Assad (Hafez al-Assad, de 1971 a 2000; Bashar al-Assad, desde 2000) nunca foi fácil. Em 2002, no primeiro mandato de George W. Bush, a Síria não mereceu o cunho de Eixo do Mal (categoria reservada ao Iraque, Irão e Coreia do Norte), mas foi inserida numa subcategoria — o grupo do “Para Lá do Eixo do Mal”, onde além da Síria estavam Cuba e a Líbia. Por isso, a relação de Washington D.C. com Damasco nunca foi fácil. Mas, com a guerra civil a eclodir em 2011, a realidade passou a ganhar contornos mais sérios e mais complexos.

O primeiro Presidente norte-americano a lidar com a guerra na Síria foi Barack Obama. Sob a sua administração, em 2012, os EUA começaram a financiar grupos da “oposição moderada” contra Bashar al-Assad. Em 2013, os EUA chegaram a treinar e equipar grupos que faziam parte do Exército Sírio Livre — com os centros de treino militar espalhados na Turquia e na Jordânia. Esse esforço continuou em 2014, altura em que a Câmara dos Representantes aprovou um financiamento de 500 milhões de euros para treinar e equipar milícias sírias. Porém, este programa revelou ser um fracasso, já que a grande maioria dos soldados sírios desertaram depois de lhes ser imposto como condição inultrapassável que apenas podiam combater o Estado Islâmico, poupando assim o exército de Bashar al-Assad.

Em 2013, Barack Obama esteve a pouco de atacar Bashar al-Assad. Recuou quando a Síria garantiu que ia destruir o seu arsenal químico (Win McNamee/Getty Images)

Esse fracasso não impediu os EUA de apostarem em grupos armados no terreno. Desde 2015, os EUA armam e treinam o grupo das Forças Democráticas Sírias — onde os curdos do YPG são largamente maioritários — para combater o exército sírio e, sobretudo, grupos terroristas como o Estado Islâmico. A maior parte deste esforço concentra-se na zona Este e Nordeste da Síria. Para ajudar a esse esforço de combate contra aquele grupo terrorista, os EUA destacaram 2 mil soldados das suas forças especiais — ou seja, os primeiros e até agora únicos militares norte-americanos no terreno. Esta aliança foi particularmente decisiva para conquistar ao Estado Islâmico a cidade de Raqqa, que serviu como capital daquele califado na Síria até 2017.

O primeiro ponto de verdadeira tensão entre os EUA e a Síria aconteceu no verão de 2013, depois de um ataque químico com o gás sarin, asfixiante e letal, que matou pelo menos 281 pessoas (há relatos que chegam aos 1729 mortos) em Ghouta. Perante aquele desenvolvimento, Barack Obama chegou a equacionar uma intervenção militar contra a Síria de Bashar al-Assad. Um ano antes, o então Presidente dos EUA utilizou a expressão “linha vermelha”, para se referir ao ponto que o faria agir militarmente contra Bashar al-Assad. “Temos sido claros para o regime de Assad, e também para outros atores no terreno, que seria uma linha vermelha para nós se começarmos a ver movimentação ou utilização de armas químicas”, disse Barack Obama em agosto de 2012. Um ano mais tarde, em 2012, essa promessa foi-lhe cobrada.

"Temos sido claros para o regime de Assad, e também para outros atores no terreno, que seria uma linha vermelha para nós se começarmos a ver movimentação ou utilização de armas químicas."
Barack Obama, em 2012

Porém, essa hipótese foi descartada pelo então Presidente dos EUA quando conseguiu chegar a um acordo com a Rússia e com a Síria, onde era previsto que o regime de Bashar al-Assad destruísse o seu arsenal de armas químicas — arsenal esse que, até então, não admitia possuir. A destruição foi supervisionada pela Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPCW, na sigla inglesa), mesmo que, mais tarde, tenha havido novas denúncias de ataques.

E foi precisamente após um desses novos ataques que os EUA atuaram militarmente contra Bashar al-Assad pela primeira vez — e já com outro homem a mandar em Washington D.C.. No dia 7 de abril de 2017, ao contrário do que tinha sido a sua posição nos anos anteriores, Donald Trump decidiu lançar um ataque aéreo com 59 mísseis contra a base aérea de Shayrat — tudo porque, três dias antes, foi lançado um ataque químico atribuído à Síria em Khan Shaykhun, matando pelo menos 74 pessoas.

“Quando se matam crianças inocentes, bebés inocentes, bebés!, bebés pequenos, com um gás químico que é tão letal… As pessoas ficaram chocadas por saberem que gás era aquele. Isso ultrapassa muitas, muitas linhas, para lá de uma linha vermelha, muitas, muitas linhas”, disse Donald Trump, para justificar a sua mudança de ideias quanto a um ataque militar na Síria.

