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Refeição macrobiótica

D.R.

Refeição macrobiótica

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Vegetarianos, veganos e macrobióticos: Como é que eles vivem

Podem comer queijo, ovos ou peixe, mas a base são os produtos de origem vegetal e a qualidade é o principal requisito. Gerem a situação com família e amigos e são flexíveis sempre que necessário.

Perseu Mandillo nasceu e cresceu macrobiótico e em 31 anos nunca bebeu uma coca-cola. A também macrobiótica Maria Vila Lobos precisava de uma mudança na vida. Em comum, têm o interesse em manter uma alimentação rica em produtos de elevada qualidade. Para Sara Pinheiro e Pedro Pedrosa, deixar de comer carne foi mais do que mudar a alimentação, a preocupação entende-se à vida dos animais. “Não podia colaborar com associações de bem-estar animal e continuar a comer carne”, nota Pedro Pedrosa, que andava há quatro anos a mudar os hábitos alimentares por vontade própria, mas há um ano e meio eliminou a carne e o peixe completamente.

As mudanças podem surgir porque se abraçam diferentes filosofias ou estilos de vida, uma vertente mais oriental ou a defesa dos animais, ou porque a vida sofre uma mudança – Maria Vila Lobos procurou a mudança na alimentação, Sara Pinheiro mudou a alimentação quando saiu de casa dos pais e deixou de ter acesso a carne e peixe frescos e de qualidade. A mudança também pode surgir “quando algo lhes produz asco”, refere Paula Mascarenhas, professora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, dando o exemplo de uma pessoa que se enjoou a comer um pernil com muita gordura e não conseguiu voltar a comer carne. Para o apresentador João Manzarra a motivação para se tornar vegano foi ver o filme Cowspiracy e perceber que problemas ambientais estão associados à produção animal.

Se não quero animais no meu prato, também não quero a gordura animal dos champôs no meu cabelo, pasta de dentes que tenha sido testada em animais ou roupa e sapatos feita de pele de animais.
Sara Pinheiro, vegana

“Se não quero animais no meu prato, também não quero a gordura animal dos champôs no meu cabelo, pasta de dentes que tenha sido testada em animais ou roupa e sapatos feitos de peles de animais”, diz Sara Pinheiro, que começou por ter uma alimentação vegetariana há mais de sete anos, mas que agora não ingere produtos de origem animal. Para a jovem sonoplasta de 29 anos, também “não faz sentido que um vegano ou um vegetariano dê uma alimentação carnívora aos animais de estimação”. Na dúvida de que um gato ou um cão pudesse ser feliz com uma alimentação vegetariana, prefere não ter animal nenhum.

Se a alimentação dos animais de estimação pode refletir o tipo de alimentação dos donos, a dos filhos também não será exceção. Tal como aconteceu na família Mandillo. Perseu e a irmã tiveram uma alimentação exclusivamente macrobiótica até aos 12 anos, quando os pais macrobióticos decidiram expô-los a outros alimentos como laticínios ou gelados à base de leite. “Tinha 11 anos quando comi chocolate pela primeira vez”, conta Perseu, animador 3D para televisão e cinema. Embora ainda não tenha filhos admite que não lhes daria refrigerantes ou outros alimentos processados, mas também não os tentaria convencer a não comer carne – a opção seria deles. Em relação à irmã, conta que esta estudou melhor a alimentação para dar uma dieta equilibrada às duas filhas.

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“Se tiver filhos vão ser com certeza vegetarianos. Se considero que a carne não é boa para mim, porque a haveria de dar aos meus filhos?”, questiona-se Sara Pinheiro. Embora nunca tenha tentado convencer os pais a mudarem a alimentação, fica satisfeita quando estes integram elementos vegetarianos novos na alimentação. Já Maria Vila Lobos e uma das irmãs, também macrobiótica, convenceram a mãe a mudar a alimentação por questões de saúde. Pedro Pedrosa de 27 anos diz que a mãe tem dado “asas à imaginação” e faz pratos cada vez melhores.

