Apesar de um valoroso esforço nas últimas décadas, a tradução dos clássicos de filosofia em português de Portugal é, desde há muito, uma paisagem assombrada por lacunas.  Dou três exemplos, mas poderia naturalmente dar muitos mais. A Crítica da razão pura de Kant foi apenas traduzida – e bem traduzida, de resto – entre nós em 1985; as Meditações metafísicas de Descartes só existem na nossa língua amputadas das Objecções e respostas que são, desde a sua publicação original, uma sua parte integrante; finalmente, nenhuma tradução existe (embora esteja programada) da Metafísica de Aristóteles. Há vários problemas que esta situação cria. Centro-me num só. Os grandes clássicos – e não me refiro evidentemente apenas aos da filosofia – pedem para ser traduzidos, porque só assim podem verdadeiramente influenciar a nossa linguagem e, indirectamente, a nossa maneira de pensar, abrindo-lhe novas possibilidades e oferecendo (se as traduções forem boas) uma naturalidade que, tirando o original, quando nos é acessível, versões em línguas estrangeiras não podem nunca possuir, por mais úteis, eruditas e excelentes que sejam. A sua falta paga-se numa espécie de desfocagem no contacto com os textos que interdita a intimidade necessária para o laborioso, mas prenhe de prazer, progresso da sua compreensão.

Este melancólico parágrafo tem, no entanto, uma boa razão na sua origem. Diogo Pires Aurélio acaba de publicar na Relógio D’Água, e no seguimente de traduções prévias do Tratado teológico-político e do Tratado político, uma tradução da Ética de Espinosa. Não é, caso raro, a primeira tradução desta obra em português. Uma tradução a várias mãos foi publicada em Coimbra pela Atlântida, a partir de 1950, sendo a tradução da primeira parte, da autoria de Joaquim de Carvalho, acompanhada de uma sábia Introdução, justamente admirada. Mas os progressos do comentário espinosista entretanto verificados exigiam uma nova versão desse texto célebre. Com efeito – e o que vale para a Ética vale para qualquer grande clássico da filosofia – o progresso no conhecimento do texto obriga a não poucas mudanças dos critérios de tradução, já que novas dificuldades da obra vão sendo descobertas, camada após camada. Por isso, esta nova tradução de Diogo Pires Aurélio, que exprime tal saber acumulado ao longo das várias últimas décadas, e que, além de conter também ela uma preciosa Introdução que nos guia através das cinco partes do livro apoiada em tal saber, nos dá Espinosa num português rigoroso e imaculado, era absolutamente necessária e deve ser saudada com entusiasmo.

A Ética foi concebida pelo seu autor como um livro de libertação, em primeiro lugar, à imagem do De rerum natura de Lucrécio, como uma libertação da paixão triste do medo, particularmente do medo da morte. O trajecto espinosista é absolutamente singular, porque tal libertação se obtém através de uma investigação que percorre o conjunto das províncias da filosofia, cada uma delas ocupando uma das suas cinco partes: ontologia, epistemologia e física, psicologia, antropologia e ética propriamente dita. É esta última parte, no seu excesso rigorosamente calibrado, que desenvolve mais explicitamente a associação da libertação à felicidade obtida através do conhecimento, um tema comum a muita filosofia do século XVII, mas que Espinosa orquestra fulgurantemente na sua discussão da beatitude possível quando, descobrindo que somos parte de Deus – que em Espinosa não se distingue da Substância, isto é, da Natureza, como nos explica a Parte I -, alcançamos o “amor intelectual de Deus” e praticamos o conhecimento “sob o modo da eternidade”.

A Ética é um dos mais perfeitos sistemas que o século XVII – o século dos sistemas, por excelência, mais ainda do que o do chamado Idealismo alemão – nos legou. E apresenta, na sua originalíssima maneira, as grandes virtudes desse século filosófico, cujo legado de problemas ocupa ainda em grande medida a filosofia contemporânea, da metafísica à filosofia política. Tal longevidade explica-se em parte pela realidade que tais sistemas apresentam. Com efeito, como nos lembrou o grande historiador da filosofia Martial Gueroult, os sistemas filosóficos – todos eles – não se aferem, contrariamente às teorias científicas, pelo sucesso (ou pelo insucesso) da sua confrontação com o real exterior. Dito de outra maneira, mais brutal: não são verdadeiros nem falsos. A sua força reside antes na sua realidade. Realidade em vez de verdade. Os sistemas filosóficos são mundos nos quais penetramos e nos quais, nos melhores casos, sentimos estar em presença de algo estranhamente real, a começar pelo mundo de Platão e a acabar em certas obras contemporânes. A luz que eles oferecem sobre o real exterior é, contrariamente à das ciências, indirecta.

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