Começo por me penitenciar – antes que a justificada fúria dos leitores se abata sobre mim – por associar Sócrates a um género literário (o realismo mágico) perfeitamente respeitável, que deu dois prémios Nobel da literatura ao mundo e prazeres literários em abundância a milhões de ávidos leitores (eu incluída). Não há perdão por tão mau uso de boa literatura.

Mas eu teimo, afinal o ex-primeiro-ministro (e o PS) pretende por estes dias fazer-nos crer na normalidade dos atos mais absurdos e improváveis. E as pessoas que deles desconfiam são gente mesquinha, invejosa dos estilos de vida mais caros e vistosos, plenos de ressentimento perante o retumbante sucesso político de Sócrates (de modo nenhum o autor da bancarrota de 2011 e o presidenciável preferido de muito bom socialista).

Vejamos. Um ex-pm que vive faustosamente com dinheiro proveniente de empréstimos estratosféricos de um dedicado amigo. Empréstimos que foram – como faz o cidadão desprevenido, tanto o que empresta como o que pede emprestado, esperando-se cautelas adicionais num político mediático e com vários casos exóticos, para que desta vez ninguém acusasse de irregularidades – contabilizados, registados, com notas de dívidas emitidas? Claro que não: a amizade é muito bonita e não se contabiliza, ninguém tomou nota de quanto foi emprestado e aparentemente nem Santos Silva nem Sócrates fazem ideia do dinheiro que foi transferido de um para outro. Ah, mas o processo foi transparente, em transferências e cheques, assim em caso de dúvida de datas e montantes era só ir somar as várias tranches, porque quem não deve não teme e que mal faz um amigo emprestar dinheiro a outro? Também não, o dinheiro (perdão, ‘as fotocópias’ e ‘aquilo de que Sócrates gosta muito’) circulava em notas, com entregas feitas por terceiros, ou através da conta do motorista de Sócrates, que passava dinheiro para o patrão ou lhe pagava (num caso extremo de exploração patronal) as despesas da família. Santos Silva, empresário que subiu a pulso e propenso ao lucro, fez negócios imobiliários curiosos com a mãe e a ex-mulher de Sócrates, comprando-lhes apartamentos acima dos valores de mercado.

Isto tudo enquanto Sócrates garantia na televisão viver em Paris com dinheiro da mãe – que era muito rica (mas vai-se a ver e não é) – e um empréstimo da CGD; e sem quaisquer perspetivas financeiras de conseguir vir a pagar o dito empréstimo ao amigo Santos Silva (não esquecer que a mãe rica se evaporou). E o amigo, neste últimos anos tão altruísta, só pelo mais inocente acaso foi administrador e fornecedor de um grupo de construção particularmente bafejado pela benevolência dos governos Sócrates.

No meio ainda temos direito ao brinde de nos levar às gargalhadas do esquema da compra do livrito de Sócrates por atacado para torná-lo um sucesso de vendas (apesar de tudo houve aqui uma réstia de lucidez que falhou na condução do governo, já que era o único meio de a magna obra não ficar a ganhar humidade nos armazéns da editora). Acompanhado das notícias de que talvez não tenha sido Sócrates o autor (algo que eu pessoalmente duvido: quem tem olho para o talento literário desconfiou cedo que o futuro da retórica assaz vulgar de Sócrates na Assembleia da República, enquanto pm, seria a escrita de tratados filosóficos em francês).

(OK, também pode ser enredo para telenovela mexicana em vez de romance realista mágico).

Aqui chegados, qualquer pessoa com meio neurónio funcional entende que esta relação de Sócrates com Santos Silva é politicamente insustentável e indefensável. (Acuse-se e prove-se alguma coisa nos tribunais ou não.)

Mas o PS não só não repudia politicamente os atos de Sócrates como tacitamente o defende. Não dei por ninguém reconhecendo a mentira de Sócrates (de que vivia com ajuda da mãe e empréstimo bancário) e, menos ainda, aventar que empréstimos informais e não contabilizados de quem ganhou muito dinheiro com os governos Sócrates não é forma de um ex-pm se financiar. Pelo contrário: o bom socrático ou costista verte bílis sobre os que não desdenham a investigação ao menino de ouro do PS. E faz temer que, chegados ao governo, adotem nova versão do ‘quem se mete com o PS, leva’.

Porque o PS também está embrulhado no seu subgénero de realismo mágico. Costa, mal aterrou, tratou de reabilitar Sócrates – que já antes de preso era tão destrutivo como os fósforos da Laura Esquivel. Embarcou em delírios esquerdistas extremos próprios dos desalinhados do BE (que têm cortejado) e dos tiranetes sul-americanos. Estratégias que resultaram no soçobrar do PS na Madeira apesar da descida de votos no PSD.

Mas descansemos: afinal o PS não tem nada a ver com o que se passou na Madeira. O mágico supremo (Costa) veio dizer (um dia depois) que não há relevância nacional nos resultados. (Claro que uma subida significativa do PS seria sempre sinal de mudança para todo o país.) O savoir faire (também conhecido como ‘arrogância’ e ‘desrespeito pelos eleitores’) é tal que Costa nem cumprimentou os vencedores. Ainda que o tsunami atlântico já tenha posto fim oficial ao part-time de Costa no município de Lisboa (o fim real foi no dia de setembro em que Lisboa inundou e Costa foi avistado a festejar em Coimbra, ocupado com as primárias do partido).

E agora no PS culpam Seguro pela derrota – sim, o Seguro que desterraram argumentando que culpava Sócrates pelas três vitórias amenas que obteve. Jiang Qing, a mulher de Mao, afiançava preferir os comboios atrasados comunistas aos comboios pontuais capitalistas. O PS prefere as derrotas de Costa às vitórias de Seguro. Gostos não se discutem, não é? Sobretudo nas dimensões mágicas.