Obituário

Obrigado, John McCain /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho

A nós, europeus, sobra-nos um dever moral: agradecer a este homem que acreditou até ao fim que o Ocidente merece ser defendido pela América. E ter esperança que ele não tenha sido o último.

‘A cremação de Sam McGee’ é um poema constituído por dezasseis estrofes e o senador John McCain sabia-as de memória. Na sua cela de prisioneiro no Vietname, ouvira o vizinho do lado batê-lo repetidamente na parede em código Morse e acabara por decorá-lo. «Era o poema favorito dele», recordaria mais tarde, em entrevista nas primárias de 2000. Nesse ano, regressaria a Hanói para mostrar essa cela ao filho de 13 anos. A parede do poema ainda lá estava.

Há mais exemplos da relação, no mínimo, surpreendente entre o falecido político e o antigo inimigo. Pouco tempo depois de ser libertado de uma clausura de meia década, voltaria a Saigão para visitar instituições de solidariedade e orfanatos. Mais tarde, enquanto senador, chegaria a defender os interesses do Vietname em áreas tão irrisórias quanto o comércio de camarão. Mas issoera John McCain. Cada vez que a vida lhe roubava a humanidade, ele procurava devolvê-la ao mundo.

Quando chegou o cancro, brincou que o seu cabelo não cresceria «outra vez de certeza» e não deixou de subir a colina do Capitólio para discursos e votações. Perante a adversidade, depois da derrota e da dor, o norte-americano mantinha sempre a graça. Foi assim contra Barack Obama durante as presidenciais de 2009 («Não te posso desejar boa sorte, mas desejo-te bem»), foi assim nos consecutivos regressos ao Vietname e foi assim nas constantes assunções de erro. Nesse sentido, McCain era um político de características raras: arrependia-se publicamente, perdoava e pedia para ser perdoado, divertia-se («Fui o tipo mais sortudo do mundo»), era violentamente sincero (admitindo um «desinteresse» por economia em plena crise do subprime), promovia a imprensa livre (fez campanha num autocarro – o Straight Talk Express – com esse propósito) eprocurava consensos por interesse nacional e não por tática partidária.

Com efeito, isso foi notório nas mais variadas pastas e ao longo de todo o seu percurso. Na reforma da imigração com Ted Kennedy, na proteção dos veteranos com Bernie Sanders, na quase vice-presidência com John Kerry, na condecoração por Joe Biden. McCain cruzou as câmaras em nome do melhor para o seu país. Mais do que política propriamente dita, era serviço público. Na luta contra a tortura, o aquecimento global ou o amadorismo do sr. Trump, esteve sozinho e muitas vezes isolado no seu próprio partido.

No entanto, contrariamente ao instinto de alguns, eu não creio que tenha sentido combater Donald Trump enquanto se lembra John McCain porque a singular evocação da sua memória – da sua decência – é suficiente para a pequenez de um ficar exposta e para a grandeza do outro não ser esquecida. A nós, europeus, sobra-nos um dever moral: agradecer a este homem que acreditou até ao fim que o Ocidente merece ser defendido pela América. E ter esperança que ele não tenha sido o último.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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