Sim, é difícil acreditar, mas a verdade é que, como tudo na vida, também o coronavírus tem um lado positivo. E não me refiro àqueles primeiros 17 minutos em que ter a família toda fechada em casa chega a parecer divertidíssimo. É que, terminado esse estado de graça, a única vantagem deste novo género de prisão domiciliária sobre o típico cárcere é só mesmo não ter de tomar duche com outros 120 indivíduos. Não, a grande mais-valia do coronavírus é permitir-me ganhar uma disputa antiga que mantinha com a minha mulher, que não vê qualquer serventia na exploração espacial. Parecia estúpido desenvolver tecnologia que nos permita fugir daqui para fora e colonizar novos planetas, não era, minha menina? Se calhar não abalávamos já para Marte, queres ver? Onde aquele quentinho bom frita tudo o que é COVIDs. Deixem mas é Elon Musk trabalhar, pá!

Embora ainda não haja vacina para o coronavírus, já existe um placebo que está a ser utilizado pelo país fora. Com os miúdos trancados em casa tantas horas, começaram já a ser distribuídas, nos lares de todo o Portugal, valentes palmadas nos respectivos mini-traseiros. Palmadas essas que acabam por ter um efeito algo semelhante ao de uma clássica injecção de penicilina: não matam o COVID-19 mas, por um lado, deixam as nalgas bem escarlates, por outro deixam os petizes com aquela sensação reconfortante de acreditarem que “Depois disto, a minha vida só pode melhorar!” E, na verdade, uns bons açoites até podem matar o coronavírus. Se calha o bicharoco ir a passar pelo nalguedo no exacto momento da aplicação do correctivo, é coisa para se esborrachar o sacana. É preciso alguma sorte, mas pode acontecer.

Por falar em crianças, muita gente tem relacionado esta pandemia com o conto popular d’ “O Pastor Mentiroso e o Lobo”, em que menino gritava “Lobo!” e não havia lobo nenhum. Isto porque houve já tantos alertas de outras supostas pandemias que não redundaram em nada que, desta vez, descurámos os avisos quanto ao COVID-19. Reconheço o paralelismo, mas há uma diferença fundamental: o menino. É que o catraio que gritava “Lobo!” no conto antigo era só um parvinho a tentar captar a atenção da aldeia. Já nesta versão contemporânea, em que o lobo veste a pele de coronavírus, o menino que grita não é parvinho. É perfidozinho. O maquiavélico petiz grita por este “lobo” à vontade, porque sabe perfeitamente que o COVID-19 não finca o dente em criancinhas. Trata-se de um “lobo” gourmet, que prefere carne maturada.

Apesar de todos os transtornos, a quarentena é imprescindível. Ir trabalhar nestas circunstâncias pode colocar as nossas vidas em perigo. Acho é que devíamos levar essa lógica até às últimas consequências. No momento em que escrevo, e ao fim de cerca de 3 meses, o coronavírus provocou perto de 8.000 mortes. Ora, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho, morrem, por dia, mais de 2.700 pessoas — quase 250.000 a cada 3 meses — em acidentes relacionados com o trabalho. Donde resulta claro que ir trabalhar é muito mais perigoso para a saúde que o coronavírus. Logo, devíamos ficar de quarentena para todo o sempre.

Enfim, estes são tempos de grande exigência, em especial, para os profissionais de saúde. E os portugueses têm vindo às janelas de suas casas agradecer o seu esforço. É um gesto bonito, mas que pode redundar em catástrofe. Basta ser fonte de inspiração para uma nova versão dos UHF do tema “Menina Estás À Janela”. Pode muito bem ocorrer a António Manuel Ribeiro algo deste género:

Menina estás à janela
A fazer a quarentena
Não me vou chegar aí perto
Sem levar uma máscara médica

 Sem levar uma máscara médica
Sem levar um gel de álcool
A fazer a quarentena
Menina estás à janela