Usar as eleições regionais nos Açores para comentar a realidade política nacional pode induzir-nos em erro por um número infindável de razões. Interpretar as ilhas como uma Lisboa polvilhada e rodeada por mar é muito fácil, mas pouco factual. No arquipélago para que todos agora olham, nem todos realmente vêem.

O Partido Socialista dos Açores, por exemplo, na sua visão do mundo, é bem mais conservador do que o PS no seu eixo Aveiro–Príncipe Real. O seu americanismo e a sua proximidade à cultura tauromáquica não encaixam, de todo, na arquitetura mental em vigência no Largo do Rato. O CDS, por sua vez, cimentado na Terceira, mantém há largos anos uma relação de cooperação com o executivo de Vasco Cordeiro, votando favoravelmente orçamentos que nem dependiam do seu apoio para sobreviverem. No PSD, talvez a diferença mais fundamental seja o distanciamento do poder: nacionalmente, não lhe toca há cinco anos; nos Açores, há 24.

Nada disto é semelhante ou comparável com a situação continental, que só pode invejar a previsibilidade do sistema açoriano.

José Bolieiro, como Rui Rio, é um homem conhecido e sem grandes anti-corpos junto do cidadão comum. Se governar, e ao que tudo indica assim será, não enfrentará qualquer tipo de levantamento popular contra a legitimidade do seu mandato – como, aliás, António Costa não enfrentou em 2015, ao tomar São Bento. Uma coligação nos moldes da velha Aliança Democrática (com PSD, CDS e PPM) possui uma coerência institucional, histórica e ideológica que não se poderá propriamente desconsiderar como “geringonça de direita”, além da representatividade geográfica que asseguraria entre os grupos ocidental, oriental e central da região.

Chegamos, passando o pleonasmo, ao Chega. O que a recente experiência insular nos deve ensinar não tem tanto a ver com esses arranjos, regressos ao passado ou contrastes, mas antes com o surgimento do partido liderado por André Ventura nos Açores. Não é tanto o que cresceu, mas como cresceu. E é daí que nasce a fabulosa história de Adroaldo Mendonça, de quem o leitor dificilmente ouviu falar, mas cujo percurso merece cuidado e nota.

Quem é, afinal, Adroaldo?

Ora, comecemos pelo princípio, há mais de duas décadas, numa das mais bonitas ilhas do arquipélago visado, dona de uma das mais belas paisagens que já visitei. Falo de São Jorge, ilha sem dragão mas com um céu onde eles caberiam, dividida em duas freguesias. A uma delas, denominada Norte Pequeno, preside como presidente de Junta, desde 2009, eleito pelo PS, Adroaldo Mendonça. Antes disso, foi tesoureiro da mesma Junta, pelo PSD, entre 2001 e 2005. E este ano encabeçou a lista da ilha à Assembleia Regional, mas pelo Chega.

Como demonstra a cronologia, um açoriano que foi tesoureiro do PSD, presidente de Junta do PS e cabeça-de-lista do Chega está-se nas perfeitas tintas para a austeridade, para o racismo, para a IV República e para quaisquer outros chavões mais ou menos mediáticos que a praça prefira difundir. É poder que interessa aos novos quadros do Chega. Não é fanatismo, nem extremismo. É a oportunidade de poder.

No último trimestre do próximo ano, em outubro de 2021, encontraremos mais fenómenos deste género nas eleições autárquicas que se avizinham. Quando o regime não chega para todos, é pelo Chega, e pela soma de dissidências dos partidos do sistema que acumula, que as surpresas acontecerão, que se furará cada establishment local e que se procurará recuperar alguma alternância. Se isso é positivo ou negativo, não sei. Se acontecerá de imediato e de pronto, também não.

Ao telefone, com alguma graça, o próprio Adroaldo conta a fábula. “Eu sou uma espécie de Che Guevara daqui, sabe? Há 24 anos, ajudei a derrubar isto para um lado e agora também dei uma perninha”, sorri. “Os sucessivos governos, sob a doutrina partidária, são todos iguais: atingem o pico. Também será assim com quem vier agora”, continua, com a tranquilidade de quem está a ver o sol pôr-se como no dia anterior. Para o ano, “se calhar”, até se candidata à Junta pelo Chega, diz ele, eleito há 11 anos com apoio do PS. “Não digo que não a nada, desde que me deixem pensar pela minha cabeça.”

A despedir-se, satisfeito com a natureza das coisas, conclui com uma máxima. “A política é como tudo na vida: nasce, cresce, amadurece e morre”. Se se referia ao socialismo nos Açores, ao governo nacional de António Costa ou ao regime que veio de Abril, confesso que optei por não perguntar.