Eleições Presidenciais

Os presidentes de nenhum português

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Convém que todos saibam muito claramente o que pensa cada candidato e o que quer. Isto é, com quem está. Porque em política, pensar e querer é necessariamente estar com alguém.

Estamos em Julho de 2014, e não conseguimos deixar de falar das eleições presidenciais de 2016. O Facebook testa likes a hipotéticos candidatos, e até o caso Ricardo Salgado é discutido, não pelos seus efeitos sobre a banca, mas pelo seu eventual impacto nas presidenciais, devido à amizade entre o banqueiro e um dos pré-candidatos.

Esta conversa é normal. Nos EUA, há quase um ano que se fala da eleição presidencial de Novembro de 2016. E faz sentido. No caso dos EUA, porque o mandato de Obama já caducou de facto, uma vez desfeita a ilusão e perdida a maioria legislativa; e no nosso caso, porque, sem maiorias absolutas de um só partido em 2015, o actual presidente e o seu sucessor terão, muito provavelmente, de ajudar a orquestrar os acordos requeridos para a governação.

Até agora, a lista do “arco-da-governação” inclui dois comentadores televisivos, dois empregados de organizações internacionais e um ex-presidente de câmara. E sabendo que convém a um candidato a presidente ter algum passado, é curioso como todos, sem excepção, estão ligados aos fracassos, fugas e abstenções que marcaram a crise portuguesa do século XXI: dois demitiram-se do governo (Guterres e Barroso), um foi demitido (Santana) e dois nunca se demitiram nem foram demitidos porque sempre hesitaram e nunca se atreveram (Marcelo e Rio). Apesar de tudo, Eanes, Soares, Sampaio ou Cavaco Silva lembravam alguma espécie de êxito ou realização. Defeito dos actuais pré-candidatos, ou defeito do próprio regime, que deixou de produzir sucessos?

Mais grave é a maneira como os pré-candidatos se parecem posicionar. Guterres e Barroso não falam. Mas Marcelo, Santana e Rio não se têm calado. O que é que aprendemos? Com Marcelo, nada, porque há muito é exímio na arte de dizer tudo sem se comprometer com nada. Mas Santana, perguntado sobre quais os melhores primeiros ministros dos últimos tempos, teve uma resposta edificante: Passos e Sócrates, cada um à sua maneira. Quanto a Rio, foi mais longe e decidiu fazer dupla com António Costa, que o tratou com a condescendência devida a um futuro parceiro menor de coligação.

Os candidatos ditos de “direita” parecem partir do princípio de que o PS ganhará as eleições de 2015 e andam desesperados por obter um certificado de bom comportamento passado pela esquerda. São já, em suma, candidatos da derrota. Santana explica que o presidente deve ajudar todos e quaisquer governos. Rio, pelo seu lado, faz suas as dores de calendário eleitoral de Costa.

É óbvio que o chefe de Estado não se pode permitir facciosismos e golpadas. Outra coisa, porém, é um presidente que aceita tudo, conforme as correlações de força, uma espécie de Costa Gomes civil, dando posse num dia a Vasco Gonçalves e no outro a Pinheiro de Azevedo. De um presidente eleito por sufrágio universal, com os poderes que lhe são actualmente reconhecidos, espera-se mais. Em 2016, não podemos eleger um presidente que sirva a qualquer governo, desde o que Passos possa formar com Portas, até ao que Costa possa combinar com os restos mortais do BE. Num país ainda em ajustamento e com um parlamento provavelmente fragmentado, o presidente da república deve representar uma escolha. Não pode ser mais um factor de incerteza e de dúvida, como seria um presidente disponível para tudo. O país precisa de compromissos, mas precisa também de orientação. E por isso, convém que todos saibam muito claramente o que pensa cada candidato e o que quer. Isto é, com quem está. Porque em política, pensar e querer é necessariamente estar com alguém.

Não quero ser injusto, mas o que sinto nos correntes pré-candidatos da direita não é isenção, mas insegurança quanto ao seu apelo ou vantagem eleitoral. É provavelmente isso que lhes inspira este esforço para convencer, não os eleitores, mas a restante elite, de que nunca incomodarão ninguém, especialmente a esquerda.

D. Manuel II foi o primeiro “rei de todos os portugueses”, fórmula com que pretendeu, desesperadamente, englobar os republicanos na monarquia. Alguém, na década de 1970, reciclou a ideia a favor do general Eanes, o “presidente de todos os portugueses”. Estes pré-candidatos parecem talhados para “presidentes de nenhum português”. Porque não se é presidente de todos os portugueses fingindo que não se está com ninguém.

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