Mesmo num sistema político concebido para proporcionar governos maioritários, a posse de uma maioria absoluta deve ser encarada com responsabilidade. David Cameron, que conseguiu uma inesperada maioria parlamentar em 2015, livrando-se até dos seus parceiros de coligação, duraria menos de dois anos como primeiro-ministro após esse sucesso. Theresa May, que lhe sucedeu e convocou eleições antecipadas de modo a reforçar-se, acabaria por perder essa mesma maioria em 2017.

Perante a estrondosa do Partido Conservador nas eleições de ontem, Boris Johnson deve aprender com os erros dos seus antecessores e valorizar a maioria parlamentar que conquistou, preservando-a.

Digo-o, essencialmente, pela sua singular circunstância partidária (dificilmente voltará a enfrentar um líder da Oposição tão fraco quanto Corbyn), pela irrepetível conjuntura eleitoral (que permitiu que vencesse com votos de brexiteers e remainers face à ambiguidade trabalhista) e, principalmente, pelas expectativas que criou.

Get Brexit Done foi uma promessa tão atraente e vã quanto Get Back Control. Eleitoralmente, ambos funcionaram às mil maravilhas. Mas a realidade rapidamente se impõe após idas às urnas.

Boris beneficiou de uma saturação social em torno do Brexit – na ironia de ter sido um dos seus maiores obreiros – e da clivagem entre defensores do resultado do referendo de 2016 e os seus opositores, favoráveis a uma repetição da consulta popular. A vitória tory é uma vitória desse referendo, dessa clivagem e da promessa de um Reino Unido autónomo e próspero fora da União Europeia.

Com uma maioria parlamentar tão clara e um distanciamento dos seus aliados mais evidentes (dos LibDems, pelo seu europeísmo, e do DUP, pela sua oposição à fronteira marítima na Irlanda do Norte), o Partido Conservador não se pode dar ao luxo de não cumprir a legislatura e desiludir os eleitores que lhe deram a sua maior vitória desde Margaret Thatcher. Com um governo tão maioritário, haverá menos desculpas para erros num tempo em que o espaço para errar só aumentará – na implementação do acordo de saída, na discussão sobre o futuro da relação comercial e fiscal com Bruxelas ou nas negociações com a administração norte-americana.

Sucintamente, a vitória de Boris é tão grande quanto as responsabilidades que esta trará. Foi uma vitória de tudo ou nada, contra tudo e contra todos (incluindo o seu próprio irmão e setores fundacionais do seu próprio partido), mas também uma vitória do optimismo contra a dificuldade, da democracia liberal e representativa contra um labour ativista e radical, da economia de mercado contra uma visão ultrapassada do socialismo.

Os britânicos, apesar da personalidade controversa e algo errática do seu primeiro-ministro, preferiam acreditar na Grã-Bretanha que este lhes prometeu e não no Reino Unido que Jeremy Corbyn propunha transformar. As vitórias conservadoras em círculos tradicionalmente trabalhistas foram prova disso. Desiludir a confiança de quem ofereceu essa oportunidade seria cavar uma nova clivagem na democracia britânica. E todas as democracias têm os seus limites.

Desta vez, Boris tem de cumprir.