Rádio Observador

Política

De Trump a Macron, do populismo ao elitismo

Autor

Quando vão aparecer as imitações de Macron? Muita gente já se deve andar a ver ao espelho, a confirmar que tem o cabelo e o sorriso certos. No Porto, o divórcio municipal já foi atribuído a Macron

A política ocidental sempre funcionou por mimetismo. Foi assim que na década de 1990, depois dos confrontos políticos dos anos 80, toda a gente tentou imitar as sínteses de Bill Clinton: tivemos Tony Blair na Inglaterra, Gerhard Schroeder na Alemanha, e por cá, à nossa escala, António Guterres. Resultaram coisas diferentes (Guterres fez défice, Schroeder fez reformas), mas inicialmente foram todos a “Terceira Via”: a ideia de que a prosperidade dos mercados globais seria o meio de financiar o Estado social.

O ano passado, o inesperado sucesso de Donald Trump (há de facto uma tendência para os EUA serem a origem de tudo) fez logo tortulhar o tipo de líder imune ao politicamente correcto, capaz de dizer coisas brutais sobre a imigração e o terrorismo, e coisas simpáticas sobre Vladimir Putin. A Holanda teve Geert Wilders, também com um cabelo característico, e a França, mais uma vez, Marine Le Pen. De resto, tratava-se de acreditar que o repúdio da globalização e o proteccionismo nacionalista seriam a forma de manter o Estado social (hoje em dia, todas as histórias vão dar ao Estado social).

À esquerda, também ainda houve, durante uns meses, a moda do Syriza, antes de Tsipras ter precisado de pedir dinheiro. Agora, depois das presidenciais em França, temos Emmanuel Macron. Macron é uma grande ideia: perante a sublevação populista, livremo-nos dos velhos líderes e dos seus partidos, e arranjemos uma cara nova, sem experiência política, mas profissionalmente credenciada, cortês, pronto para agradar a todos. Obama, que aliás patrocinou Macron, serve de referência no estilo. Para quem frequenta os cafés virtuais das grandes cidades, Macron parece feito à medida: um desregulador multicultural. A questão é, portanto, saber quando vão aparecer as imitações. Imagino que muita gente nas classes políticas já se ande a ver ao espelho, a confirmar que tem o cabelo todo e o sorriso certo. No Porto, o divórcio municipal entre Rui Moreira e os socialistas já foi explicado pelo impacto de Macron.

Não levem por isso a mal o que vou dizer. Perante Le Pen, Macron estava destinado a parecer benigno: liberal, pró-europeu, etc. Mas em Macron (e eventualmente nas suas cópias), há que distinguir entre as ideias e os métodos. Porque na prática, Macron representa, tanto como Le Pen ou como Trump, uma ruptura. Tal como eles, interessa-lhe denegrir o sistema que o formou, para simular uma distância e uma pureza que verdadeiramente não existem (Macron foi ministro de Hollande). Tal como eles, precisa de destruir os partidos existentes, porque não pode optar entre eles e porque tem de formar a sua própria base de poder.

Por isso, Macron, num ponto absolutamente essencial, concorda com Le Pen: a introdução do sistema de representação proporcional nas eleições legislativas francesas. Para ele, como presidente, será uma maneira de pulverizar de vez o parlamento, permitindo-lhe depois, na falta de um grande partido próprio, fazer emergir a presidência como o polo de variáveis coligações de governo. Mas para Le Pen, será a maneira, finalmente, de ver a Frente Nacional adquirir a representação parlamentar que o sistema eleitoral maioritário com duas voltas até hoje lhe negou. E que acontecerá quando a Frente Nacional, que com 14% dos votos tem agora 2 deputados, tiver os 80 que essa votação lhe poderia dar num sistema proporcional? Continuaria Macron a ser visto como o S. Jorge que matou o dragão populista?

O que Macron significa é que não é só o “povo miúdo”, que votou Le Pen, que está disponível para correr o risco de uma ruptura. São também os “quadros superiores”, que votaram em Macron. Falou-se muito até agora de populismo. Com Macron, talvez se venha a falar de elitismo. Por enquanto, este elitismo parece garantir a ordem interna e internacional perante o “perigo populista”. Mas dificilmente deixará de provocar divisões e choques, e ninguém pode garantir que não acabe, através da desagregação dos sistemas, por dar uma nova oportunidade ao populismo. Entre duas revoltas, a de baixo e a de cima, veremos qual causa mais estragos.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Racismo

A racialização da política é isto /premium

Rui Ramos

As democracias têm de tratar todos os cidadãos como iguais, com os mesmos direitos e obrigações, e ajudar os mais pobres e menos qualificados, sem fazer depender isso de "origens" ou "cores".

Rui Rio

Portugal continua a não ser a Grécia /premium

Rui Ramos
396

Quando a Grécia se afundava em resgates, Passos impediu que Portugal fosse a Grécia. Agora, quando a Grécia se liberta da demagogia, é Rui Rio quem impede que Portugal seja a Grécia. 

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)