Depois de quatro anos de uma presidência americana que diminuiu interna e externamente os EUA e contribuiu para o aumento do populismo no mundo, a eleição de Joe Biden pode corresponder a um regresso ao “normal”. Em todo o mundo, fala-se disso. Mas o que é hoje “normal”, em termos de vida política?

1 Lembro François Hollande, presidente francês de 2012 a 2017. Para ele, a “normalidade” era um valor importante, em termos de atitude política. E ficou conhecido como “Monsieur Normal” na comunicação social francesa. Este tratamento não era exatamente elogioso. Era mesmo uma forma irónica de referir um presidente que teve dificuldade de se distinguir enquanto presidente. Apesar das medidas duras e corajosas que tomou, nomeadamente em Novembro de  2015 contra o chamado Estado Islâmico, na sequência dos terríveis atentados ocorridos nesse mês em Paris e arredores, que provocaram a morte a 130 pessoas. De facto, a sua popularidade, que era baixa antes desta situação e aumentou nesse período pelo protagonismo que teve, caiu depois, até à sua saída, em 2017. De tal forma era impopular, que decidiu não se recandidatar em 2017. Foi o primeiro presidente da V República a não o fazer.

Hollande não tinha chama, não entusiasmava. O voto que o levou ao Palácio do Eliseu, diz-se, mais do que a seu favor, foi contra Nicolas Sarkozy, o anterior presidente. Era “normal” demais.

2 Nos Estados Unidos de 2016, diz-se, a eleição de Donald Trump foi um grito de revolta das classes médias e médias baixas da cintura industrial americana contra o aparelho decisório de Washington, contra Hilary Clinton. Contra a ideia de uma classe dominante letrada, com novos parâmetros de valores, enquadrada na globalização. A democracia americana, que se construiu durante mais de dois séculos, e se afirma (ainda) como maior potência mundial, preferiu ter como líder um homem que, já se sabia à data, era um empresário que não pagava as contas, com ligações à Rússia, misógino, mentiroso, grosseiro, ignorante. Os americanos estavam cansados da “normalidade” das dinâmicas do poder institucional, queriam um outsider. E tiveram-no. Durante quatro anos, Donald Trump chamou a si uma série de ações que desacreditaram a América no mundo, tornando-a razão de chacota, pela sua forma de estar, pelo que, descontroladamente, foi dizendo, pela forma como geriu a sua administração. Dividiu os americanos entre os que estavam com ele e os que não estavam. Estimulou o extremismo de direita nos EUA e no mundo. Denegriu gente honrada e promoveu pessoas pouco recomendáveis. Deu novo fôlego aos supremacistas brancos e desacreditou a causa climática. Descurou a saúde dos americanos e distanciou-se da Europa. E, no fim, na avaliação que os votantes fizeram dele, em Novembro de 2020, apesar de perder as eleições, superou os 72 milhões de votos (valor superior ao de 2016) nas eleições americanas mais concorridas de sempre.

3 Entre a normalidade de Hollande e a anormalidade de Trump, onde está, hoje, o equilíbrio na liderança de um país democrático ocidental?

Vivemos um período histórico em que o conceito de normalidade é uma questão de ponto de vista. À existência de consensos institucionais no pós-II Grande Guerra que levaram à criação de uma série de organizações multilaterais para regular as relações entre Estados e entre blocos (ONU, CEE, NATO, Pacto de Varsóvia, nomeadamente), colocaram-se desafios sucessivos de desconstrução da “normalidade”.  Desafios na  ordem moral como o movimento hippie, o maio de 68,  os movimentos LGBT, que têm reflexos na ordem jurídica – direitos iguais para homens e mulheres, legalização do aborto, casamento homossexual. Desafios na ordem económica, com crescente concentração de capital, crises financeiras e económicas,  globalização. Desafios na ordem política, com a desagregação da União Soviética, queda do Muro de Berlim, saída do Reino Unido da União Europeia. Desafios na ordem pública internacional, com genocídios na Ásia (Camboja), em África (Ruanda), na Europa (Bósnia), ataques terroristas islâmicos, narcotráfico. Desafios na ordem social, com a radicalização de franjas da sociedade, tribalização nas redes digitais, rejeição da ideia de comunidade. Desafios na ordem tecnológica, com a alteração dos protagonistas industriais de produção especializada, criação de novos modelos sócio-económicos a partir da tecnologia, disseminação da auto-produção. Desafios na ordem ambiental, com a exaustão dos recursos naturais, as alterações climáticas, o desaparecimento de espécies.

