A minha tese é muito simples: as divisões num governo de esquerda liderado pelo PS seriam muito maiores do que num governo da actual coligação. Passámos quatro anos a ouvir a oposição atacar “as divisões” e “a instabilidade” da coligação. É verdade que as relações entre o PSD e o CDS nem sempre foram exemplares. Mas qualquer coligação de esquerda seria muito pior, e não acabaria a legislatura.

As reações no interior do PS aos elogios de António Costa ao legado do governo demonstram a minha tese. Aliás, António Costa percebeu que a divisão socialista só poderia ser evitada se o governo grego conseguisse impor uma mudança significativa às políticas europeias. Dito de outro modo, o PS no governo precisa de dinheiro europeu sem condições políticas para evitar divisões. Olhando para o que se passa com a Grécia, António Costa já terá percebido que o seu ‘sonho europeu’ acabou. O próximo governo poderá mudar algumas políticas, mas terá que continuar a consolidação orçamental e as reformas que diminuam a despesa pública. Ou seja, terá que tomar medidas que parte do PS e de outros partidos de esquerda não querem nem aceitariam. Se não o fizer, Portugal conhecerá um destino semelhante à Grécia. E António Costa não quer ser um PM grego.

Mas a liderança do PS, se tivesse a coragem de combater o radicalismo do seu grupo parlamentar, não precisaria de ter esperado pelo que está a acontecer com a Grécia. O que se passa em França mostra bem o destino dos governos socialistas sem dinheiro para gastar e obrigados a fazer reformas. O Presidente Hollande foi forçado a impor a “Lei Macron” sem aprovação parlamentar por causa da oposição no interior do seu partido. Aliás, é interessante olhar para o percurso dos governos que supostamente iriam salvar a “democracia europeia” da “ditadura monetarista” de Bruxelas, Frankfurt e Berlim. O governo socialista francês aprovou a sua lei económica mais importante sem ouvir o Parlamento. O PM grego decidiu a semana passada não submeter o acordo com a zona Euro a uma votação parlamentar quando viu as divisões no Syriza (após um mês no governo).

Voltando a Portugal, António Costa rendeu-se à linha radical do seu partido, desistindo da sua estratégia preferida: não se comprometer demasiado com o futuro utilizando um discurso radical no presente. Mas a crise tornou impossível a prática habitual do PS: estar à esquerda na oposição e ao centro no governo. Essa estratégia só funciona quando há dinheiro suficiente para distribuir e calar os radicais. Sem dinheiro, e obrigado a continuar a redução na despesa pública, um governo de esquerda não cala os radicais. A rendição aconteceu no momento em que Costa afastou o cenário de um bloco central. A radicalização do PS e da esquerda durante os últimos quatro anos criou um problema que Costa não terá reconhecido: sem uma maioria absoluta do PS, a única forma estável de governo que poderia liderar seria um bloco central. Ao recusar esse cenário, disse aos portugueses que desistiu de ser uma alternativa ao actual PM.

Alguns dirigentes tentaram corrigir o erro admitindo uma coligação com o CDS. O que obviamente dividiria o PS. Além disso, a dinâmica da luta eleitoral que aí vem tornará esse cenário quase impossível. Durante a campanha, os portugueses vão perceber a questão política crucial para o país: uma maioria absoluta que garanta estabilidade durante quatro anos é a única forma de evitar o regresso da austeridade e dos sacrifícios. Em Portugal, só há duas coligações políticas estáveis: um bloco central (podendo incluir também o CDS) ou uma coligação PSD-CDS. António Costa recusou a única em que poderia participar.  E clarificou a escolha dos portugueses: ou mais quatro anos da actual coligação ou instabilidade política e mais austeridade. Dito de um modo ainda mais simples: a coligação PSD-CDS é o único governo que pode impedir o regresso da austeridade a Portugal. Foi António Costa quem o disse.