Rádio Observador

Liberdade de Imprensa

O SMS de António Costa é inaceitável

Autor
3.656

Nos últimos anos, muitos casos foram severa e justamente criticados nos jornais e na opinião pública enquanto atentados à liberdade de imprensa. À excepção de um: o SMS de António Costa.

Num país com uma real cultura de liberdade, os insultos via SMS que António Costa dirigiu ao jornalista João Vieira Pereira, director-adjunto do jornal Expresso, teriam merecido reprovação generalizada e embaraçado o líder socialista. Mas, como estamos em Portugal e como se trata de António Costa, foi apenas nota de rodapé durante um feriado. Imagine o que seria se o mesmo tivesse acontecido nos EUA, no Reino Unido ou em França. Ou, tão simplesmente, o que se diria caso o autor do SMS fosse Passos Coelho ou Miguel Relvas, em vez de António Costa. Quando a nossa disponibilidade para condenar ataques à liberdade de imprensa é selectiva, algo está mal. E é por isso que não é fácil desempatar e decidir o que é mais grave neste episódio: se o próprio SMS de António Costa ou se o facto de ninguém se ter realmente importado.

Como tantos outros, João Vieira Pereira fez o seu trabalho, analisou as propostas do cenário macroeconómico do PS e publicou a sua opinião. Concorde-se ou discorde-se, não há como justificar a opção de António Costa que, discordando, inventou um ataque ao seu carácter (num texto onde nem sequer é mencionado) e insultou o jornalista por SMS. Quando não se gosta do que está escrito num jornal, ignora-se ou exerce-se o direito de resposta, mas não se recorre ao insulto ou à intimidação. O que António Costa fez é, portanto, desprezível – viesse de quem viesse. Mas, vindo de um candidato a primeiro-ministro, é não só inaceitável como assume relevância política: representa um incómodo para com a liberdade e um prenúncio da perigosa relação de domínio que, aliado ao poder, António Costa tentará manter com a comunicação social. Basta recordar Sócrates e a sua “liberdade respeitosa” para saber que esta combinação de poder e mau feitio está longe de ser um pormenor sem importância.

É, no entanto, inquietante que quase toda a gente tenha preferido olhar para o lado, enterrando o episódio no baú dos fait-divers. Na comunicação social, por exemplo, o caso despertou apenas breves referências, o que é difícil de compreender num sector como o jornalístico, que sempre interpretou intimidações a um dos seus como um ataque generalizado ao jornalismo e à liberdade de imprensa – nomeadamente quando os ataques vêm de figuras políticas. Mais incompreensível ainda é a ausência de reacção oficial do Expresso, que optou por deixar ao seu director-adjunto o ónus de denunciar o caso na sua coluna de opinião, sem o apoio institucional de uma tomada de posição do jornal. No fundo, o Expresso desvalorizou o acto e agiu (até ao momento) como se António Costa não fosse candidato a primeiro-ministro e como se a intimidação de um director-adjunto não fosse uma agressão ao próprio jornal. Não defender os seus contra intimidações equivale a tolerá-las. Hoje foi João Vieira Pereira, amanhã será outro – da mesma forma que, da próxima vez, um outro político fará as vezes de António Costa.

Não é segredo que, da esquerda à direita, os políticos sentem a tentação de dominar os meios de comunicação. Em ano eleitoral, prevê-se aliás o aguçar dessa ambição e, nesse sentido, o acto de António Costa não é inovador – a novidade está na (ausência de) reacção ao seu SMS. Recorde-se que o Governo de Santana Lopes criticou a TVI por causa do espaço televisivo de Marcelo e fez, em 2005, campanha eleitoral contra os jornalistas. Que Sócrates processou mais de uma dezena de jornalistas, intimidou por telefone mais uns quantos e foi acusado de orquestrar a tentativa de compra da TVI. Que o deputado socialista Ricardo Rodrigues roubou gravadores a jornalistas da revista Sábado em plena entrevista. Que o ministro Miguel Relvas, em 2012, ameaçou e pressionou uma jornalista e uma editora do jornal Público. Que, recentemente, os partidos do arco de governação tentaram impor um visto prévio na cobertura mediática das campanhas eleitorais. E que todos estes casos foram severa e justamente criticados nos jornais e na opinião pública enquanto atentados à liberdade de imprensa. Todos, à excepção de um: o SMS de António Costa.

Dir-me-ão que cada caso é um caso e, em parte, talvez seja assim. Mas se começarmos a estabelecer excepções quanto ao respeito por princípios básicos de um regime democrático, como é a liberdade de imprensa, estaremos a abdicar do que temos de melhor. É estranho ter de o relembrar, mas as regras da liberdade aplicam-se a uns e a outros da mesma forma, sem privilégios. Dito de outro modo, nem António Costa nem outro político qualquer devem estar isentos de escrutínio ou poder enviar todos os SMS insultuosos contra jornalistas que o saldo do seu telemóvel permitir. É igual para todos. E quem achar que António Costa deve constituir excepção depois não se venha queixar.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
PSD/CDS

35 horas: outro vazio de representação /premium

Alexandre Homem Cristo
121

PSD e CDS já não defendem a convergência dos sectores público e privado (40 horas de trabalho semanais). Quem representa, então, os eleitores que compreenderam a sua medida em 2013? Ninguém.

Racismo

Quotas raciais? Uma péssima solução /premium

Alexandre Homem Cristo
180

Só com informação fiável se podem realizar bons diagnósticos e só com estes se conseguem desenhar políticas públicas eficazes – em vez de soluções “faz-de-conta” para problemas incompreendidos.

Polémica

A ostraca /premium

Helena Matos
1.072

Todos, a começar pelo director do Público, teremos a qualquer momento o nosso nome inscrito na lista dos que devem ser banidos. A ditadura das causas exige-o. 

Feminismo

Liberdade p/assar /premium

Alberto Gonçalves
105

O descaramento do MDM e associações similares é infinito. Uma coisa, já de si irritante, é a sensibilidade contemporânea a matérias tão insignificantes que não ofenderiam o antigo arcebispo de Braga.

Natalidade

Como captar os votos de um jovem casal?

Ricardo Morgado

O nascimento de uma criança altera, complemente, a vida de um jovem casal. Para que tal aconteça mais vezes, é essencial que o Estado saiba responder às suas necessidades e a algumas urgências.

Toxicodependência

Fernanda Câncio, a droga não é "cool"

Henrique Pinto de Mesquita

Venha ao Bairro do Pinheiro Torres no Porto. Apanhamos o 204 e passamos lá uma hora. Verá que as pessoas que consomem em festivais não são bem as mesmas que estão deitadas nas ruas do Pinheiro Torres.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)