Serviço Nacional de Saúde

Já experimentaram tratar a gripe com ideologia? /premium

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Nada melhor, para esconder os cortes e a agitação laboral na saúde, do que abrir uma guerra ideológica com outra lei de bases sectária. Mas desde quando é que a ideologia cura uma gripe?

Nunca acabamos de aprender com este governo e a sua maioria. Já se percebeu que o seu principal problema era compatibilizar os défices que Bruxelas exigia e os ganhos com que convinha bafejar os eleitores dependentes do Estado. O crescimento económico ajudou um pouco, mas não dispensou violências fiscais e sobretudo cortes de investimento e de despesas que, como se vai vendo, fizeram tremer os serviços públicos, nomeadamente na saúde. Nunca os malvados “neo-liberais”, há décadas a tentar supostamente destruir o Estado social, foram tão longe. Para piorar tudo, a generosidade com os funcionários não os impressionou, ao ponto de dispensarem greves e protestos que a maioria não hesitou em declarar “selvagens”. Ora bem, como é que, nesta situação, se salva a honra das esquerdas unidas? É muito simples: inventa-se uma lei de bases da saúde e faz-se questão de recusar os votos da direita, para que fique claro que só socialistas e comunistas defendem o Serviço Nacional de Saúde que eles próprios estão a levar à beira do proverbial precipício.

Esta guerra de Solnado do SNS não é nova. Há quarenta anos, também foi assim, em circunstâncias um pouco diferentes. Então, o PS, no governo com o CDS, negociava o primeiro pacote de austeridade com o FMI. Todos os dias havia arautos do “progressismo” a enrouquecer em público com tamanho escândalo. Era preciso um retoque de esquerda. Veio assim a lei do SNS, redigida com os pós de sectarismo necessários para que o PS só tivesse a companhia do PCP e da UDP na sua votação. Era um papel, porque na prática a saúde pública, em tempo de austeridade socialista, continuou a assentar na oferta já existente, a começar pela rede de centros de saúde criada em 1971 por Baltazar Rebelo de Sousa, talvez o verdadeiro fundador do SNS em Portugal, como — sem exagero – sugere o presidente da república na biografia do pai. Mas eis o PS parcialmente redimido do pecado de governar com os “fascistas” a favor do “capitalismo”. O preço do novo ajustamento de 1983-1985, dessa vez na companhia do PSD, seria a primeira lei do aborto.

Não estou a dizer que o projecto da “socialização da medicina”, como se dizia antigamente, não faça ideologicamente sentido: para quem deseja pôr o Estado a controlar miudamente a sociedade, é importante que a saúde, a educação, a banca, os transportes e por aí foram não sejam “negócio”, isto é, campo de actividade empresarial. E para os cidadãos que queiram apenas ser examinados e tratados? Há hoje um sólido consenso de que numa sociedade civilizada há dois tipos de igualdade imprescindíveis: perante a lei, e perante os cuidados médicos. Tal como ninguém deve deixar de ser punido por ser rico, também ninguém deve deixar de ser tratado por ser pobre.  Percebe-se assim, a garantia pública de cuidados de saúde. Mas para tornar efectiva essa garantia, há muitas opções. Desde os anos 80, quando se percebeu que o Estado nunca teria meios para pagar tudo, que se tentam criar mercados da saúde, com a esperança de baixar custos e melhorar serviços. Para a maioria das pessoas, a prioridade é obviamente ser examinada e tratada o mais rápida e eficazmente possível. O prestador do serviço ser estatal, privado ou uma parceria público-privada não é a primeira consideração do utente. Por indiscrição das redes sociais, amplificada pela imprensa, sabemos que até deputados do PCP — e com todo o direito — optam por hospitais privados. Da mesma maneira, para quem se comprometeu a garantir que toda a população terá acesso a cuidados de saúde de qualidade, a preocupação principal deveria ser como tornar efectivos e viáveis esses cuidados, independentemente de quem os prestar. Ninguém trata a gripe com ideologia. E no entanto, é a ideologia que querem pôr a atender-nos nos hospitais.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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