Na quinta-feira passada, na sequência do aumento contínuo de infecções por Covid, o Governo convocou, para a manhã seguinte, uma reunião urgente do Gabinete de Crise. Confesso que fiquei mais descansado ao perceber que temos um Gabinete de Crise capaz de reunir com celeridade para ajudar o Primeiro-Ministro a responder a uma emergência. Gostei da eficácia com que António Costa enfrenta uma situação de risco e não percebo como é que não aplica esta estratégia a todas as áreas do seu trabalho.

Por exemplo, na polémica da Comissão de Honra de Luís Filipe Vieira, o jeitaço que daria a Costa ter alguém que pudesse consultar. Um grupo da sua confiança que reunisse só para aconselhar o PM, explicando-lhe que o Presidente do Benfica é uma personagem com quem não é boa ideia associar-se. Chamemos-lhe Gabinete de Crime. No fundo, é como o Gabinete de Crise, mas em vez de ajudar a não ser atingido por uma crise que surge de repente, procura evitar ser atingido pelos crimes que alguém cometeu. E que, diga-se, nunca surgem de repente.

A grande diferença é que enquanto o Gabinete de Crise inclui os ministros da Economia, dos Negócios Estrangeiros, da Presidência das Finanças, da Defesa, da Administração Interna, do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, da Educação, da Saúde e o das Infraestruturas e da Habitação, além dos secretários de Estado dos Assuntos Parlamentares, Adjunto do Primeiro Ministro, Adjunto da Defesa, da Juventude e Desporto e da Mobilidade, para o Gabinete de Crime é só preciso um tipo razoavelmente bem informado. Basta isso para saber que Vieira é suspeito de ter corrompido um juiz, para saber que o seu braço direito subornou funcionários judiciais para piratear o sistema informático da Justiça, para saber que oferece jantares a árbitros e para saber que deve milhões à banca, apesar de viver como um nababo.

Claro que “tipo razoavelmente bem informado” é exagero. Vai ser preciso mais do que isso. Nomeadamente, um computador ligado à internet, para pesquisar alguma falcatrua de que o tipo razoavelmente bem informado não se lembre. São tantas, que às vezes uma pessoa confunde-se.

No fundo, o Gabinete de Crime é a versão moderna do escravo que os generais romanos tinham ao lado, nas paradas triunfais, que lhes segredava “lembra-te que és mortal” e não lhes deixava a bazófia subir à cabeça. Na falta de escravos, agora temos o Google para recordar a Primeiros-Ministros que, por mais que a vida lhes esteja a correr bem, há alguns limites que não convém ultrapassar. Emprestar a dignidade do seu cargo a um candidato de um clube de futebol é um desses. Até porque, como tudo o que emprestam a essa pessoa, Costa arrisca-se a nunca mais reaver essa dignidade.

Apesar disso, é impossível que Costa, homem esperto e bem informado, não esteja a par destas maroscas de Vieira. Aliás, é muito provável que António Costa já tenha querido repreender Luís Filipe Vieira. O problema é que o faz no Camarote Presidencial do Estádio da Luz e a conversa é sempre interrompida por um golo do Benfica. No meio da festa é chato ser desagradável com o anfitrião.

Mas a serventia do Gabinete de Crime não se esgota no escrutínio das companhias do Primeiro-Ministro. Pode estender a actividade a todo o Governo e mesmo ao PS em geral. Quando o país se prepara para a enxurrada de dinheiro da União Europeia, não fazia mal investigar os suspeitos do costume, aqueles autarcas e dirigentes partidários que arranjam sempre maneira de pôr amigos e família a beneficiarem de fundos europeus. Por exemplo, não era má ideia ficar já de olho na deputada Hortense Martins e no marido, o ex-Presidente da CM de Castelo Branco, Luís Correia. A Bonnie e o Clyde da Beira Baixa já devem estar a engendrar as ONG por onde vão canalizar os subsídios que aí vêm. Fica a dica.

Infelizmente, receio que, tal como o Gabinete de Crise, o Gabinete de Crime acabe com o Primeiro-Ministro a concluir que é para continuar a lavar as mãos.