Rádio Observador

Maioria de Esquerda

A fraude pós-eleitoral

Autor
14.979

António Costa era candidato a primeiro-ministro. Caso os portugueses quisessem um governo liderado por António Costa teriam certamente posto o PS à frente. Não puseram.

Ao princípio, pareceu um devaneio de noite eleitoral, inspirado pelo desespero da derrota. Entretanto, converteu-se numa política fria e cínica: António Costa, depois de sujeitar o PS a um desaire nas urnas, parece agora inclinado a comprometer os socialistas na aventura de um governo com comunistas e neo-comunistas. Dir-me-ão: é só uma estratégia negocial. Ao admitir formar governo com apoio do BE e do PCP, Costa pretende apenas aumentar a sua margem de manobra perante a coligação, ou então obrigar o PCP e o BE a mostrarem que não estão verdadeiramente disponíveis. Mesmo que seja isso, António Costa está a pôr em causa a democracia portuguesa tal como saiu dos confrontos de 1974-1976 e se desenvolveu durante quarenta anos.

Em primeiro lugar, Costa já negou a tradição, sempre respeitada desde 1976, de que em Portugal quem fica à frente vence as eleições e tem um mandato para governar. No dia 4 de Outubro, os portugueses escolheram entre quatro principais soluções de governo: a da coligação PSD-CDS, a do PS, a do BE e a do PCP. A maior parte escolheu a coligação PSD-CDS. É bom lembrar: a coligação ganhou as eleições com mais de seis pontos percentuais à frente do PS, e com quatro vezes a percentagem de votos do BE e cinco vezes a do PCP. António Costa era candidato a primeiro-ministro: foi assim que participou nos debates e apareceu nos cartazes. Caso os portugueses quisessem um governo liderado por António Costa teriam certamente posto o PS à frente. Não puseram, e, portanto, não queriam. Ao negociar com PCP e BE, Costa está a admitir impor aos portugueses, através de uma chapelada parlamentar, um governo que os portugueses rejeitaram nas urnas. Talvez a Constituição não o impedisse, mas à luz da tradição política nacional e das expectativas dos eleitores seria um autêntico golpe de Estado. Outros regimes portugueses praticaram fraudes eleitorais: vai este inaugurar as fraudes pós-eleitorais?

Costa argumenta que uma “maioria de esquerda” é equivalente à “maioria da direita”. Não é. A aliança entre o PSD e o CDS é junta dois partidos democráticos; a aliança entre o PS, o PCP e o BE juntaria um partido democrático e dois partidos que rejeitam tudo aquilo que define a democracia portuguesa. O PCP e as forças políticas que constituem o BE têm como ideal as antigas ditaduras comunistas, e entre si admitem a saída de Portugal do Euro e da Nato, o repúdio da dívida pública, a reversão das privatizações e a nacionalização da banca.O PS foi o partido que em 1974-1977 liderou a luta por uma democracia pluralista de tipo ocidental, ao lado do PSD e do CDS e contra o PCP e a extrema-esquerda agora escondida no BE. O PS não é apenas um partido de “esquerda”, mas um partido da “esquerda democrática”, da mesma maneira que o PSD e o CDS não são apenas partidos de “direita”, mas da “direita democrática”. A direita democrática não se define apenas contra a esquerda, mas  contra o salazarismo, da mesma maneira que a esquerda democrática não se define apenas contra a direita, mas contra o comunismo. O facto de o PS, o PSD e o CDS serem partidos democráticos, incompatíveis com as correntes anti-democráticas de direita e de esquerda, tem este efeito: conforme o governo é dirigido pelo PS ou pelo PSD, as políticas públicas podem mudar, mas o regime não. A alternância entre esquerda e direita democráticas faz-se assim sem dramas. A partir do momento em que o PS deixasse de fazer fronteira com a esquerda que recusa a democracia pluralista e a integração europeia, tudo seria diferente. Votar no PS significaria o quê? Votar pela permanência no euro, ou pela saída do euro? Ninguém teria a certeza.

Não haja dúvidas: um governo dos derrotados de 4 de Outubro, que incluísse partidos que negam os fundamentos da actual democracia, provocaria uma imensa revolta no país. E tudo isto, para quê? Para que António Costa, depois de uma derrota inesperada, possa manter o lugar de secretário-geral do PS, do qual depende a sua sobrevivência como político profissional. É essa a única razão. Para defender o lugar, Costa precisa de chegar ao congresso do PS como primeiro ministro. Com esse fim, está disposto a sacrificar tudo e todos. Assim acabam os partidos, e assim acabam também os regimes.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Política

O país onde a política morreu /premium

Rui Ramos
145

As más finanças, a estagnação económica e o envelhecimento demográfico tiraram oxigénio a tudo o que relacionávamos com direita e esquerda em Portugal. Há apenas governo e oposição.

Maioria de Esquerda

O Estado da Esquerda

Nuno Carvalho
501

O que o PS fez foi usar meios e dinheiro do Estado para assegurar que o modelo da geringonça se aguentava até ao fim, ignorando as prioridades de um Estado responsável e que funcionasse para todos.

Eleições

Eis o social - ismo

Luís Areias

O mais grave é que, tipicamente, o Estado não só não se preocupa em economizar, pois os recursos não foram ganhos com suor mas sim tirados coercivamente aos contribuintes, como nunca maximiza o valor.

Eleições Legislativas

Afluir de Rio em Costa instável

Gonçalo Sobral Martins
133

O líder do PSD fez ver que Portugal não soube aproveitar uma conjuntura externa extraordinária: apesar dos juros do BCE e do crescimento económico da zona-euro, nada melhorou substancialmente.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)