Um ano mais tarde, em abril de 2018, torna a haver novo foco de tensão — e, como foi visto na madrugada deste sábado, resultou num novo e mais amplo ataque aéreo dos EUA na Síria, desta vez aliados com o Reino Unido e com França. Este novo episódio surgiu depois de um alegado ataque químico em Douma, a maior cidade de Ghouta Oriental, que terá resultado em mais de 70 mortes e em cerca de 500 feridos.

O maior foco de tensão deste episódio foi com Moscovo, depois de o embaixador russo no Líbano ter dito que, no caso de um ataque dos EUA na Síria, não só os mísseis lançados seriam destruídos como seriam atacadas o sítio a partir do qual eles fossem lançados. Donald Trump respondeu no Twitter, ameaçando com mísseis “novos, bonitos e inteligentes”. Dias depois, eles foram mesmo lançados — porém, a Rússia não respondeu ao ataque dos EUA.

Mas, afinal, quais são interesses dos EUA na Síria? Acima de tudo a contenção do Irão, maior rival dos dois principais aliados dos EUA no Médio Oriente: a Arábia Saudita e Israel. Qualquer centímetro conquistado por Teerão (e também por Moscovo) e perdido por aqueles dois aliados dos norte-americanos será um centímetro perdido pelos EUA na problemática, mas crucial, região do Médio Oriente.

França, contra os terrorisas e agora contra Assad

A primeira vez que a França interveio de forma significativa na guerra civil da Síria foi como resposta a um dos episódios mais negros da sua História recente. A 13 de novembro de 2015, um grupo de terroristas com ligações ao Estado Islâmico matou 130 pessoas num conjunto de ataques em Paris, que foram desde o Stade de France (onde decorria um jogo particular entre França e Alemanha) até à sala de concertos Bataclan, passando por uma série de restaurantes e bares no centro da cidade. Até aí, sob a presidência de François Hollande, França já tinha fornecido armas alguns grupos rebeldes e já tinha feito bombardeamentos contra o Estado Islâmico.

Apesar de dirigir ataques aéreos contra o Estado Islâmico desde setembro de 2015 — tendo inclusive destruído um campo de treinos daquele grupo terrorista — nos dias seguintes ao atentados de 13 de novembro a chamada Operação Chammal foi intensificada e passou a dirigir-se também a Raqqa, antiga capital do Estado Islâmico na Síria. Os meios aéreos que têm sido responsáveis pelos ataques franceses desde então têm partido de bases aéreas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos.

Com a chegada Emmanuel Macron, os ataques dirigidos contra o Estado Islâmico mantiveram-se — mas também chegaram outros, desta feita dirigidos a Bashar al-Assad. Em junho de 2017, pouco depois de ser eleito, Emmanuel Macron utilizou a expressão “linha vermelha”, noção que Barack Obama usara e não cumprira anos antes, para falar de uma possível intervenção francesa contra o regime sírio. “Tenho duas linhas vermelhas: armas químicas e acesso humanitário. Já disse claramente a Vladimir Putin que serei intratável nestas matérias. E que a utilização de armas químicas provocará réplicas, e estas incluirão a França”, disse.

Emmanuel Macron foi chamado a cumprir a sua promessa menos de um ano depois, depois de dizer que tinha “provas” de que o ataque químico de 7 de abril em Douma tinha sido da responsabilidade do regime sírio. “Não se pode permitir tudo nas diferentes guerras que estão a decorrer. Nós temos provas de que, na semana passada, foram utilizadas armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad. Falámos com Donald Trump sobre uma resposta. Temos decisões a tomar em tempo útil”, referiu Emmanuel Macron, numa entrevista à TF1.

Dias depois, na madrugada deste sábado, a França de Emmanuel Macron atacou de vez posições ligadas direta e indiretamente ao esforço de guerra sírio. Ao contrário do que tem feito até agora nos ataques contra o Estado Islâmico, fê-lo com mísseis lançados a partir de fragatas posicionadas no mar Mediterrâneo.

Reino Unido, ao lado dos seus maiores aliados

À semelhança dos EUA, também o Reino Unido esteve à beira de intervir na guerra da Síria contra Bashar al-Assad no verão de 2013. Nessa altura, os EUA de Barack Obama equacionavam intervir militarmente contra Bashar al-Assad depois de um ataque químico em Ghouta que matou centenas de pessoas. Em reação, o então primeiro-ministro David Cameron levou uma intervenção britânica — no cenário de os EUA decidirem ir para a Síria — a votos na Câmara dos Comuns. No final de contas, venceram os 285 votos contra os 272 a favor.

