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‘A cremação de Sam McGee’ é um poema constituído por dezasseis estrofes e o senador John McCain sabia-as de memória. Na sua cela de prisioneiro no Vietname, ouvira o vizinho do lado batê-lo repetidamente na parede em código Morse e acabara por decorá-lo. «Era o poema favorito dele», recordaria mais tarde, em entrevista nas primárias de 2000. Nesse ano, regressaria a Hanói para mostrar essa cela ao filho de 13 anos. A parede do poema ainda lá estava.

Há mais exemplos da relação, no mínimo, surpreendente entre o falecido político e o antigo inimigo. Pouco tempo depois de ser libertado de uma clausura de meia década, voltaria a Saigão para visitar instituições de solidariedade e orfanatos. Mais tarde, enquanto senador, chegaria a defender os interesses do Vietname em áreas tão irrisórias quanto o comércio de camarão. Mas issoera John McCain. Cada vez que a vida lhe roubava a humanidade, ele procurava devolvê-la ao mundo.

Quando chegou o cancro, brincou que o seu cabelo não cresceria «outra vez de certeza» e não deixou de subir a colina do Capitólio para discursos e votações. Perante a adversidade, depois da derrota e da dor, o norte-americano mantinha sempre a graça. Foi assim contra Barack Obama durante as presidenciais de 2009 («Não te posso desejar boa sorte, mas desejo-te bem»), foi assim nos consecutivos regressos ao Vietname e foi assim nas constantes assunções de erro. Nesse sentido, McCain era um político de características raras: arrependia-se publicamente, perdoava e pedia para ser perdoado, divertia-se («Fui o tipo mais sortudo do mundo»), era violentamente sincero (admitindo um «desinteresse» por economia em plena crise do subprime), promovia a imprensa livre (fez campanha num autocarro – o Straight Talk Express – com esse propósito) eprocurava consensos por interesse nacional e não por tática partidária.

Com efeito, isso foi notório nas mais variadas pastas e ao longo de todo o seu percurso. Na reforma da imigração com Ted Kennedy, na proteção dos veteranos com Bernie Sanders, na quase vice-presidência com John Kerry, na condecoração por Joe Biden. McCain cruzou as câmaras em nome do melhor para o seu país. Mais do que política propriamente dita, era serviço público. Na luta contra a tortura, o aquecimento global ou o amadorismo do sr. Trump, esteve sozinho e muitas vezes isolado no seu próprio partido.

No entanto, contrariamente ao instinto de alguns, eu não creio que tenha sentido combater Donald Trump enquanto se lembra John McCain porque a singular evocação da sua memória – da sua decência – é suficiente para a pequenez de um ficar exposta e para a grandeza do outro não ser esquecida. A nós, europeus, sobra-nos um dever moral: agradecer a este homem que acreditou até ao fim que o Ocidente merece ser defendido pela América. E ter esperança que ele não tenha sido o último.

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