Há uns anos, antes da viragem do milénio, havia uma série de televisão humorística – Seinfeld – que toda a gente via, apreciava e comentava. Toda a gente? Não, havia quem resistisse ainda e sempre aos avanços televisivos de Jerry Seinfeld: eu. Vivia rodeada de amigos, namorado, familiares e conhecidos adoradores da série e eu sempre lhe fiquei indiferente. Ao fim de algum tempo descobri porque não gostava da série: era feia. Os atores eram feios, os cenários eram feios, os figurinos eram feios, as vistas de Nova Iorque eram feias. Em suma, os episódios, como os chineses pragmaticamente dizem de algo feio, eram difíceis de ver.

Lembrei-me de Seinfeld no outro dia ao ler que vai ser posta à venda já para este Natal uma boneca, a Lammily, que tem as proporções médias de uma adolescente de dezanove anos e – as meninas ficarão extasiadas – vem com autocolantes a simular acne e estrias. Numa nova tentativa, claro, de combater a supostamente perversa influência da Barbie de pernas longas e cintura de vespa.

Acho muito bem que haja bonecas que concorram com a Barbie (e as princesas Disney e as outras todas), mas confesso que tirando uma atualização da história do patinho feio que se torna cisne deslumbrante – agora em versão tratamento dermatológico miraculoso – duvido que a nova boneca tenha sucesso só pela posse de borbulhas na testa ou pela exibição de celulite.

E tenho pouca paciência, reconheço, para as conclusões catastrofistas que se tiram para a auto-estima das raparigas das características físicas de bonecas com que brincam ou de desenhos animados que veem na impressionável infância. No ano passado, a propósito do filme Reino do Gelo, caracteres abundantes foram escritos porque os pulsos de uma das personagens eram mais pequenos do que os seus olhos, como se um ataque ao corpo feminino se tratasse. E houve petição com dezenas de milhares de mães assinantes em fúria quando a Disney transformou a princesa Mérida do filme Indomável, uma maria-rapaz em fuga dos estereótipos da adolescente medieval e do marido que lhe queriam impingir, estreitando-lhe a cintura, aumentando o tamanho dos olhos e do decote do vestido, subindo-lhe as maçãs do rosto e – o crime mais grave de todos – amansando-lhe os caracóis.

Ora eu, feliz possuidora de pujantes caracóis naturais, até simpatizei com a indignação pela retirada à Mérida dos seus adorados arco e flecha usados no filme, mas tive dificuldade em entender tanta fúria à conta do cabelo. Gosto do ar despenteado e desorganizado dos meus caracóis, no entanto não dispenso um bom produto para os modelar, para que fiquem formados mas não rígidos nem colados. Muito certamente não fiquei ofendida por terem domado um bocadinho os caracóis da Mérida. Afinal, por que razão veria um desenho da Disney como autoridade a deliberar sobre o meu penteado?

Não me entendam mal. Acho importantes as mensagens que os brinquedos e os filmes infantis transmitem. E gosto que haja personagens principais femininas nos filmes de animação (de várias raças e de vários países) que tenham controlo sobre o seu destino e façam algo mais do que deixarem-se escolher e salvar pelo príncipe encantado. Mas, valham-nos os deuses, são bonecos e desenhos animados e as crianças percebem a diferença entre fantasia e realidade. Às vezes parece que percebem melhor do que os pais.

Mais: aprovo de todo o coração que as crianças tenham necessidade de alguma fantasia e apreciem vê-la e brincar com ela. Quem nunca teve vontade de fugir por meia hora da realidade?

Eu não sou criança e ainda tenho vontade. Por alguma razão assino a Vogue (a verdadeira, a americana). É certo que posso ser pedante e dizer que há artigos lindamente escritos na Vogue, que foi lá que pela primeira vez li sobre Sarah Palin, que as incursões pela política são sempre muito curiosas (já é famosa a peça de propaganda da família Assad publicada antes de explodir a guerra civil na Síria; mas o material propagandístico a Obama e, há poucos meses, a John Kerry não é menos divertido de ler), que antes de a Organização Mundial de Saúde colocar os telemóveis como possivelmente cancerígenos já no ano anterior um médico lá havia explicado em que consistiam os perigos para as crianças – e desde que li esse texto os meus filhos só falam por telemóvel em alta voz, nunca com telefone junto ao ouvido. É tudo verdade. Mas parte do encanto da Vogue são as produções com roupas e acessórios fabulosos e as mulheres (e ocasionalmente os homens) mais atraentes do mundo. Não interessa nada que não vá comprar o que vejo. A Vogue é uma injeção de fantasia e peças bonitas. Tal como a Mérida retocada.

De resto, prefiro as sociedades que nos dão estes escapes à realidade. Por oposição, por exemplo, aos comunismos do século XX que glorificavam a estética realista. Na União Soviética tivemos o realismo socialista, que nos ofereceu obras com o bom povo soviético a trabalhar. E, na China da Revolução Cultural, a mulher de Mao enviava os atores para aprenderem com os camponeses a realidade quotidiana a transpor para os filmes e óperas modelo. (Política que Xi Jinping, soube-se ontem, quer imitar.)

Em boa verdade, as incursões pela fantasia só estão disponíveis nas sociedades livres.