Em 2015, o caso mudou de figura. Perante uma resolução apresentada pela França no Conselho de Segurança da ONU, que pedia ajuda para combater o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra, o Reino Unido decidiu aprová-la e agir em conformidade. Em dezembro, a partir de duas bases aéreas britânicas em Chipre, foram lançados os primeiros ataques aéreos britânicos em solo sírio.

"Isto não se trata de intervir numa guerra civil, isto não se trata de mudar um regime."
Theresa May, sobre o ataque tripartido contra Assad a 14 de abril de 2018

Os bombardeamentos contra aqueles dois grupos terroristas continuam até hoje — mas, à semelhança da França, o envolvimento militar do Reino Unido na Síria chegou a uma nova fase na madrugada deste sábado.

Na comunicação que fez ao país para anunciar o ataque, a primeira-ministra britânica, Theresa May, afirmou que “o regime sírio tem um historial de usar armas químicas contra o seu povo de forma cruel e aberrantes” e acrescentou que “teria preferido um caminho alternativo, mas nesta momento não há nenhum”. No entanto, rejeitou a possibilidade de o Reino Unido participar numa campanha militar contra Bashar al-Assad da mesma maneira que tem combatido o Estado Islâmico e outros grupos terroristas — segundo a primeira-ministra, o ataque de 14 de abril foi “limitado e dirigido”. “Isto não se trata de intervir numa guerra civil, isto não se trata de mudar um regime”, sublinhou Theresa May.

Turquia, contra Assad mas sobretudo contra os curdos — e com a Rússia de lado

A Turquia é o único país que, fazendo fronteira com a Síria, tem meios aéreos e terrestres destacados na guerra que opõe rebeldes e grupos terroristas à Síria e os seus aliados. Porém, entre todos os grupos que estão em causa na guerra da Síria, a Turquia de Recep Tayyip Erdoğan está particularmente interessada em combater um deles: os curdos do YPG.

A posição da Turquia quanto à Síria de Bashar al-Assad e os seus aliados tem sofrido várias guinadas, que obedecem tanto às momentâneas consequências da Turquia e a questões geoestratégicas deste que é o país que serve de tampão entre a Europa e o Médio Oriente.

Antes da guerra civil ter rebentado na Síria, Recep Tayyip Erdoğan era um aliado regional da Síria de Bashar al-Assad, mantendo uma relação cordial com o país que se dispõe na maior parte da sua fronteira a Sul. Porém, esta posição foi rapidamente invertida com o início da guerra, período a partir do qual a Turquia passou a opor-se a Bashar al-Assad, chegando a formar, financiar e proteger dentro das suas fronteiras células do Exército Sírio Livre.

Em 2015, a Turquia abateu um avião russo depois de este ter entrado no seu espaço aéreo. Putin disse que foi uma "facada nas costas", disse que a Turquia era "cúmplice dos terroristas" e aplicou-lhe sanções económicas. A Turquia acabou por pedir desculpa — e pelo meio ganhou uma central nuclear.

O primeiro incidente militar em que a Turquia esteve diretamente envolvida a propósito da guerra na Síria aconteceu a 24 de novembro de 2015, quando abateu um avião russo que invadiu o seu espaço aéreo. Segundo a versão apresentada pela Turquia, um Sukhoi Su-24, dois aviões de combate supersónicos russos, ultrapassaram a fronteira da Síria com a Turquia. Perante essa violação, a Turquia enviou dois F-16 para junto dos aviões russos. Depois, avisou 10 vezes que estes tinham de sair do espaço aéreo turco — coisa que um deles fez. O outro, que terá desrespeitado essa ordem, foi atingido por um dos F-16 turcos, despenhando-se no lado sírio da fronteira. O piloto e o co-piloto russos a bordo daquele Sukhoi Su-24 morreram. Vladimir Putin não gostou do gesto: “A perda que sofremos hoje é uma facada nas costas dada por cúmplices dos terroristas”.

O incidente levou a um esfriar das relações entre a Rússia e a Turquia, com Moscovo a aplicar sanções económicas que se fizeram sentir nas contas daquele país — entre as quais, a suspensão de um programa de isenção de vistos entre os dois países, o que fez cair em flecha as receitas do turismo turco.

