Numa história sem protagonistas, Chris Paul não deixa de o ser. A realizar a primeira época com os Phoenix Suns, a 16.ª na NBA, voltou recentemente a jogar perante alguns adeptos. Uma modesta multidão de três mil pessoas que tem assistido a um início de temporada positivo por parte de uma equipa que pouco ou nada tem feito na última década. Um ano depois de a NBA ter parado, Chris Paul parece ter voltado a ser apenas um jogador de basquetebol após ter sido muito mais do que isso durante vários meses.

Presidente da Associação Nacional de Jogadores de Basquetebol há oito anos, um dos atletas mais experientes e respeitados da liga, marido e pai. A NBA parou há pouco mais de um ano, na sequência do caso positivo de Rudy Gobert, jogador dos Utah Jazz, que abriu a porta a uma bola de neve que provocou uma interrupção inédita da competição. Nos meses seguintes, Chris Paul foi uma das vozes mais ouvidas entre a paragem, o recomeço e o início da nova temporada. “É fantástico ver como a Covid acabou por ser um ponto de partida. Mas definitivamente que não é um ponto de chegada”, diz o jogador de 35 anos no novo documentário que estreia esta quarta-feira na HBO.

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“The Day Sports Stood Still”, algo como O Dia em que o Desporto Parou, é realizado por Antoine Fuqua (de “Training Day”) e conta com Chris Paul como um dos quatro produtores executivos. O documentário começa no dia em que a NBA decidiu parar, desenrola-se ao longo dos meses de interrupção, foca-se no período de retoma na bolha criada na Disneyworld e termina no arranque da nova temporada, que está agora a decorrer. Ao longo de várias entrevistas, a jogadores, treinadores, donos de equipas mas também a atletas de outras modalidades, o filme mostra uma narrativa maior do que os seus protagonistas — embora tenha tempo para individualizar as histórias mais marcantes, como a de Karl-Anthony Towns, que perdeu a mãe e outros seis familiares devido à Covid-19.

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Mas nem só da pandemia se fala no documentário. Dois dias depois do adiamento do jogo entre os Utah Jazz e os Oklahoma Thunder, devido ao caso positivo de Gobert e o ponto de partida para a paragem da NBA, Breonna Taylor morreu quando vários polícias invadiram a casa onde vivia. Dois meses depois, o vídeo da morte de George Floyd inundou a atualidade e chocou o mundo. Os dois nomes, Taylor e Floyd, tornaram-se internacionalmente conhecidos e abriram a porta a semanas contínuas de protestos nas ruas, à sublevação do movimento Black Lives Matter, à associação de quase todos os desportos à causa e à ideia de que a NBA tinha de voltar para também tomar uma posição.

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“Eu tenho de jogar pela minha sanidade. É o quanto eu gosto de competir”, explica Chris Paul no documentário, onde é possível perceber que o movimento anti-racista que marcou o verão dos Estados Unidos foi o empurrão para os jogadores — maioritariamente negros — aceitarem terminar a temporada numa bolha criada de propósito na Flórida. Uma bolha que os afastaria das famílias durante meses, que alteraria pontos-chave da competição e que tornaria a época 2019/20 na mais atípica alguma vez disputada. Encontraram formas de se abstraírem, como o facto de Paul ter levado um teclado para aprender a tocar a música favorita da filha. Mas, de repente, tudo voltou a mudar.

Três semanas depois de a temporada ter recomeçado, Jacob Blake, um homem negro de 29 anos, foi baleado pela polícia à frente dos filhos e ficou seriamente ferido. Blake sobreviveu mas o episódio foi outra Caixa de Pandora: os Milwaukee Bucks, que normalmente jogam perto de Kenosha, onde o incidente ocorreu, boicotaram a partida dos playoffs com os Orlando Magic em protesto contra a brutalidade policial. A WNBA, a NHL e MLS seguiram o mesmo caminho e Doc Rivers, treinador dos LA Clippers, chegou a questionar numa entrevista: “Porque é que continuamos a amar este país e o nosso país não nos ama de volta?”.

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O desporto poderia ter voltado a parar aí — e o documentário mostra como Chris Paul, em conjunto com os colegas de profissão, acabou por decidir terminar a temporada dentro de court apesar de tudo o que se estava a passar fora dele. “Acho que ninguém tinha noção do impacto que o desporto tem em todos nós”, explica o jogador dos Suns. Que não deixa de reconhecer que nem o desporto, nesta altura, parece estar na mesma.