Marcelo Rebelo de Sousa analisou, este domingo, na TVI, as recentes sondagens que colocam o PS à frente nas intenções de voto dos portugueses para as eleições legislativas e presidenciais e criticou a falta de visão estratégica da direita. “As várias esquerdas têm uma estratégia em relação às eleições. O mais surpreendente é a direita não ter, neste momento, nenhuma”, afirmou o comentador.

Apesar de reconhecer a vantagem “clara” dos socialistas nas intenções de voto, Marcelo Rebelo de Sousa tem, porém, uma leitura diferente: a margem do PS na “era António Costa” não se alterou significativamente, o que parece deitar por terra o principal argumento do presidente da Câmara de Lisboa de que, quando avançou para as primárias, acusava António José Seguro de não estar a conseguir capitalizar o descontentamento dos portugueses com o Governo formado pela coligação entre o PSD e o CDS.

“O que é impressionante nas sondagens presidenciais e legislativas realizadas nos últimos meses é que elas não se alteraram muito com a liderança de António Costa. Não sei se isto não é um cumprimento póstumo a António José Seguro“, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Sobre a eventual coligação pré-eleitoral entre social-democratas e democratas-cristãos, o ex-líder do PSD foi claro: sem a coligação, “o PSD não vai a sítio nenhum”. Quanto às eleições presidenciais, e num momento em que o próprio surge como o candidato melhor posicionado na direita, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que “o desequilíbrio da balança entre a direita e a esquerda é impressionante”.

“O candidato da direita parte sempre numa posição desvantajosa porque são duas campanhas coladas e porque acaba por estar atado a uma área política (…) que o puxa para baixo”.

Já no outro lado do tabuleiro, António Costa e o PS movem-se de forma “hábil”, elogiou o comentador. “Ao PS [para ganhar as eleições] basta que não cometa erros de divisão dentro do partido na escolha dos candidatos e o PS está a gerir isso muitíssimo bem. Porquê? Porque está em compasso de espera até que António Guterres decida se avança ou não. Ao mesmo tempo, tem colocado António Vitorino em lume brando”, afirmou Marcelo.

“Ainda vamos ouvir falar deste duo durante muito tempo”

Marcelo Rebelo de Sousa comentou, também, a aproximação entre António Costa e Rui Rio que, esta semana, conheceu novos desenvolvimentos, depois de o ex-presidente da Câmara do Porto ter estado presente no debate organizado pelo PS do Porto e onde se pronunciou sobre a questão da regionalização, tema caro a António Costa.

O comentador acredita que, num cenário pós-eleitoral, e caso Rui Rio avance para a liderança do PSD, António Costa pode “procurar um acordo de incidência parlamentar e de regime” com os social-democratas, sobretudo não conseguindo a maioria absoluta desejada.

“É uma evolução muito lenta, a passo de tartaruga”, a nomeação da nova administração da RTP

Apesar de elogiar os dois nomes escolhidos para liderar a estação pública, Gonçalo Reis e Nuno Artur Silva, Marcelo Rebelo de Sousa criticou todo o processo, que, considera, está a ser conduzido a “passo de tartaruga”. Até ao momento, ainda falta conhecer o nome do financeiro que vai completar o leque do novo conselho de administração da RTP.

Ainda assim, o professor admitiu que esta pode ser uma “oportunidade para se ensaiar uma realidade nova: uma administração da RTP que não é nomeada pelo Governo, que tem várias cores e orientações políticas, que, teoricamente, defende mais serviço público e menos visão de mercado”. Marcelo Rebelo de Sousa, no entanto, deixou o avisou: “Vamos ver o que isso significa em termos de rentabilidade”.

“Tenho pena que continue a não haver um acordo de regime sobre a TAP”

Marcelo Rebelo de Sousa criticou a posição do Governo de avançar para privatização da TAP sem ter procurado um consenso alargado com os socialistas. “É tipicamente português que as decisões estruturais sejam tomadas pelo Governo sem que haja consenso”.

Sobre a questão que marcou agenda mediática na última semana, se o mecanismo de proteção contra o despedimento coletivo na TAP se aplicava a todos os trabalhadores do grupo ou só àqueles representados pelo sindicatos que aceitaram desconvocar a grave, tal como parecia ter afirmado o secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, e o próprio ministro da Economia, António Pires de Lima, o comentador acredita que apenas se tratou de um “lapso” e de um erro de percurso. “Não é preciso ser jurista para perceber que isso era ilegal”, sublinhou Marcelo.

Quanto à atuação do Governo na controvérsia que envolve a PT e a Oi, Marcelo deixou duras críticas à posição assumida pelo primeiro-ministro: “Pedro Passos Coelho deve ser o único primeiro-ministro ou chefe de Estado no mundo para quem é indiferente a sorte de uma empresa nuclear nesse país“, lamentou.

As eleições na Grécia e o Banco Central Europeu

Marcelo Rebelo de Sousa acredita que se pode estar, neste momento, prestes a entrar num ciclo de grandes mudanças na Europa. “Em primeiro lugar, as eleições na Grécia. A coligação de esquerda radical, o Syriza, parece não perder o ímpeto e continua a prefigurar-se como o próximo vencedor das eleições naquele país, mesmo com a Europa toda a pressionar” em sentido inverso e depois de uma semana “em que os bancos gregos sentiram dificuldades para se financiar”. E isto acontece porquê? “Porque as pessoas estão fartas do que está acontecer na Grécia e preferem a incerteza do Syriza à certeza de que vão penar”.

Depois, em segundo lugar, porque o “Banco Central Europeu (BCE) está prestes a receber luz verde para comprar dívida pública dos países da União Europeia”, o que significa “a injeção de dinheiro nos mercados da Zona Euro”. Esta decisão, “que deverá ser anunciada na próxima quinta-feira”, significa uma derrota da Alemanha de Angela Merkel, que “sempre se opôs à medida”, e vai permitir acalmar os mercados, em caso de vitória do Syriza nas próximas eleições gregas.