A pressão russa surtiu efeito: em 2016, Recep Tayyip Erdoğan enviou uma carta a Vladimir Putin onde pedia desculpa pelo abate do avião militar russo em 2015. Assim, foi aberto o período de “normalização dos laços” entre os dois países — iniciativa que não foi em nada prejudicada pela assassinato do embaixador da Rússia na Turquia, Andrei Karlov, por um polícia turco no final de 2016. Tanto que, em abril deste ano, a Rússia começou a construir a primeira central nuclear da Turquia.

A postura da Turquia na guerra da Síria tem sido marcada por vários vai-vem na sua relação com a Rússia (ADEM ALTAN/AFP/Getty Images)

Em janeiro de 2018, a Turquia lançou a Operação Ramo de Oliveira, na região sírio de Afrin, que reflete a complexa postura de Ancara na guerra civil da Síria. Complexa porque, apesar de condenar o regime de Bashar al-Assad, está desde o início do ano a combater os curdos do YPG e as Forças Democráticas da Síria, que combatem Bashar al-Assad. Tudo isto, com o auxílio do Exército Sírio Livre, que os turcos ajudaram a lançar e que, no Norte da Síria, estão hoje mais dedicados em lutar contra os curdos do que propriamente contra o exército sírio.

As mais recentes movimentações e ações militares da Turquia contra os curdos YPG e as Forças Democráticas da Síria são particularmente sensíveis tendo em conta que aqueles dois grupos armados são aliados dos EUA na Síria. E, tecnicamente, a Turquia é aliada dos EUA na NATO — onde têm, respetivamente, o segundo maior e o maior exército.

Com a Operação Ramo de Oliveira, a Turquia intensifica o conflito na Síria, criando uma nova guerra dentro um antiga guerra no Norte do país. Este sábado, a Turquia referia já ter “neutralizado” mais de 4 mil “terroristas” desde o início do ano.

Sobre os ataques dos EUA, França e Reino Unido deste sábado, a Turquia teve uma reação cuidadosa, onde procurou apoiar o combate ao regime sírio sem fazer qualquer menção à Rússia. “O regime sírio recebeu a mensagem de que os seus massacres não vão ficar sem resposta”, disse Recep Tayyip Erdoğan. “O povo inocente da Síria já devia ter sido defendido há muito tempo.”

Israel, em constante sobressalto acompanha (e atua) à distância

Israel partilha com a Síria uma das suas fronteiras mais problemáticas e também disputadas: os montes Golã. Ao longo da sua existência, Israel tem entrado em conflito armado com a Síria em várias ocasiões: Guerra Israelo-Árabe em 1948; Guerra dos Seis Dias em 1967; Guerra do Yom Kippur em 1973. Além destes conflitos, os dois países mantêm relações tensas, já que a Síria é um dos maiores aliados do Irão na região.

O facto de o Irão, e também o Hezbollah, combaterem ao lado de Bashar al-Assad na Síria é o maior fator de risco para Israel. O país liderado por Benjamin Netanyahu tem olhado com crescente apreensão para o avanço militar das tropas pró-Assad, ciente de que uma vitória do regime sírio e dos seus aliados significa a criação de um corredor com livre trânsito entre o Irão e o Hezbollah (no Líbano). Por tudo isto, Israel assiste a este conflito (e por vezes participa nele) em constante sobressalto.

Esse mesmo sobressalto levou Israel a demonstrar a sua capacidade de atingir a Síria ainda antes da atual guerra civil. Em 2007, depois de ter percebido que a Síria estava a construir um reator nuclear em Deir ez-Zor, cidade no sul da Síria, com o apoio da Coreia do Norte. Israel só admitiu completamente no dia 21 de março deste ano ter lançado aquele ataque militar em solo sírio — mas esse era um segredo mal guardado e divulgado amplamente, nomeadamente na biografia política de George W. Bush.

Em 2014, Israel abateu um avião militar sírio — um Su-24 — depois de este ter entrado 800 metros na seu espaço aéreo, sob os Montes Golã. Os dois tripulantes sobreviveram, depois de terem conseguido saltar do avião e aterrarem em território sírio.

Já em 2018, Israel tem reagido militarmente a movimentações que decorrem da guerra na Síria. Em fevereiro, abateu um drone iraniano, garantindo que este sobrevoava o seu espaço aéreo, na fronteira a Norte com a Síria, nos Montes Golã.

A 10 de abril, foram lançados 12 ataques aéreos contra alvos na Síria, incluindo quatro ligados diretamente ao Irão. Ao todo, morreram 14 militares iranianos, entre os quais 4 militares de topo responsáveis pelo programa de drones do Irão na região. A Síria e os seus aliados atribuem aquela ação à Israel — mas, à semelhança do que fez em 2007 aquando do ataque ao reator nuclear sírio, mantém o seu silêncio.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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