Mas ter uma alimentação baseada em vegetais pode ser motivo de conflito na escola ou em sociedade, refere Paula Mascarenhas, professora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho. A académica justifica que “é difícil romper com os hábitos alimentares antigos” devido a vários tipos de constrangimentos: os pessoais, como a dificuldade em encontrar os alimentos que se pretende ou a falta de tempo para os preparar, ou os coletivos, que incluem a família e os amigos, os médicos e os professores dos filhos. Perseu Mandillo conta que os pais chegaram a ser chamados à escola e que tiveram de mudar de pediatras porque estes profissionais não aceitavam o regime alimentar escolhido pelos pais. Mas “os planos alimentares vegetarianos bem estruturados são nutricionalmente adequados, saudáveis e benéficos, sendo apropriados para todas as fases do ciclo de vida”, nota Catarina Oliveira, nutricionista estagiária na Faculdade de Ciências da Nutrição da Universidade do Porto.

Os planos alimentares vegetarianos bem estruturados são nutricionalmente adequados, saudáveis e benéficos, sendo apropriados para todas as fases do ciclo de vida.
Catarina Oliveira, nutricionista estagiária na Faculdade de Ciências da Nutrição da Universidade do Porto

“As pessoas que não me conhecem acham que sou magra por causa da alimentação. Acham que o que eu preciso é de comer carne. Mas quem me conhece sabe que sempre fui assim”, diz Sara Pinheiro. “A carne tem um simbolismo associado à força para trabalhar”, confirma Paula Mascarenhas, que investigou as mudanças dos hábitos alimentares no concelho de Cascais entre os anos 1970 e 2005. Tradicionalmente os ricos comiam carne e as pessoas com menos posses comiam mais produtos hortícolas. A transição dos vegetais para a carne e peixe é um simbolismo de poder, mas atualmente “as pessoas que optam por deixar de comer carne são um grupo de elite, com mais estudos”.

As pessoas que deixam de comer carne e peixe acabam por ler muito, para saberem quais os melhores alimentos e para terem uma dieta equilibrada. “Há uma altura em que ficas obcecado e queres saber tudo sobre o que estás a comer”, conta Sara Pinheiro. Pedro Pedrosa baseou-se nos sites recomendados pelos amigos e Maria Vila Lobos, que agora trabalha para um restaurante vegetariano e macrobiótico, fez um curso que incluía os princípios básicos da macrobiótica, cozinhar segundo este princípio e perceber como é que o organismo reage a cada alimento. “Geralmente, as pessoas procuram um nutricionista depois de terem optado por um regime vegetariano com o intuito de verificar se a alimentação que estão a fazer é a mais correta”, refere a nutricionista Catarina Oliveira. “No início fazia análises a cada seis ou oito meses para ver se estava tudo bem. E os valores até estavam melhores do que quando comia carne”, diz Sara.

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A nutricionista Catarina Oliveira lembra que “nenhum alimento pode oferecer todos os nutrientes de que corpo precisa”. “Um dos pilares fundamentais para uma alimentação saudável é a variedade.” Por isso aconselham que as pessoas consultem um nutricionista para escolher o melhor plano alimentar para o seu caso e para suprirem todas as necessidades nutricionais, em especial vitamina B12 e D, cálcio, ferro, zinco, iodo e ácidos gordos n-3. A nutricionista alerta ainda que nem toda a informação na internet é fidedigna.

“A alimentação é aquilo em que se acredita” e cada pessoa é livre de fazer a opção que quiser, considera Paula Mascarenhas, que também já teve uma dieta macrobiótica, mas que entretanto abandonou. São livres inclusivamente de interromper, mudar ou acabar com determinado regime alimentar. Mas a académica considera que são aqueles que não abraçam nenhuma filosofia ou que não seguem a escolha alimentar com muito rigor, que mais tendem a interromper, ainda que por curtos períodos de tempo, este tipo de alimentação. “Os vegans são mais restritos e é mais difícil romperem o regime.”

