Ocorre na actualidade uma preocupação retórica com a Saúde mental dos Portugueses a reboque das consequências da pandemia, como se necessária fosse uma causa contingente, insanável, para justificar perturbações e sofrimentos existenciais crescentes, e como se não existisse um histórico de menosprezo das políticas por esta área da saúde, onde vão surgindo planos salvacionistas que se têm revelado colecção de boas intenções de gabinete.

A saúde mental é um constructo teórico subjectivo de difícil mensuração que tem sido convertido em cliché para compor opiniões catastróficas face às consequências pandémicas, quando já entre 2011 e 2016 sobressaía a escalada de perturbações depressivas, demência e perturbações de ansiedade, de acordo com uma análise que consta do Programa Nacional para a Saúde Mental (2017) da Direcção-Geral da Saúde. O decréscimo da saúde mental em Portugal é uma realidade há anos, mas é agora o aumento previsto das perturbações por força do contexto pandémico que recupera, sem surpresa, as ditas boas intenções no Plano de Recuperação e Resiliência relativamente à saúde mental.

Falamos de um conjunto de disposições vagas que deixam a descoberto as reais necessidades psico-emocionais de larga população que sem outros recursos, recorre excessivamente a psicofármacos para contornar dificuldades de desempenho mental e de interação com os outros, num mundo competitivo, implacável, pouco tolerante a frágeis e perturbados, problemática naturalmente agravada com o actual aumento do desemprego e carências económicas. Os dados seguintes são espelho do desinvestimento nas políticas de prevenção em saúde mental, retirada a pandemia da equação.

Fonte: CCF (Centro de Conferência de Faturas) | Programa Nacional para a Saúde Mental – 2017 (DGS)

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Este quadro amplia-se com estudos do Infarmed que comparou em 2012 o consumo de psicofármacos (DDD por 1000 habitantes) com outros países da Europa (Noruega, Dinamarca, Itália) onde Portugal apresentava já um consumo muito superior, facto que não surpreende qualquer profissional de saúde que observe a lista de medicação habitual dos seus doentes, especialmente dos muitos idosos. Invariavelmente ao lado do anti-hipertensivo e do antidiabético, está o antipsicótico, o ansiolítico, e outros psicotrópicos como medicação regular de manutenção, prescritos como vitaminas, fazendo pensar que, ou todos os idosos são desiquilibrados e dementes ou são um excelente mercado de consumo de psicofármacos.

Parece-nos oportuno salientar a ligeireza com que as pessoas são transformadas em anormais, facto diretamente proporcional à velocidade com que a psicofarmacologia e a psiquiatria contemporânea expandiram seu mercado. Não deixa de ser surpreendente que o avanço na capacidade de curar tenha levado a ampliar a quantidade de doentes mentais (Jerusalinky & Fendrik, 2011, p. 6). A lógica implícita no DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais) leva a uma verdadeira inversão do procedimento psiquiátrico: é a produção dos medicamentos que determina a fabricação de diagnósticos, constituindo um verdadeiro dispositivo de fabricação da loucura.

A título de exemplo, vejamos como a questão começa logo nos primeiros anos da escola, quando professores e educadores confrontados com as dificuldades de aprendizagem ou indisciplina da criança, solicitam à família intervenção. Assim se agiliza o diagnóstico de Perturbação de Deficit de Atenção e Hiperatividade (PDAH), chegando-se com facilidade à prescrição da famosa “Ritalina” (Metilfenidato) que ocupa já lugar cimeiro nas estatísticas de consumo de fármacos psicoactivos. A práxis médico-psiquiátrica responde às instituições de assistência à infância e às expectativas dos pais sobre os seus filhos, denotando falha no funcionamento cerebral e nos mecanismos neuroquímicos que fundamenta a medicação. E assim a “Ritalina” sossega não só a criança, mas essencialmente pais, educadores e sociedade, pese embora o prejuízo da formatação a um suposto “modelo ideal de criança” que obviamente terá de ser dócil, assertiva, com bom desempenho escolar preparando um futuro que se adivinha brilhante, ou talvez não… A visão pouco individual da pessoa pelas instituições, pelos modelos assistenciais, não permite o pleno desenvolvimento das capacidades ao ritmo de cada um, sendo um sério entrave à saúde mental e constituindo factor de exclusão dos que “não encaixam”.

A fabricação da loucura ocorre sempre que se responde a mágoas e dissabores, produtos do normal desconforto da vida em sociedade, com o despropósito do psicofármaco, em lugar de se colocarem em prática programas de apoio à família e de estímulo ao bom desenvolvimento psíquico do cidadão ao longo do ciclo vital.

O modelo contemporâneo de organização da sociedade onde o sucesso é obrigatório, expõe o indivíduo à excessiva competitividade, à solidão e medo do fracasso, ao mesmo tempo que inventiva o hedonismo, procura patológica de bem-estar, onde cabe pouca ou nenhuma disposição para tolerar incómodos. Está aberta a porta à “loucura”, por onde entram a dependência farmacológica, o álcool e outras substâncias, bem como a delinquência, os acidentes de viação e de trabalho, comportamentos disruptivos, absentismo e incapacidade para o trabalho.

A estes factores de empobrecimento humano e económico acrescem, em contramão, paradigmas de felicidade veiculados nas redes sociais com padrões de imagem e consumo megalómanos, tidos como expoentes obrigatórios de êxito pessoal, mecanismo criador de frustração a uma enormidade de mentes insatisfeitas, sedentas de um contentamento só existente na alegria do “Prozac” e no sossego do “Xanax”.

A questão da saúde mental não se reduz à catalogação e tratamento de uns quantos alienados – estigma que é sempre do outro -, como se os restantes fossem todos sadios, imaculados. O equilíbrio funcional da mente é frágil, sujeito à crise a que ninguém escapa. A boa estrutura psíquica começa na vida intra-uterina e carece de um “nicho ecológico”, fundado no afecto, nas regras e valores da família no seio de uma sociedade com suficiência económica, justiça social e liberdade para criar e empreender. Percebemos por isso o quanto um país necessita de investir na macroestrutura social para favorecer a saúde mental do seu povo.

A Pandemia passará, mas a ansiedade ficará, pois é sentimento de apreensão e desconforto pela antecipação do perigo. Ela é certamente a consciência de que tudo está fora do nosso controlo, o que sendo assustador, faz simultaneamente da vida um desafio arrebatador, onde teremos de procurar equilíbrio num mundo que tende à insanidade.