4 Estes desafios à “normalidade”, entre outros, mostram como, nas últimas décadas, o status quo global tem sido colocado em causa, não num domínio só, mas numa vastidão deles. Assim, dificilmente há, hoje, uma possibilidade de retorno à normalidade, pois esta já não está onde estava. Poderá dizer-se que as alterações de ordem têm acontecido ao longo da História e que, por isso, o que estamos a viver, é só parte de um tempo maior, do qual este momento é só um epifenómeno.

Todavia, não é bem assim. Diferentemente dos momentos históricos anteriores, onde houve alterações de ordem significativas em dados momentos (mais ou menos longos), alterações, por exemplo, na ordem política, na ordem económica, na ordem valorativa, no momento atual, o que verificamos é que todas as ordens se alteram ao mesmo tempo. Não fica pedra sobre pedra. Ficam regras gerais que procuramos proteger, princípios que queremos valorizar, dinâmicas que nos ligam ao passado histórico. Mas não há consenso sobre o que se deve guardar e o que se deve substituir, no quadro da ordem institucional que nos permita viver em comum.

5 Assim, definir o que é a “normalidade” tornou-se um exercício confrontacional. Confrontos políticos. Confrontos religiosos. Confrontos sociais. Confrontos ambientais. Confrontos tecnológicos. Confrontos económicos. Estes confrontos não são segmentos, as sociedades são multifuncionais e por isso estas dinâmicas interagem entre si. Assim, é normal que nos sintamos muito inseguros sobre identificar hoje o que é normal. Atores políticos como Donald Trump não ajudam, no quadro das democracias ocidentais, a encontrar a estabilidade dentro da mudança. É disso que precisamos, de quem nos ajude a ter estabilidade no âmbito das mudanças que vivemos. O que significa estabilidade na mudança? Ter lideranças que funcionam como mediações, em vez de serem pesos que procuram fazer pender a balança para um lado que desequilibre o xadrez social. Lideranças que protegem a ordem normativa, mas com a flexibilidade suficiente para graduar a sua mudança face às dinâmicas em presença. Lideranças que detetam os riscos sistémicos contra a democracia e que têm mão forte na defesa do pluralismo, da liberdade de expressão e no direito à concorrência.

6 As eleições americanas deste mês de Novembro enfatizaram uma questão evidente: os seniores estão aí para ficar. Ter 78 anos não é razão suficiente para não liderar a democracia mais poderosa do mundo. Hoje, mais do que a idade, contam a capacidade e a visão. Ainda bem.

A democracia americana é uma democracia doente. Não se esperaria o nível de sectarismo, manipulação, conivência, mentira, demagogia, que o atual presidente americano usa, com o contributo ativo ou a passividade de parte da administração americana e de parte do Partido Republicano.  Na Europa, apercebemo-nos que os sectários, manipuladores, coniventes, mentirosos e demagogos, por aqui, são, afinal e por vezes, simples amadores, face ao grau de degradação que se atingiu nos Estados Unidos.

Os que queremos defender o modelo de democracia ocidental, temos muito que aprender. Humildemente. Se uma democracia antiga como a americana pôde chegar ao que chegou, o que pode acontecer, por exemplo, a uma democracia muito mais recente, como a nossa, se o vírus de instabilidade que afeta a sociedade americana se disseminar entre nós? A pandemia da Covid-19 é grave e condicionante. Mas a virose que torna a democracia doente pode ser ainda mais danosa. Temos de estar atentos para graduar as ações que nos permitem uma normalidade, no extraordinário contexto de mudanças de que somos parte. Essa aprendizagem exige que não alienemos as vozes de partes significativas da população, mesmo que sejam vozes que correspondem a valores e atitudes que consideramos retrógradas. Temos de escutar e ser capazes de integrar essas vozes, num exercício difícil de diálogo construtivo. Esta é a responsabilidade dos agentes políticos, da comunicação social, da sociedade civil. Na defesa de uma nova normalidade, que não é estática, mas uma composição dinâmica de interesses e expetativas que urge integrar, para que nos possamos sentir, todos, membros da mesma comunidade.