Dependendo das circunstâncias sou bastante flexível.
Perseu Mandillo, macrobiótico

Na família Vila Lobos, o Natal teve uma ceia tradicional porque os macrobióticos podem comer ocasionalmente carne ou peixe e porque Maria e a irmã não queriam impor a alimentação que fazem ao resto da família. Sara Pinheiro, a viver atualmente em Praga, também abre algumas exceções sempre que isso evite um conflito desnecessário, como alguém que lhe preparou uma refeição vegetariana e se esqueceu que os veganos não consomem nada de origem animal, incluindo manteiga ou natas. “O mais difícil é não comer francesinhas”, confessa entre risos Pedro Pedrosa, que vive perto do Porto. Embora coma queijo e ovos de galinhas “felizes” (que vivem livres e que não serão mortas para a alimentação), não abre exceções a este prato típico.

“Dependendo das circunstâncias sou bastante flexível”, admite Perseu Mandillo, contando um momento em que numa refeição oficial na China foi levado a um restaurante onde serviam o melhor “pato à Pequim”, mas só serviam mesmo “pato à Pequim”. “Naquele contexto não tinha como não comer.” Foi a primeira vez que comeu pato, mas há muitas carnes que nunca provou. Peixe come por vezes, se for de muito boa qualidade, porque gosta do sabor.

Os amigos de quem deixa de comer carne, peixe ou outros produtos de origem animal reagem muitas vezes com curiosidade ou brincam com a situação, fazem perguntas ou pedem conselhos, mas adaptam-se e aceitam. “Nas saídas e nos jantares juntos tentamos conciliar”, diz Maria Vila Lobos, que confessa ter sido muito radical no início. A luta mais difícil é com a irmã mais velha, “uma cozinheira de mão cheia”, que aposta nos pratos tradicionais e que continua a achar que “isto é uma fase e vai passar”.

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Sara Pinheiro também admite que no início precisava de “defender a ideia” e “facilmente entrava em choque” com quem tentava contrariar os princípios que seguia. “No início, como te estás a adaptar a uma forma de pensar, ficas mais na defensiva se alguma coisa a põe em risco.” Mas depois achou que a alimentação que fazia não tinha de constituir um motivo de conflito com os outros. Porém continua sem entender porque é que ninguém questiona um carnívoro porque é que come carne, mas lhe perguntam a ela porque não come.

Ultrapassados os constrangimentos sociais, surgem as dificuldades nos restaurantes. Embora em Portugal já surjam restaurantes vegetarianos de qualidade, os restantes só têm para oferecer uma omelete ou saladas. Além disso, ser vegetariano ou vegano não significa comer exclusivamente soja, tofu e seitã. “Claro que no início é mais fácil optar pelas ditas ‘alternativas’ [à carne], mas é só na fase de transição”, explica Sara Pinheiro.

Estava numa fase de mudança e não sabia em que direção mudar e a alimentação ajudou-me.
Maria Vila Lobos, macrobiótica

Nos supermercados, lojas especializadas ou mercados biológicos em Portugal já é possível encontrar a maior parte dos produtos que se deseja, mas a Dinamarca, onde vive Perseu Mandillo, continua a ter muito mais opções. Ainda assim houve uma grande evolução em Portugal. No final dos anos 1970 os pais de Perseu tinham de produzir tudo o que queriam consumir no regime macrobiótico que mantinham, chegaram até a produzir e vender miso (pasta de soja fermentada). Só no início dos anos 1990 começaram a aparecer outros produtos em Portugal, que os pais de Perseu compravam diretamente ao distribuidor.

Vencendo os constrangimentos, os vegetarianos acabam por se sentir melhor física, psicológica e emocionalmente com a alimentação que têm. “Estou bem mais feliz. Tenho menos um peso nos ombros”, diz Pedro Pedrosa. “Estava numa fase de mudança e não sabia em que direção mudar e a alimentação ajudou-me”, conta Maria Vila Lobos, de 36 anos, acrescentando que este tipo de alimentação lhe permitia ser criativa e emotiva. “Sinto-me muito mais calma, menos stressada com o meu perfeccionismo.”

Maria Vila Lobos, Pedro Pedrosa e Sara Pinheiro deixam-lhe algumas sugestões para uma refeição diferente (aqui).

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